VINHO
- O crente pode beber? (CC)
NOTA: Prezado visitante da “Estudos
bíblicos sem fronteiras teológicas”.
Se tenciona ler o artigo sobre o vinho,
peço-lhe que o leia até ao fim, antes de tirar as suas conclusões. Este artigo
poderá ser copiado livremente, mas com duas condições: Em primeiro lugar, que
seja feita uma divulgação da totalidade do artigo e não somente a parte que
mais se adapta às suas ideias, e em segundo lugar, que seja mencionada a sua
origem, a “Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas” ou a “Site-berea”.
Que o Senhor o oriente na leitura deste
estudo.
Vinho
– 1 (Camilo Coelho)
O vinho, na Bíblia
Introdução
Recebi há dias esta mensagem dum jovem
irmão em Cristo, de Campinas, no Estado de São Paulo – Brasil.
A Paz do Senhor,
Irmão Camilo, saudades,
como vai! Já faz tempo que não nos falamos, aliás estive fora da internet uns
dias, resolvendo problemas, mas graças a Deus sempre com Jesus no barco.
Gostaria que o irmão, mais
uma vez me respondesse a questões voltadas à Bíblia, e desta vez gostaria que o
irmão me esclarecesse melhor, o que o apóstolo Paulo estava querendo dizer a
Timóteo quando implicou sobre que os diáconos deveriam não ser dados a muito
“vinho”, Várias passagens na Bíblia falam do vinho, do suco da uva, segundo o dicionário,
mas porque não ser dado a muito suco de uva, ou qual a explicação à luz da
Bíblia, pois, também o apostolo, fala para não nos enchermos do “vinho”, em que
há contenda, mas do Espírito de Deus!
Aguardo resposta,
A PAZ DO SENHOR - Everaldo - Campinas/Brasil
Qual terá sido o motivo que levou este
jovem a fazer-me esta pergunta? Não é caso isolado, pois alguns outros
brasileiros, na maioria jovens, encontram a minha página na internet e resolvem
contactar-me, fazendo perguntas a que tento responder, embora não seja pastor e
não fale em nome de nenhuma igreja. É interessante,
que estando em Portugal, são em muito maior número os brasileiros que me
contactam do que os portugueses. Talvez em parte, seja pelo nome da minha
página “Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas”, uma página que somente se
preocupa com a fidelidade aos textos bíblicos, sem se preocupar com as
tradições, sejam elas católicas, evangélicas ou ortodoxas.
Mas, será que faz sentido, um jovem
diácono brasileiro, dirigir esta pergunta para o outro lado do Atlântico?
Penso que sim, que esta troca de
pensamentos e opiniões entre os dois lados do Atlântico, do Brasil para
Portugal, e de Portugal para o Brasil, é salutar e é uma forma de testar as
nossas convicções teológicas, uma forma de saber se uma determinada afirmação
ou opinião tem fundamento bíblico ou se será somente fruto do nosso contexto
cultural ou histórico. É que o genuíno Evangelho que Cristo nos apresentou, é
universal, é para todas as épocas e todas as culturas. Podemos testar a
veracidade das nossas convicções, até mesmo dentro do nosso espaço lusófono,
pois se determinada afirmação não for válida em Curitiba no sul do Brasil, em
São Paulo, no interior da Amazónia, em Lisboa, em Nampula no norte de
Moçambique, na Guiné, nas Ilhas de Cabo Verde, nas ilhas dos Açores, no meio do
Atlântico ou na Marinha Grande no centro de Portugal, onde me encontro, então é
porque não se trata duma genuína afirmação bíblica eterna e universal, mas
somente um aspecto da nossa cultura.
Os aspectos culturais podem e devem ser
questionados, mas com precaução. Pelo facto de determinada afirmação não ser
bíblica, não significa que não seja útil a sua preservação, enquanto se
mantiver o contexto cultural que lhe deu origem. Mas deverá ser apresentada
como tal, como simples tradição e não como mensagem do Senhor, pois a Bíblia
não pode ser alterada.
Diferenças
culturais
Quando um evangélico português vai ao
Brasil, ou quando um brasileiro vem a Portugal, um dos pormenores mais
chocantes é o problema das bebidas alcoólicas e do vinho em particular. No
Brasil o crente não pode tocar num copo de vinho, enquanto em Portugal o vinho
é visto com naturalidade e está presente nas festas das igrejas evangélicas,
embora certamente que se condena o abuso do vinho assim como se condena o abuso
da comida.
