Santidade ao Senhor - Bom Samaritano (CC)
Afinal, o que é santidade?
Não
é aos ateus nem aos visitantes das nossas igrejas que dirijo esta pergunta, mas
aos próprios crentes, aos que já são membros duma igreja.
Vejamos
em primeiro lugar qual o significado de santidade nas Escrituras.
A
palavra hebraica geralmente traduzida por santo, é a
palavra “kadosh”, que corresponde à palavra grega “agios” que na origem significavam simplesmente separado.
Por
exemplo, em João
10:36 “Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao
mundo.....” aqui, santificar só pode significar separar ou consagrar.
Mas
então, como e porque é que o significado destas palavras: santo, santidade,
santificar... evoluiu até ao significado que hoje lhe atribuímos de pureza,
justiça, bondade etc, quase que identificando santidade com os atributos do
nosso Deus?
Há
muitas passagens no Pentateuco que nos falam em santidade, mas trata-se sempre
de uma santidade ritual, ou santidade higiénica. Mesmo no Sinai, o povo teve de
lavar as suas vestes para se santificarem, mas era uma santidade que
significava pureza ritual a simples ausência de sujidade (sujeira imundícia).
Nessa
época, a máxima expressão de santidade, talvez fosse o sumo-sacerdote que
tivesse tomado uns tantos banhos rituais, e podemos pensar num cadáver, como o
máximo de imundícia, ou o desgraçado do leproso,
rejeitado e escorraçado por todos, obrigado a gritar nas ruas a causa da sua
doença, e do seu crime, “Imundo... imundo...”
É
esta a informação que encontramos em quase todo o Velho Testamento. Somente na
época de Jeremias e Isaías (600 a 500 AC) encontrei as primeiras referências a
um outro conceito de santidade, nomeadamente em Isaías
1:11/17 em que o Senhor rejeita os holocaustos efectuados com todo o rigor
da velha lei... Nomeadamente o vr. 16 “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade dos vossos actos
de diante dos meus olhos: cessai de fazer mal.” Nota-se, nesta passagem,
que purificação já é alguma coisa mais que simples
limpeza higiénica e passa a relacionar-se com a bondade.
Mas
é certamente nos evangelhos onde a santidade passou a ter o significado que
conhecemos hoje. Uma das principais passagens encontramos
em Mateus
15:11 “O que contamina o homem não é o que entra
na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.” Em
contraste com pureza das comidas e a preocupação com os animais imundos que não
podiam ser utilizados na alimentação, Jesus preocupa-se com a pureza nas
palavras e pensamentos.
Gostaria
hoje de meditar convosco, numa dessas passagens, em que o Mestre põe em
contraste os dois conceitos de santidade. Essa passagem, bem sei que poderá
causar certa admiração a alguns, é a parábola do bom samaritano. Vejamos o que
é que essa parábola tem a ver com santidade.
A
maior parte das pregações sobre o assunto, pelo menos aquelas que ouvi e li,
destaca a indiferença do sacerdote e do levita, “que mais obrigação tinham de
ajudar....”, é a informação mais vulgar, e muitos outros dão uma interpretação
alegórica, afirmando que “descer de Jerusalém” é descer dos assuntos
espirituais para tratar das coisas materiais do mundo em que vivemos etc etc.
Certamente
que como exortação, tudo isso é possível, mas não num estudo bíblico. Deixemos
pois estes engenhosos pensamentos, para investigar o pensamento original do
nosso Mestre, pois estudo bíblico não é qualquer estudo que mencione versículos
bíblicos, nem podemos aceitar que qualquer sentido que se possa dar a uma
passagem seja uma correcta interpretação da Bíblia, por mais bem intencionado
que seja o seu autor e por mais simpática que seja a sua ideia.
Esta
é das parábolas consideradas de certa maneira um tanto “pacíficas” nos nossos
dias. Parece à primeira vista que já sabemos tudo sobre a frieza dos religiosos
e do comportamento do samaritano... Mas trata-se na verdade duma crítica que
Jesus apresenta, não só aos religiosos do seu tempo, como à própria teologia.
Tive
de chegar a essa conclusão, ao examinar o contexto desta parábola.
