Sufismo (Tasawwuf)
(YA)
Por definição, o termo “Tasawwuf” deriva
de “Safa” ou, dito de uma outra
forma, é o somatório das palavras “Tahliya” e “Takhliya”. Enquanto que Takhliya representa a aquisição
de boas características, Takhliya
significa a eliminação de todas as más características que Deus não aprova e
nem aceita. Por outras palavras, Tahliya consiste no facto da pessoa adornar-se a si mesma
com os Mandamentos Divinos transmitidos pelo Mensageiro de Deus (Rassulullah s.a.w.)
através das suas sagradas tradições e do Livro de Deus, o qual desceu sobre o
seu coração como uma revelação trazida pelo arcanjo Gabriel (Jibril a.s.), tal
como ele mesmo disse: “Deixo convosco
duas coisas. Se nunca as abandonardes, jamais se desviarão: o Livro de Deus (ár. Allah) e a Suna do Seu Profeta”.
Assim sendo, o primeiro Sufita ou Sufi foi Al-Mustafa (o
Escolhido [Profeta Muhammad (Maomé)]), visto ter sido
este o primeiro a entrar em retiro, o que aconteceu no Ghar (Monte) de Hira, onde tinha
por hábito deslocar-se para meditar (yatahannath) e adorar a Deus, isto de acordo com a religião
do nosso Mestre Abraão, a qual é a religião da Unicidade de Deus (Tawhid). Ele procurava purificar o seu sagrado coração, a
sua santa alma, até que Deus lhe enviou o arcanjo Gabriel, o qual lhe disse: Iqra'a (“Lê!”),
ao que ele respondeu: Ma ana bi Qaria (“Eu não sei ler.”). Tal sucedeu por duas
vezes e, à terceira, Gabriel disse: Iqra'a biçmi Rabbikal' ladi khalaq (“Lê, em nome do teu Senhor que tudo criou!”).
Então, o Profeta (paz esteja com ele) leu.
“Eu
fui enviado para aperfeiçoar a nobre Akhlaq” (a
moral, as boas maneiras, a ética). Deus disse: “Tu és de grande Akhlaq”.
Por conseguinte, Tasawwuf é, basicamente,
purificar-se a si mesmo, ao coração, à alma. Dirigi-los em direcção a Deus. O Mutasawwif (Sufita) deverá ser um exemplo, um embelezamento, como se
fosse a Leitura por Excelência a
caminhar sobre a Terra, e um embelezamento da Suna. O Profeta (p.e.c.e.) foi o primeiro a apelar ao aperfeiçoamento do eu,
das boas maneiras, das almas e a purificá-las. Como pode o Homem ser feliz, se o seu ego e o seu coração não estão
purificados e unidos ao seu Senhor? O nosso Mestre, o muito amado, disse o
seguinte num Hadice,
o qual foi referido por várias e diferentes cadeias de transmissão (Mutawatir) e
relatado por Sayyidina Umar Ibn Al Jatab (r.a.):
«Um
dia, estávamos nós sentados com o Mensageiro de Deus (s.a.w.),
quando apareceu um homem de vestes extremamente brancas e cabelo incrivelmente
negro. Não eram nele visíveis quaisquer sinais de que fosse um viajante;
contudo, nenhum de nós o conhecia. Aproximou-se do Profeta (p.e.c.e)
e sentou-se junto a ele, dizendo: “Ó Muhammad! As salaamu aleikum”, tendo obtido o seguinte como resposta: “wa aleikum assalaam”.
Depois, prosseguiu: “Fala-me do Islão”. O Mensageiro de Deus (s.a.w.) disse: “O Islão consiste em que testemunhes que não
existe outra divindade, a não ser Deus (Único), e que Muhammad
é o Seu (último) Mensageiro, em que realizes as orações, pagues o zakat, jejues no Ramadão e faças a Peregrinação à Casa, se
tal te for possíve”. A isto, o homem respondeu: “O
que dizes está correcto. De facto, é isso que é o Islão”. Não só estávamos
surpresos com a questão por ele colocada, como ficámos ainda mais pelo facto
dele dizer que o que Profeta falara estava correcto. Contudo, o homem tornou a
pedir: “Fala-me do Imán (Fé)”.