Esta diferença de atitudes tem uma
origem histórica, pois o Brasil foi evangelizado principalmente por
missionários americanos, cuja tradição os proibia de beber vinho. Por um lado,
temos de ser compreensivos para com a sua atitude, pois vinham duma cultura sem
tradição vinícola, enviados por igrejas que não sabiam diferenciar o verdadeiro
vinho, do whisky, cachaça ou outras bebidas destiladas com elevado teor
alcoólico e ao chegar ao Brasil, onde a igreja mãe nos USA esperava que
fundassem uma igreja que fosse uma cópia fiel da igreja mãe, encontraram um
povo em que o alcoolismo era um dos principais problemas. A sua reacção foi
certamente a continuidade da tradição americana, que tinham aprendido desde crianças,
que o crente não pode beber. O Evangelho divulgou-se em todo o Brasil
principalmente entre a classe mais humilde, que nunca questionou tais ensinos
em face das Escrituras.
No entanto, presentemente a situação
está a mudar. Os evangélicos cresceram em número em maturidade e já questionam
as tradições que receberam. É disso um bom exemplo a mensagem que recebi.
Nos países africanos que falam a nossa
língua, em especial Moçambique, Angola etc. a situação é semelhante ao que se
passa no Brasil, por vezes reforçada pela tradição islâmica (norte de
Moçambique) e suponho que também na Guiné, visto que o islão
proíbe as bebidas alcoólicas.
O que era o
vinho
Segundo informação que consegui obter na
literatura consultada, com especial referência para o Dicionário Bíblico de Davis, a “International Standard Bible Encyclopaedia” e o
Dicionário de Teologia Bíblica da Bauer, (Edições Loyola) quase toda a bebida alcoólica que se fabricava em
Israel era vinho genuíno, vinho de uvas, que eram colhidas maduras e transportadas
em cestos para o lagar escavado em rocha, com cerca de 2 a 3 metros quadrados
de superfície e 40 a 50cm de profundidade. Pelas descrições que obtive, penso
que não seriam muito diferentes dos lagares que temos nesta zona do centro de
Portugal, onde me encontro, embora a maior parte desses antigos lagares, já não
funcione devido a outros métodos mais modernos e mais rentáveis que os tornaram
obsoletos. Parece que a única diferença é que estes antigos lagares que ainda
temos em Portugal são de betão. É possível que também haja lagares escavados em
rocha, mas nunca os vi.
As uvas eram pisadas e o suco da uva,
para empregar a expressão mais utilizada no Brasil, ou o sumo da uva, expressão
mais vulgar em Portugal e nos países africanos que falam a nossa língua, embora
o termo mais correcto seja o mosto, escorria para uma vasilha ou outro
compartimento de menores dimensões. Penso que este sistema se manteve
praticamente inalterável há milénios, pois já era assim no antigo Egipto, antes
de Israel existir como nação. Só nos nossos dias é que está a ser alterado, mas
quanto a essa parte, o melhor é pedir a colaboração a quem sabe, que não são os
teólogos, mas os especialistas no assunto, como é o caso da jovem engenheira de
alimentação Ângela Faria, membro da Igreja Batista da Maceira
– Portugal, a quem vou pedir para nos falar do vinho dos nossos dias.
Tal como nos nossos dias, pois as leis
da química e da biologia não mudaram, o mosto sofria a fermentação alcoólica,
dando origem ao vinho e este, após a fermentação acética dava origem ao
vinagre. A palavra grega “oxos”, ou a hebraica “homes”, tanto podia designar vinho como vinagre.
Devo afirmar em primeiro lugar, que não
há na Bíblia, passagens didácticas sobre o vinho, que definam com o rigor
científico dos nossos dias o que é propriamente o vinho, e as suas
características químicas e bacteriológicas, mas vamos fazer referência às
várias palavras, quer no hebraico do Antigo Testamento, quer no grego do Novo
Testamento.
A expressão mais utilizada, que é traduzida
por vinho, é a palavra hebraica “yayin” equivalente à
palavra grega “oinos” e à palavra latina “vinus” que deu vinho na nossa língua. Essa palavra aparece
em Génesis
9:21 e Génesis
19:32, onde pelos seus efeitos, não há dúvida de que era mesmo vinho que
foi consumido descontroladamente.
A palavra “tirosh”
que aparece em Números
18:12, Neemias 10:37, Joel
2:24 a maior parte das nossas melhores versões da Bíblia traduziu por mosto
ou vinho novo. Na passagem de Joel, não há dúvida de que era mosto, pois se
ainda estava a transbordar no lagar, certamente que ainda não tinha fermentado.
No entanto, nas outras passagens é por vezes traduzida por vinho, ou vinho
novo.
Outra palavra que aparece por exemplo em
Actos
2:13 é a palavra “gleukos”, que a maior parte das
nossas versões traduz por mosto.