Vamos
começar por ler nas nossas bíblias em Lucas
10:21/22. “Naquela mesma hora, se alegrou Jesus no
Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que
escondestes estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelastes às
criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve. Tudo por meu Pai me foi
entregue; e ninguém conhece quem é o Filho, senão o Pai, nem quem é o Pai,
senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”
Isto
foi dito perante os discípulos e alguns doutores da Lei, como veremos mais
adiante. Segundo a religião eles se consideravam os grandes e entendidos... É
mais ou menos como juntar todos os pastores, professores e alunos do seminário,
missionários, professores de escola dominical, evangelistas, presbíteros,
diáconos etc. para depois orar dizendo... “Graças porque há coisas que estes
não sabem, mas esse menino de escola dominical, ou esse velhote quase
analfabeto, o irmão João ou a irmã Maria, esses conseguem perceber, porque tu
lhes revelaste”!!!... Como
estudante de teologia não posso deixar de me sentir desafiado por esta atitude
do Mestre. Parece que há coisas que não podemos alcançar só pelo nosso
raciocínio, mas por vezes as pessoas simples conseguem compreender melhor, por
ser produto de revelação, e o Espírito do Senhor se revela a quem quiser, quer
ignorantes ou entendidos, utilizando todos os métodos que entender, mesmo
aqueles que a nossa teologia e a nossa tradição considera indesejáveis, pois só
o Senhor é soberano.
Penso
que este episódio deve estar relacionado, ou deve estar na origem do que vamos
ler a partir do versículo 25.... em Lucas
10:25/29. “E eis que se levantou um certo doutor
da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? E
ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês? E, respondendo ele, disse:
Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de
todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao próximo como a ti
mesmo.
E disse-lhe: Respondeste bem; faz isso, e viverás. Ele, porém,
querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?”
Vr.25...
Um doutor da lei, fez uma pergunta a Jesus?!!!. Parece
um caso pouco vulgar nessa cultura, um teólogo desse nível fazer uma pergunta
ao filho dum carpinteiro, que para eles era um leigo em teologia.
O
evangelista Lucas, diz aqui que foi para experimentar a Jesus. No entanto,
Lucas não foi apóstolo, ele não estava presente neste acontecimento e
limitou-se anos mais tarde, a compilar todas as informações sobre a vida de
Jesus. Talvez fosse essa a opinião dos primitivos crentes. Não digo que não
seja verdade. Quem somos nós, para vinte séculos mais tarde tentar descobrir
alguma coisa de novo.
Mas
penso que, pelo menos, não devemos abandonar a possibilidade de estarmos
perante uma pergunta sincera deste homem. Digo isto porque Jesus respondeu, o
que geralmente não acontecia, quando havia perguntas mal intencionadas. É bem
possível que este teólogo ficasse tocado pela pregação de Jesus, e que por
baixo da sua aparente calma e segurança tivesse uma consciência inquieta e
incomodada pela pregação do Mestre... porque o doutor da Lei bem sabia, melhor
do que ninguém quais os pontos fracos, contradições e principalmente a grande
separação entre a sua teoria e a vida prática do dia a dia.
Ele
começa pela pergunta mais importante: “Que farei para
herdar a vida eterna?” Mas, será que não havia informação sobre o
assunto na Velha Lei?
Jesus
o remete novamente para a Lei. Afinal, parece à primeira vista, que havia
solução para a vida eterna na Velha Lei. Faltava somente pôr em prática tudo
aquilo que ele já conhecia.
Mas
o doutor da Lei, levanta outra questão: “Quem é o meu próximo?”
Lucas
diz no seu evangelho, que a pergunta foi para se justificar, dando a entender
que ele não fazia nem uma coisa nem outra, nem amava a Deus de todo o seu
coração, nem ao próximo como a si mesmo. Mas julgo que seria precipitado da
nossa parte limitarmo-nos a esta explicação.
Segundo
o investigador Joaquim Jeremias, esse assunto era muito polémico nessa época.
Pois, se ninguém tinha dúvidas do que significava ser membro do povo de Israel,
pois tudo isso estava muito bem explicado, pois eram os descendentes do povo de
Israel incluindo os prosélitos e os escravos já circuncidados, o mesmo não
acontecia com a palavra “próximo”, cujo significado dava origem a várias
interpretações.
Para
muitos dos fariseus, o seu próximo limitava-se aos outros fariseus.