“É acreditar em Deus, nos Seus Anjos, nos Seus Livros, nos Seus Mensageiros e
no Último Dia. É acreditar no Decreto Divino, seja bom ou mau”. O homem
respondeu: “Falaste bem”. E pediu: “Fala-me da Ishan
(e esta é a terceira estação)”. O Profeta respondeu: “É
adorar a Deus como se O visses, porque, embora O não vejas (in
lam takun), é mais do que
certo que Ele te vê”. Depois, o homem partiu e, por instantes, eu fiquei
quieto. Então, o Profeta disse: “Ó Umar,
sabes quem era este, que colocava tais questões?”, ao que respondi: “Deus e o
Seu Mensageiro é Quem melhor o sabem!”. A isto, ele respondeu: “Era Gabriel,
que veio ensinar-vos a vossa religião”.»
Existem, pois, três estações: o Islão,
evidentemente, que é o que o último Mensageiro de Deus transmitiu na forma do Kitab (o Livro) e
da Suna,
que é o que organiza as relações entre os seres humanos e o seu Senhor, através
da ibadaat
(adoração), e entre o Homem e os seus semelhantes, através da Muamalaat (regras
de comportamento, conduta, compromisso) e a sua relação para consigo mesmo.
Este é o aspecto externo, a Sharia. Enquanto numa Mesquita, uma pessoa pode rezar;
contudo, ao abandonar a Mesquita, ela pode subornar ou roubar. Se assim for,
nada restará da sua salaah
(oração), porque a pessoa obtém apenas da salaah a parte (porção) onde a
sua mente se encontra presente (ma akila min-ha); assim sendo,
no dia de Qiyama
(Juízo Final) esta será dobrada, como uma peça de roupa velha, e ser-lhe-á
atirada à cara, dizendo-lhe: “Que Deus te
arruíne, tal como tu me arruinaste a mim!”.
Por este mesmo motivo, e exteriormente,
o Sufita é
alguém impaciente por instituir os rituais de Deus; o Sufita é um homem de
determinação, que não procura caminhos fáceis (rukhas). A sua salaah é feita a
tempo, contribui com o zakat
e nunca deixa obrigação alguma por cumprir.
Existe uma segunda etapa a atingir, que
é de Íman (Fé), a qual tem lugar no
coração e é confirmada pelos actos.
Todavia, existe ainda uma terceira
etapa, e que é a Sharia,
a Tariqa e
a Haqiqa. A
Tariqa
(via) é Iman
(Fé) e a Haqiqa
é Ishan.
Dissemos: “Adorar a Deus!”. Como? Como adorá-Lo? Não
adoram todos os Muçulmanos a Deus? O Muçulmano reza, não reza? É adorá-Lo, como se O estivesse a ver. Como O vê? Como posso vê-Lo? In lam
takun. Se tu não estás (literalmente, em Árabe,
significa: “se tu não existes”), tu
não deves ter existência juntamente com a tua existência, há que destruir todas
as imagens (1), ver a Haqq (verdade) através da criação
(khalq),
caminhar com Deus. Daqui provê a tasawwuf e os herdeiros de Muhammad
(p.e.c.e.) (Al worrat
al Muhammadiun),
aqueles que herdaram a medida e a realidade de Muhammad
(Al Haqiqa al Muhammadiyya). Muhammad, o Mensageiro de Deus (p.e.c.e.),
a sua presença encontra-se em Medina, o seu santo corpo está em Medina, e ele
vive no seu túmulo (o avaro é aquele que, ao mencionar o meu nome, não disser “a paz esteja comigo”), mas a sua
realidade jamais morrerá (desaparecerá, deixará de existir), visto que a verdade
durará para sempre. É ele que, num Hadice sagrado, diz o seguinte: “Eu sou de Deus!”, o que significa: “Eu sou da luz de Deus e os crentes são da minha luz”. Por
conseguinte, a luz não desaparece, a Luz da Verdade (Nur al Haqq) nunca
desaparece. Logo, tens que compreender a tua existência através da Sua
existência ou, por outras palavras, não ter uma existência em ti mesmo ao lado
da Sua existência para vê-Lo em cada forma
(aparência, imagem). Em cada aparição, Ele aparece, se tu desapareces d'Ele, Ele aparece como um sol ou uma lua. Deves estar
consciente da existência de Al-Haqq (a Verdade). Se Al-Haqq não se encontra
instituído dentro de ti, de que existência falas? Onde está? Mostra-ma! Como
pode algo que perece ter existência? Assim sendo, quem és? O nosso amado
Profeta (p.e.c.e) refere uma tradição divina (Hadith Qudsi): “Eu criei Adão à Minha imagem” (ala Surati).