Penso que ao considerar estas palavras,
não podemos ignorar o contexto histórico destes textos. Presentemente, todas as
garrafas de vinho em Portugal, têm a indicação do teor alcoólico que é
determinado pelo laboratório de análises da adega cooperativa onde o vinho foi
produzido, mas nessa época ainda não havia equipamento para determinar a
composição do vinho. Não é de estranhar que apareçam casos intermédios, em que
não está bem definido do que se trata. Assim, como classificar o “vinho”, uma
semana depois das uvas serem prensadas? Ainda falta muito para ser vinho “oinos”, mas a fermentação alcoólica já se iniciou e já não
é o genuíno mosto “gleukos”. Neste caso, talvez a
designação mais correcta fosse o “tirosh”, que por
vezes é traduzido por vinho novo. Um caso em que há certa indefinição é a
passagem que já mencionei em Actos
2:13, pois “gleukos” significa mosto. Mas será
que eles poderiam estar embriagados com mosto, o tal suco da uva? Penso que
mais correcta neste ponto será a Bíblia de Jerusalém que traduz por “vinho
doce” dando a ideia dum início de fermentação alcoólica. Mas não há dúvida de
que o vinho velho, já fermentado era o mais apreciado, segundo vemos no próprio
evangelho de Lucas
5:39 onde aparece a expressão grega mais utilizada “oinos”.
Actos 2:13

Lucas 5:39

Uma vez que a vindima está relacionada
com a época do ano e se efectua só uma vez por ano, o natural era terem o mosto
só nessa época, nos dias em que as uvas eram pisadas, uma vez que ainda não
havia a cultura em estufas, para se obter uvas fora da época, nem meios de
congelação para conservação do mosto, técnicas que são bem dos nossos dias.
Segundo alguns afirmam, era possível
evitar a fermentação do mosto, se metido em ânforas bem tapadas e mergulhadas
em água fria, abaixo dos 10 graus centígrados. Os romanos empregavam este
método, mas é pouco provável que na maior parte do território de Israel, onde a
vinha era cultivada, se encontrasse água em tal quantidade e a essa temperatura
durante todo o ano. É verdade que há neves eternas no monte Hermom,
e mesmo em Jerusalém, devido à altitude, a temperatura média em Agosto (o mês
mais quente) é de 26º centígrados, mas trata-se dum micro-clima,
só no cimo do monte, pois na maior parte do vale do Jordão registam-se grandes
amplitudes térmicas com altas temperaturas no Verão. Segundo a “International Standard Bible Encyclopaedia” (Volume V - página 3086) “É muito difícil a
conservação do mosto (portanto sem fermentação), sem o recurso a modernos meios
de desinfecção, pelo que a sua preservação num clima quente e com deficiente
higiene, não era possível.” Outro método de se evitar a fermentação alcoólica,
era ferver o mosto e transformá-lo numa espécie de doce de uva. Mas este
método, não conservava o mosto, como dizem, mas criava um subproduto do mosto,
uma espécie de “mel” de uva. Não é possível, que num clima quente e seco, tais
métodos de conservação do mosto, tivessem grande aplicação como alguns
defendem. Certamente que quase todo o mosto era para ser transformado em vinho
e somente uma pequena parte seria consumida, mas só nos dias em que as uvas
eram pisadas.
Havia também o “mesek”
ou “mimsak” que aparece em Salmos
75:8, Provérbios
23:30, Isaías
55:11 que era o vinho misturado com especiarias.
Havia também bebidas alcoólicas
fabricadas com outros frutos, que não eram propriamente o verdadeiro vinho de
uva, mas produtos da fermentação da cevada (antepassado da cerveja?), da
tâmara, da maçã e de outros frutos.
Utilidade
do vinho
É evidente que a maior utilidade do
vinho, o vulgar vinho do ano, o “yayin” do Antigo
Testamento, ou o “oinos” do Novo Testamento, tal como
se passa nos países de tradição vinícola, como Portugal, era para ser bebido às
refeições. Era a bebida do pobre, embora houvesse outros tipos de vinho a
custos mais elevados, só acessíveis a uma minoria.
Há no entanto, várias passagens em que o
vinho era utilizado como medicamento. É o caso de Lucas
10:34, na parábola do bom samaritano, em que este deitou azeite e vinho nas
feridas. Temos também em I
Timóteo 5:23 o caso de Paulo a aconselhar Timóteo a beber um pouco de vinho
por causa das suas enfermidades.