Os
essénios consideravam como atitude louvável o odiar
todos os filhos das trevas. Até o nosso Mestre faz uma referência a esta
atitude em Mateus
5:43 “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo,
e aborrecerás o teu inimigo....”, portanto o inimigo não podia ser o
próximo.
O
grande problema, para a teologia da época seria a pergunta: Até que ponto
deverei ser tolerante? Devo considerar somente a minha família como o meu
próximo?... E também os meus vizinhos?... E também os outros judeus?... Até
onde vai o conceito de “próximo”?
Penso
que para os judeus mais ortodoxos o próximo seriam
somente os outros judeus. É verdade que várias passagens veterotestamentárias
em especial nos livros de Êxodo e Levítico nos falam dos direitos dos
estrangeiros, lembrando o facto dos próprios judeus terem sido estrangeiros no
Egipto, e em Deuteronómio aparecem algumas vezes referência aos direitos dos
estrangeiros, viúvas e órfãos.
No
entanto, não podemos ignorar a realidade desse contexto histórico em que havia
grande rivalidade entre judeus e samaritanos. O velho problema da rivalidade
entre os templos de Jerusalém e Garizim, por motivos
históricos, religiosos e económicos, estava no seu auge.
Eu
fiquei chocado quando soube pelo livro do historiador Joaquim Jeremias, que o
Templo de Garizim, que os samaritanos construíram e
que, com todos os seus erros se destinava a louvar o Deus supremo, foi atacado
e destruído pelos judeus, no ano 129 A.C..... Esta é uma informação que não vem
na Bíblia e que a nossa literatura não costuma mencionar.
Como
represália, segundo Josefo, o historiador da antiguidade, houve um samaritano
que por ocasião da Páscoa, durante a noite, abriu alguns sepulcros de
Jerusalém, desenterrou ossos de cadáveres e os espalhou pelo Templo de
Jerusalém para o tornar impuro.... Isto aconteceu já depois do nascimento de
Jesus, que devia ser um menino quando estas notícias abalaram todo o povo de Israel.
Jesus
teria certamente observado muitas vezes, os judeus mais “religiosos” que todas
as tardes, ao pôr-do-sol se viravam para Samaria para amaldiçoar os samaritanos
e pedir para que Deus os destruísse para sempre.
Penso
que temos de entender a pergunta desse doutor da Lei, no contexto histórico em
que se encontravam, em que havia fortes tensões não só entre judeus e
estrangeiros, mas principalmente para com os samaritanos. Para os que rodeavam
o Mestre, o próximo seriam os outros judeus... talvez também alguns
estrangeiros, se estivessem circuncidados, mas os samaritanos!!! isso é que nunca... nem pensar nisso.
É
neste ambiente, carregado de ódio e emoção, que Jesus apresenta a parábola do
bom samaritano, que vamos ler, do versículo 30 a 37. Lucas
10:30/37
“E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém
para Jericó. E caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e,
espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
E, ocasionalmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e,
vendo-o, passou de largo. E de igual modo, também, um levita, chegando àquele
lugar, e vendo-o, passou de largo.
Mas, um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele, e vendo-o,
moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas,
deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para
uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e
deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e, tudo o que de mais gastares,
eu to pagarei, quando voltar
Qual, pois, destes três, te parece que foi o próximo daquele que
caiu nas mãos dos salteadores?
E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois,
Jesus: Vai, e faz da mesma maneira.”
...descia
um homem de Jerusalém para Jericó... Com esta afirmação, nós imaginamos o mapa
de Israel, que muitas vezes temos nas nossas bíblias, e sabemos que se trata de
duas cidades vizinhas. No entanto, a reacção dos ouvintes de Jesus foi
certamente bem diferente, pois logo devem ter identificado esse local como um
local de alto risco.
As
duas cidades estavam afastadas cerca de 27 quilómetros através de caminhos que
nos nossos dias o autocarro (ónibus) de turismo
percorre rapidamente, mas nessa época seria um simples caminho íngreme que
subia pela montanha acima serpenteando por entre as rochas, num terreno muito
acidentado, com cavernas onde os malfeitores facilmente se escondiam, pois os
romanos, que construíram uma magnífica via romana em direcção à moderna
Samaria, entenderam que a velha cidade de Jerusalém não tinha interesse
comercial que justificasse a construção duma via romana.