Assim sendo, tu és o espaço onde as
manifestações têm lugar. Allah possui noventa e nove
atributos ou nomes, mas apenas um é o Nome Supremo (Al Ism Al Azham), enquanto que os restantes são atributos que se
manifestam na criação. Ele próprio se manifesta em ti, com o Seu nome Al Sami (O Que
Ouve). E, assim, tu começas a ouvir com o nome Al Sami. Da
mesma forma, manifesta-se em ti com o nome Al Bassir, e tu começas a ver com Al Bassir. Ele
disse: Asmi bihi wa absir (Alcorão, 19:38).
Ele manifesta-se em ti com o Seu nome Al Mutakallim,
e tu começas a falar. De facto, não és tu quem falas, mas sim Deus. Todos estes
atributos (Sifaat)
são manifestações (tajalliyaat).
Assim sendo, o Sufismo
guia o murid
(principiante) para Deus, de modo a ensinar-lhe a realidade de si mesmo e a
realidade da sua existência e mostrar-lhe que nada existe a não ser Al Haqq. Deste
modo, ele (o Profeta) é um presente de misericórdia. Deus disse: “Não te enviámos senão como misericórdia para
os mundos”. Assim, ele não traz, senão a mensagem do amor completo
(incondicional) a tudo o que Deus criou, incluindo animais, plantas e pássaros.
Portanto, enquanto Sufita,
este orienta o murid
(principiante) para que conheça a realidade do seu próprio Eu. Para que fale por Deus, oiça por Deus, veja por Deus, caminhe por
Deus e destrua todas as imagens para chegar Àquele que criou todas estas
imagens. Foi dito o seguinte: “Tu pensas
que és germe insignificante; no entanto, o mundo inteiro encontra-se dentro de
ti” (Eu era um tesouro oculto, que quis ser conhecido, pelo que criei a
criação e, através de Mim, eles conhecem-Me). Isto
significa que Ele foi conhecido através da criação. Quando Deus criou Adão,
ordenou aos Anjos que se prostrassem perante Adão, dizendo: “Quando Eu o criei, exalei nele o Meu
Espírito, prostrai-vos perante Ele (Lahu)” (Alcorão, 15:29), é Ele e não Adão, é o decreto (Amr) que está em
Adão. Adão é apenas uma metáfora, uma ilusão. Contudo, esta ilusão é uma ilusão
santificada, já que Ele a criou com as Suas próprias mãos Deus representa o
Ideal Supremo (Alcorão, 16:60). Assim sendo, o Sufita não é o que as pessoas
pensam: o Sufita
pode sentir tristeza, mas ele está triste porque os outros estão tristes, e
está feliz pela felicidade dos outros, e é o que se encontra mais afastado da
mesquinharia, do ódio pela Humanidade, visto ser formado de acordo com a
educação e a cultura do Muito Amado, no quadro da misericórdia. Por si, ele
jamais violará os direitos das pessoas, jamais desobedecerá ao Senhor dos povos
e nem negligenciará os seus deveres para com a sua religião e a sua nação. Este
é o caminho dos Mestres do Sufismo, que Deus esteja
satisfeito com eles, vindo do nosso Mestre Rassulullaah (Mensageiro de
Deus). Vede como o Profeta (p.e.c.e.) combatia a
opressão e os opressores nas Batalhas de Uhud e Badr. Ele não revelou medo, o Sufismo não significa que se diga
ao Sufita
que se sente na zawiya
(que se acomode). Não, ele tem que ser uma abelha: após a Fajr (Oração da aurora),
encaminha-se para o seu trabalho, adere ao Livro de Deus e à Suna do Seu
Mensageiro, trazendo a misericórdia aos mundos. É uma fragrância divina aonde
quer que vá, sendo possível às pessoas aspirarem o seu doce e fresco aroma.