Lucas 10:34

I Timóteo 5:23

No Antigo Testamento, encontram-se
passagens que determinavam as ofertas de vinho dedicadas ao Senhor, em Êxodo
29:40, Levítico
23:13, Deuteronómio
14:26 onde aparece a mesma palavra “yayin” que
serviu para embebedar a Noé em Génesis
9:20, palavra que aparece, quer isolada, quer associada a outras palavras.
Génesis 9:20

Êxodo 29:40

Levítico 23:13

Deuteronómio 14:26

Também Melquisedec,
rei do Salém e sacerdote do Deus altíssimo, tantas vezes citado como um exemplo
digno de se seguir, quando se fala no dízimo, em Génesis
14:18 trouxe pão e vinho “yayin”.
Génesis 14:18

Em várias passagens encontram-se
referências ao pão, vinho e azeite, as bases da alimentação no Antigo
Testamento.
Atitude
de Jesus perante o vinho
Como evangélicos, a Bíblia é para todos
nós, a tal espada de dois gumes, que tanto dá para cortar para um lado como
para o outro.... já todos nós sabemos disso. Mas
dentro da própria Bíblia, temos como supremo exemplo a figura do nosso Mestre,
as suas ideias e o seu comportamento e é isso que nos interessa.
Vejamos em primeiro lugar o que é
possível conhecer sobre o vinho, no contexto cultural em que Jesus viveu, em
que havia uma secular tradição vinícola.
Muito dessa tradição, é bem parecido com
o que se passa em quase todos os países mediterrâneos, excepto o Norte de
África, onde devido ao islamismo se perdeu a tradição vinícola, mas ainda hoje,
embora os hábitos estejam a mudar, é possível ver em algumas antigas casas de
campo em Portugal, Espanha, sul da França, Itália e Grécia, o fabrico de vinho
no lagar como se fazia no tempo de Jesus.
No Israel dessa época, havia os que
exageravam no consumo do vinho e outras bebidas de teor alcoólico muito mais
elevado, e havia também os que se abstinham do vinho, como era o caso dos recabitas, uma comunidade sectária que levava vida nómada e
não praticava a cultura da vinha nem qualquer tipo de agricultura, como vemos
em Jeremias
35:12/15. Havia também alguns casos em que se abstinham do vinho e certas
comidas, geralmente durante um certo período, para se dedicarem ao Senhor, e
temos também os que faziam o voto de nazireu, como
era provavelmente o caso de João Batista, mas estes nem bebiam vinho nem comiam
uvas frescas nem secas, portanto também não poderiam beber do mosto da uva,
como vemos em Números
6:3.
Lendo os evangelhos atentamente e sem
preconceitos, temos de concluir que Jesus bebia vinho
normalmente, como bebiam todos no seu contexto cultural.
É verdade que em Mateus
11:19, Jesus é acusado de ser comilão e beberrão.
Mateus 11:19

Vemos que a palavra utilizada no grego é
“oinos” e beberrão poderia ter sido traduzido por
bebedor de “oinos”. Claro que não podemos aceitar
esta acusação. O que deve ter acontecido, é os seguidores de João Batista
imaginarem um Messias do tipo de João Batista, e quando viram que Jesus, em vez
de se isolar no deserto ou no interior do Templo, procurou aproximar-se dos
pobres, sem fazer distinção alguma, ficaram escandalizados. E ainda mais
escandalizados ficaram, ao ver Jesus a beber com os pecadores e logo o acusaram
de beberrão. Isto ainda acontece nos nossos dias com esses “santarrões”
que se afastam do homem pecador e também querem confinar Jesus ao seu reduzido
espaço litúrgico.
A Bíblia apresenta várias passagens em
que se alerta para o abuso do vinho. Encontramos esses avisos em I
Coríntios 5:11 e I
Coríntios 6:10, Gálatas
5:21, Efésios
5:18 e I
Pedro 4:3.
Se ainda tivéssemos dúvidas sobre as
acusações em Mateus
11:19, estas passagens seriam suficientes para concluirmos:
1) Não há nenhuma passagem neotestamentária em que se proíba o vinho.
2) Encontramos passagens em que se
alerta para o abuso do vinho, o que de certa maneira vem demonstrar que o vinho
“oinos” era utilizado pelos primitivos cristãos.
Passagens
mencionadas pelo jovem irmão Everaldo
Meu caro Everaldo.
Embora não tenhas mencionado as
passagens, certamente por não ser necessário, de tal maneira elas são
conhecidas de todos nós, não tenho dúvidas de que te referes a I
Timóteo 3:8 e Efésios
5:18.
Tens toda a razão nas dúvidas que
levantas, e a tua atitude de questionar o que te ensinaram, está perfeitamente
de acordo com a mentalidade dos bereanos que Paulo elogiou, apresentando-os
como um exemplo de estudantes da Bíblia. Isso foi assim no tempo de Paulo,
embora essa mentalidade ficasse esquecida durante vários séculos. Durante toda
a idade média a Bíblia ficou esquecida, para se ensinar a tradição da Igreja,
produto da mente humana. No entanto, a mentalidade dos bereanos voltou a
reviver nos tempos da Reforma Protestante, quando a opinião das “Autoridades
Eclesiásticas” foi posta em dúvida pelo povo que depois de tantos séculos,
voltara a ter acesso às Santas Escrituras. Parece-me que nos nossos dias, temos
de reaprender que a Bíblia, e em particular os ensinos do nosso Mestre, são a
nossa única e insubstituível fonte de conhecimento de Deus e o nosso padrão de
comportamento, ou como dizia Lutero “Somente a Escritura”.
Por vezes, quando se levantam questões
um tanto incómodas para os nossos “entendidos”, quando há falta de argumentos,
é vulgar a afirmação: “A Bíblia em português diz isto... (como se não
conhecêssemos a nossa língua!!!). Mas nos textos originais aparece outra coisa.
O irmão sabe hebraico? Conhece o grego?.....” E assim acaba a conversa.
Penso que nós, os que não sabemos grego
nem hebraico, não temos necessidade de nos reduzirmos ao silêncio perante tais
argumentos. O estudo das Escrituras é demasiado importante para que possamos
confiar em quem quer que seja, muito menos nos teólogos, embora com todo o respeito
que nos merecem, pois a história da Igreja, tanto no passado como no presente,
está cheia de exemplos de como a Bíblia tem sido deturpada, por vezes até com
boas intenções, por pessoas que pensaram estar prestando um bom serviço à
Igreja do Senhor. A melhor maneira de salvaguardar esses desvios doutrinários,
é a Bíblia ser interpretada por aqueles a quem o Senhor a dirigiu, pelo próprio
povo evangélico.
Qualquer um de nós, poderá comprar um
Antigo Testamento em hebraico, ou um Novo Testamento em grego, mesmo sem
conhecer estas línguas, e com o dicionário e uma pequena ajuda de quem conheça
estas línguas, confirmar quais as palavras que estão nos textos originais.
Assim, mais importante do que a minha
opinião ou a minha explicação para a tua pergunta, é examinares pessoalmente os
textos em grego dessas passagens, que vou juntar a seguir. Se a palavra que
encontrares for “gleukos”, como está em Actos
2:13, então é mosto, ou suco de uva, mas se encontrares “oinos”, escrito com letras gregas, então é vinho, o tal
vinho de uva já fermentado.
I Timóteo 3:8

Efésios 5:18

Meu querido e jovem irmão. Fico feliz
por me dirigires esta pergunta, um tanto polémica, mas o apelo que te faço é
que não acredites em mim, nem em ninguém, mas apega-te às Escrituras, em
especial aos textos originais, que afinal concordam com a nossa Bíblia em
português.
Vinho
na Ceia do Senhor
Há pastores evangélicos no Brasil que,
desconhecendo o contexto cultural em que Jesus viveu, dizem que Cristo não
utilizou vinho “oinos” ao instituir a Santa Ceia, por
aparecer a expressão “fruto da vide”, que segundo eles, Jesus utilizou para
mostrar que não se tratava de vinho mas somente mosto. No entanto, trata-se dum
eufemismo muito vulgar nessa cultura. Esta expressão “fruto de
....” é típica da cultura judaica e encontra-se em muitas outras
ocasiões, mesmo sem ser uma referência ao vinho. Podemos encontrar “fruto da
árvore” em Génesis
3:3, “fruto da terra” em Génesis
4:3, Números
13:20, Números
13:26, Deuteronómio
1:25, Deuteronómio
7:13, “fruto da boca” em Provérbios
13:2 e Provérbios
18:20, “fruto da mentira” em Oséias 10:13 e isto não significa que “fruto da árvore”
não fosse uma verdadeira fruta ou que “fruto da mentira” não se referisse a uma
verdadeira mentira.
Verifica-se uma certa unanimidade em
todas as boas traduções que consultei, traduções efectuadas a partir das cópias
dos manuscritos originais. Em Mateus
26:26/29, Marcos
14:22/25 e Lucas
22:17/20 tanto Ferreira de Almeida, como a Jerusalém, e a TEB traduzem por
fruto da vide, ou da videira e em I
Coríntios 11:23/26 referem-se a cálice. A TOB refere-se a “fruit de la vigne”
e “cette coupe”
respectivamente, Reina Valera menciona “fruto de la vid” e “copa” e a Vulgata Latina menciona “genimine vitis” e “calix”.