Todos os Mestres sufitas,
que Deus esteja satisfeito com eles, participaram dos assuntos das suas nações,
dos problemas dos seus povos, dos seus sofrimentos, e todos eles não hesitaram
nunca em defender a sua religião, a sua nação, a Humanidade em geral. Sim! Isto faz parte da missão dos sufitas. Pois são homens de tasawwuf,
que muitas vezes podem passar em prisões, muitas delas por defender a Verdade,
visto Deus ordenar que o façam. Não se rendem aos opressores e à opressão.
Sufismo é, pois, a essência do Islão e a
realidade eterna que ninguém conhece, senão os verdadeiros sufitas,
que percorrem o caminho do conhecimento da realidade essencial da Verdade no
seu ser.
(1) a)
- “Há que destruir todas as imagens” é no sentido do próprio crente não ter, de
não fazer nenhuma imagem de Deus; é ver Deus e senti-Lo
através da Sua Criação … pois Deus disse: «Eu era um tesouro escondido e quis
ser conhecido, então criei o Universo». «O Meu servo busca, sem cessar,
aproximar-se de Mim através de actos devocionais realizados apara além do que é
obrigatório, até que Eu o ame; e quando Eu o amo, sou o Ouvido pelo qual ele
ouve, a Vista pela qual ele vê, a Mão com a qual ele combate e o Pé com o qual
marcha». «O lugar, ele próprio não tem lugar: como poderia haver lugar para o
Criador do lugar, céu para o Artífice do céu»? Por isso, Ele disse: «Eu era um
tesouro oculto; a Criação foi criada para que pudésseis conhecer-Me».
b) – Face ao atrás exposto fica esclarecido
que “a destruição de imagens” é referente às imagens “imaginadas” pelo próprio
crente e não à destruição de imagens de outras religiões, nomeadamente às
imagens centenárias dos budas que foram destruídas
pelos Taliban. De modo algum existe justificação para
a destruição das estátuas do Buda, como fizeram os Taliban
conforme notícias divulgadas na Comunicação Social. A liberdade religiosa para
as minorias exigia que fosse concedida protecção total a estas estátuas. O
argumento apresentado pelos Taliban como suporte
desta atitude foi o de que o Profeta Muhammad (a paz
esteja com ele) destruiu os ídolos que estavam colocados na Baytullah
(Caaba, em Meca). Esta analogia, receio, está
incorrecta e parece ter surgido da não compreensão da posição específica
ocupada pela Arábia, naquela época e conjuntura. A Arábia pré-Islâmica
foi conquistada e confiada à posse de Muhammad (a paz
esteja com ele) e dos seus companheiros pelo Todo-Poderoso em conformidade com
o Seu plano estabelecido. Com a implementação deste plano divino, fora pedido à
Arábia para se tornar um símbolo do monoteísmo. A Caaba
deveria ficar limpa dos ídolos, como no tempo de Abraão e Ismael (paz esteja
com eles). Aqui, cada traço do politeísmo era para ser erradicado. Deste modo,
todos os ídolos foram destruídos. Consequentemente, nos lugares sagrados da
Arábia nenhum Muçulmano estava e está autorizado a praticar o politeísmo em
público.
Assim, é necessário avaliar que a ênfase nesta directiva encontra-se na terra sagrada da Arábia. Como resultado, esta
directiva não está relacionada com outros países e territórios nos quais os não-Muçulmanos podem viver e praticar o politeísmo. Por
isso, na História do Islão, verificamos os Companheiros do Profeta (s.a.w.) a concederem total liberdade religiosa aos
indivíduos das áreas conquistadas. Um exemplo disto é o célebre tratado do
Califa Umar (r.a.) com os Cristãos de Jerusalém:
“Esta é a protecção que o servo de Deus, Umar, o Chefe dos Crentes, garante ao povo de Eiliya (Jerusalém). A protecção diz respeito às suas vidas e propriedades, às suas igrejas e cruzes, às suas doenças e saúde, assim como para todos os seus correligionários. As suas igrejas não serão utilizadas como habitação, nem tão pouco serão demolidas; nem nenhuma injúria lhes será feita, nem as suas propriedades serão injuriadas de forma alguma. Não haverá compulsão para com estas pessoas em matéria religiosa, nem deverão, por isso, sofrer ou serem vítimas de injúria... Tudo o que aqui se encontra escrito é de acordo com a vontade de Deus e a responsabilidade do Seu Mensageiro, dos Califas e dos crentes, e deverá ser respeitado …”
Lisboa, Janeiro de 2007