Essa passagem em Actos,
é muito significativa, pois culturalmente está bem próxima da nossa cultura. Em
Portugal, quando se convida alguém a “tomar um copo”, subentende-se que será um
copo de vinho, pois se não for de vinho, será necessário mencionar que é um
copo de cerveja ou um copo de água... mas se nada se disser sobre o conteúdo do
copo, certamente que será de vinho. Parece ter sido esse
o critério seguido por Lucas, quando escreveu o livro
de Actos mencionando o cálice sem referir o seu conteúdo.
Outro argumento utilizado para “provar”
que na Ceia do Senhor não foi utilizado vinho, mas somente o mosto, que teria
de ser conservado desde a vindima do ano anterior, pois esta se fazia em Agosto
e Setembro e eles estavam na época da Páscoa (14 de Abib)
que corresponde aos meses de Abril ou Maio, é o facto do Êxodo
12:14/30 proibir que, nesses sete dias da festa pascal, houvesse fermento
nas casas dos judeus. Este argumento, não toma em consideração a época e a
cultura, pois fermentação do vinho, nunca na Bíblia foi considerada como
fermento e o contexto desses versículos mostram claramente que toda a ênfase é
colocada nos pães asmos. Quem comesse pão levedado na
época da Páscoa, de acordo com o versículo 15, seria “cortado” ou “eliminado”
de Israel, uma forma de se referir à pena de morte. Mas ao aceitar este
argumento como válido, então teríamos principalmente de rejeitar a utilização
do vulgar pão, nos nossos cultos de Ceia do Senhor, para passar a utilizar a
hóstia, como fazem os católicos. É verdade que o Antigo Testamento por vezes
fala no fermento associando-o à impureza e ao pecado, mas Jesus não deu apoio a
esta velha ideia sobre o fermento, quando em Mateus
13:33 compara o próprio Reino de Deus com um pouco de fermento. Penso que
isso é um bom passatempo para os “fariseus” dos nossos dias que ainda não
compreenderam que a mensagem de Jesus não está subordinada à mentalidade
veterotestamentária, pois muitos critérios foram anulados ou profundamente
alterados, e a Ceia Senhor não é uma comemoração da Páscoa judaica: Não se fala
do cordeiro pascal e os elementos centrais são o pão e o vinho. Mas há outra
profunda diferença. É que a morte, o cadáver, que era o máximo de impureza, em
especial em Levítico, que tornava impuro quem nele tocasse, passa a ser fonte
de bênção e de vida, passa a ser o único caminho para Deus.
Bodas
de Caná
Um dos primeiros milagres de Jesus, pelo
menos é o primeiro que ficou registado, encontra-se em João
2:1/12.
Segundo os textos bíblicos, Jesus
transformou a água em vinho. A palavra que aparece nos versículos 3, 9 e 10,
nas cópias dos manuscritos em grego, não é “gleukos”
nem “tirosh” que possam ser traduzidas por mosto, mas
é a palavra “oinos” que significa vinho, o verdadeiro
vinho de uva, já fermentado.
Mesmo quem não souber grego, como é o
meu caso, pode procurar as palavras no texto em grego que junto a seguir, onde
está assinalada a palavra “oinos”, para que todos
possam conferir esta informação.
João 2:1-12

O texto é bem claro. Neste milagre,
Jesus transformou a água em vinho. A palavra “oinos”
não deixa margem para dúvidas. Devemos aceitar o verdadeiro Cristo dos
evangelhos, que se alegra com o seu povo, que compreende os seus que reconhecem
a sua voz, como as ovelhas ouvem a voz do seu pastor, embora haja quem siga um
outro “Jesus” da sua tradição. Para esses, que já decidiram não crer na
evidência das Escrituras, que colocam a sua tradição em primeiro lugar, não há
nada a fazer. Nem o próprio Cristo os poderá mudar. Mas vejamos alguns
argumentos que apresentam, para “provar” que não era verdadeiro vinho.
1) Dizem alguns, que após esgotado o
vinho, foi servida água, em tom de piada que foi bem aceite por todos.
2) Se o objectivo do milagre era
manifestar a glória de Deus, não poderia ter sido verdadeiro vinho, depois dos
convidados já terem bebido muito.
Prefiro não comentar estes argumentos,
mas não posso deixar de lamentar a forma como torcem as Escrituras para as adaptar
às suas tradições.
Podemos imaginar o que seria dum
convidado que chegasse atrasado ao casamento em Caná.
A primeira preocupação seria procurar
uma talha com água para as purificações rituais. Mas chega à primeira talha que
encontra cheia de vinho e pensa... Não é aqui. Deve ser aquela outra talha, mas
na outra também só há vinho e é assim em todas as seis talhas. Então, como
cumprir a Lei de Moisés? Não ficou água para as lavagens rituais, nem há água
para se misturar no vinho. Então, a grande preocupação; agora o que fazer?
Abandonar a festa entristecendo os noivos ou aproximar-se dos outros convidados
sem as lavagens rituais?...
Estes problemas sem solução, podem
acontecer nos nossos dias, se não aceitarmos que o Mestre chegou, e está entre
nós!!.... Tudo o mais está ultrapassado. Ou nos juntamos e nos alegramos com os
pecadores salvos por Jesus, ou então, temos de nos juntar aos “fariseus do
nosso tempo”, que colocam as suas tradições acima da Boa Nova que Cristo nos
anunciou.
Vinho
– 2
Ângela Faria – Engenheira da Alimentação
O
vinho nos nossos dias
Em Portugal, desde o início da
Nacionalidade até aos nossos dias, o vinho ocupou sempre um lugar de destaque
na economia agrária, nomeadamente a partir do século XIV, nas exportações
portuguesas para o estrangeiro (estas eram primeiramente de diversos vinhos com
uma qualidade variada, mas desde o século XVII salientou-se o comércio do vinho
do Porto). Sendo um produto com uma longa tradição que se estende até á mesa no momento da confraternização, ao saborear do
vinho, é uma herança que passa de geração em geração, feita de amor à terra e
ao clima ameno com que fomos abençoados.
Constituição da uva:
O cacho é constituído pelo engaço e os bagos (normalmente designados por bagas ou
uvas) que por sua vez são constituídos pela película (a pele da uva), pela
polpa (interior da uva) e a grainha (semente).
O engaço é:
.pobre em açucares,
.médio em ácidos salificados,
.rico em polifenóis (taninos)
responsáveis por grande parte da adstringência (sensação de “boca grossa”,
acontece quando mastigamos algum fruto que não esteja maduro ou ingerimos um
vinho) dos vinhos e baixa acidez (pH >4).
A película contém:
.água (78 – 80%),
.matéria corante,
.substâncias do aroma,
.tanino (1 – 2%),
.matérias ácidas (1 – 1.5%),
.matérias minerais (1.5 –2%)
.matérias azotadas (1.5 – 2%).
É na pruína
(camada cerosa aderente exteriormente à película) onde se “agarram” as
leveduras e bactérias disseminadas pelos ventos, chuvas e ainda por insectos.
A polpa é constituída por:
.água (70 – 78%),
.açúcares (10 – 25%),
.ácidos orgânicos livres (0.2 – 0.5%) e combinados (0.5%),
.matérias minerais (0.2 –0.3%),
.matérias azotadas e pécticas (0.05 –
0.1%)
. vitaminas (vestígios).
A grainha contém:
.água (36 – 40%),
.óleos (10 – 12%),
.taninos (5 – 8%),
.matérias ácidas voláteis (1%),
.matérias azotadas (1 – 2%)
.matérias hidrocarbonadas (34 – 36%).
Da vinha à garrafa:
1) Escolha de castas
2) Tratamentos fitossanitários
3) Controlo de maturação
4) Sumo de uva
5) Esmagamento
6) Esgotamento - Prensagem
7) Maceração - Defecação
8) Fermentação
9) Vinho - Armazenagem
10) Colagem - Filtração
11) Tratamento pelo frio -
Filtração
12) Engarrafamento
Viticultura - Ponto 1) a 4)
Vinificação - Ponto 2) a 9)
Enologia - Ponto 9) a 12)
Nota: Estas operações são algumas das
necessárias para a transformação do sumo de uva (suco de uva) em vinho. As
técnicas variam quando se quer produzir um vinho tinto ou um vinho branco, e
ainda, por exemplo um vinho VQPRD (vinho de qualidade produzido em região
demarcada) ou um vinho corrente.
Comparação entre vinho (produto obtido
através de uma fermentação) e outro género de bebidas (produtos obtidos
principalmente através de destilação)
Vinho: bebida alcoólica obtida por
fermentação do mosto de uva, sendo composto por água (componente maioritário),
álcool etílico (7% a 17% de volume) e por cerca de duzentos componentes
diferentes dentro dos quais destaco os ácidos orgânicos (málico,
tartárico, cítrico, acético e carbónico), polifenóis
(tanino e corantes autociânicos), glicerina, glúcidos (glucose, frutose, pentose),
substâncias nitrogenadas (aminoácidos, proteínas, aminas), sais minerais (fosfatos, sulfatos, cloretos,
potássio, cálcio) e substâncias voláteis (aldeídos,
acetonas, ésteres).
Aguardente: bebida resultante da
destilação alcoólica do açúcar contido em diversos cereais ou frutos. As
aguardentes (bebidas espirituosas) têm um teor alcoólico nunca inferior a 32%.
Como exemplos de aguardentes, cujo sabor é caracterizado de acordo com o
produto fermentado, podem definir-se: vínica, bagaceira, brandy,
conhaque, de frutas, genebra, gin, vodka, whisky, tequilla e outros.
Whisky (uísque) :
aguardente destilada na Escócia a partir de cevada (“scoth
whisky”) e na América a partir de milho (“bourbon whiskey”),com um teor alcoólico
entre os 43º e os 44º. A sua típica cor dourada e o ligeiro sabor a fumo
devem-se ao armazenamento, durante vários anos (nunca menos de cinco) em pipas
de carvalho previamente fumadas.
Cachaça: é a aguardente obtida da borra
do melaço ou do próprio melaço da cana-de-açúcar. A sua produção no Brasil teve
início na segunda metade do século XVI e destinava-se inicialmente aos animais
domésticos e aos escravos. Em breve se tornou a mais popular bebida brasileira.
O seu teor alcoólico é de 40 a 50º.
Cerveja: bebida fermentada cuja
preparação se efectua a partir de cereais germinados (malte), sendo aromatizada
com lúpulo. Contém 3-7% de álcool, glicerina, anidrido carbónico, maltose, dextrina, compostos azotados, minerais, pequenas
quantidades de tanino, substâncias amargas, corantes e ácidos orgânicos.
Controlo de qualidade efectuado ao vinho
Seguidamente apresento algumas análises
básicas e a legislação em que se baseiam, para o controlo de qualidade do vinho
e algumas bebidas destiladas:
. Massa volúmica e densidade: método
oficial português (portaria 985/82 e NP 2142) – aerometria.
. Extracto seco: é calculada através do
método indirecto utilizando a fórmula de Tabarié-Girard:
d = 1 + D + D’ , e para conversão em gramas E = e * 10
. Dióxido de enxofre: é utilizado o
método oficial português e que a CEE descreveu como método usual no Reg. 1108/82, método iodométrico
baseado no método de Ripper,
- sulfuroso
livre: baseia-se na titulação iodométrica directa em
meio ácido, com titulação correctiva sobre a mesma amostra mas em que a fracção
livre de SO2 se combinou com o excesso de etanal e propanal,
- sulfuroso
combinado: titulação iodométrica em
meio ácido após dupla hidrólise alcalina na amostra cujo SO2 livre foi oxidado.
. Acidez:
- acidez total:
é através de titulação com soda que chegamos a este resultado usando o azul de bromatimol como indicador, o resultado vem expresso em
gramas de ácido tartárico por litro,
- acidez
volátil: método de Mathieu, é efectuada primeiramente
uma destilação, seguida de uma titulação,
- acidez fixa:
calculada através das seguintes fórmulas:
acidez volátil (g ácido acético/l)
* 1,25 = acidez volátil (g ácido tartárico/l)
acidez total – acidez (g ácido tartárico/l)
= acidez fixa (g ácido tartárico/l)
. Potencial de oxidação-redução:
método electrométrico utilizando um eléctrodo de
membrana.
. Composição mineral: só é analisado a
quantidade de ferro através do método colorimétrico,
baseado na reacção com sulfocianeto de potássio.
. Teor alcoólico: esta quantificação é
feita através de ebulimetria.
. Cor: medição da absorção em U.V..
. Coloração artificial: método do O.I.V.
e o oficial português (portaria 985 e pr NP 2275)
baseado nas pesquisas de Arata e Saenz
Ruiz (1967) e Tercero
(1970).
. Estabilidade: são feitos testes de
quente e testes de frio.
Nota: Estas são apenas algumas das
análises que podem ser efectuadas ao vinho. Existe também muito mais legislação
que está sempre a ser actualizada, embora a maioria dos laboratórios utilize
nas análises de rotina as por mim referidas.
Vinho
– 3
Isaque dos Santos Pereira – Assistente de Clínica Geral
(Médico)
ÁLCOOL E BEBIDAS ALCOÓLICAS
Bebidas alcoólicas são bebidas que, como
o seu nome indica, contêm álcool. O álcool etílico ou etanol, molécula de fórmula
química CH3 CH2OH é o principal álcool destas bebidas que o contém em
diferentes concentrações.