Mas
havia outro motivo para que esse local fosse dos mais perigosos. É que do ponto
de vista dos assaltantes, era dos locais mais “rentáveis”, onde geralmente o
crime compensava, pois todo o judeu de longe ou de perto,
trazia os seus dízimos e ofertas para entregar no Templo de Jerusalém. Os de
perto, traziam os seus animais para oferecer, e os de longe traziam em dinheiro
o produto da venda dos animais oferecidos ao Senhor.
Além
desses peregrinos, havia também intenso tráfego de religiosos, pois segundo nos
informa o historiador Joaquim Jeremias, muitos sacerdotes e levitas que
exerciam as suas funções em Jerusalém, moravam em Jericó ou periodicamente
“fugiam” da confusão da grande cidade para descansar no ambiente mais calmo de
Jericó.
De
tal maneira os assaltos aos peregrinos, nesse local, eram comuns, que acabaram
por afectar a própria economia do Templo, que criou uma organização policial
para patrulhar esse caminho e proteger os peregrinos, protegendo também a
economia do Templo.
Talvez
o mais natural seria o assalto a um homem que subisse a Jerusalém, em especial
um homem que viesse de longe e que trouxesse os dízimos e ofertas de alguns
anos de vida próspera em terras distantes... Mas este descia, voltava de
Jerusalém. Mesmo assim, talvez fosse um alvo apetecível pelos assaltantes, pois
deveria ainda ter dinheiro para uma longa viagem de regresso à sua terra,
dinheiro que o viajante tentou defender, pois houve luta e ficou quase morto à
beira da estrada.
Temos
depois a descrição do sacerdote e do levita que passaram sem dar ajuda ao viajante
que aparentemente já estaria quase morto.
Penso
que perante esta afirmação, a reacção e o pensamento do homem do nosso tempo é
bem diferente, talvez mesmo o oposto, ao pensamento dos que escutavam o nosso
Mestre.
O
nosso primeiro pensamento é que Jesus apresenta o sacerdote e o levita para
mostrar que até aqueles que mais obrigação teriam de
ajudar, por serem religiosos, até esse falharam. É também esta a interpretação
da maior parte dos pregadores, dos nossos dias, mas suponho não ser essa a
intenção do Mestre.
Tanto
o sacerdote, como o levita, certamente já conheciam muito bem esse caminho tão
perigoso, já estavam habituados a ver cenas de violência, assaltos, já tinham
visto pessoas mortas à beira do caminho.... e também
conheciam muito bem a Velha Lei.
Certamente
que conheciam todo o Velho Testamento muito melhor do que nós, pois eles o liam
e o estudavam, o que já não está a acontecer connosco... Por vezes tenho a
sensação de que estamos a formar um novo cânon....., um cânon do cânon
veterotestamentário, pois há passagens do Velho Testamento que são lidas nas
nossas igrejas e há passagens em que nunca há tempo para ler... que ficam
sempre para a próxima vez... passagens que os nossos pregadores têm medo de
encarar, como esta que vamos mencionar.
O
viajante já não se mexia, aparentemente era já um cadáver. E o que dizia a
Velha Lei sobre o cadáver? Vejamos em Números
19:13 “Todo aquele que tocar a algum morto,
cadáver de algum homem que estiver morto, e não se purificar, contamina o
tabernáculo do Senhor: aquela alma será extirpada de Israel; porque a água da
separação não foi espargida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua imundícia.”
É
evidente que se o sacerdote ou o levita tocasse no viajante e esse já estivesse
morto ou viesse a falecer nessa altura, ficariam impuros e impossibilitados de
exercer as suas funções no Templo durante sete dias, durante os quais teriam de
se purificar segundo indicado nos versículos anteriores em Números
19:1/12.
Afinal....
era a própria religião que os impedia de ajudar...
Penso que foi este o pensamento que o Mestre transmitiu aos seus ouvintes e que
em grande parte já se perdeu nos nossos dias. Eles não ajudaram porque eram
religiosos e queriam permanecer religiosamente puros e religiosamente
perfeitos.
Esta
é uma das parábolas mais polémicas que Jesus contou e todos os seus ouvintes
dessa ocasião assim devem ter compreendido, aceitando inicialmente com
entusiasmo a crítica anti-clerical do Mestre, esperando o terceiro personagem,
que tudo indicava fosse um vulgar judeu (judeu comum), pois nessas histórias
havia normalmente três personagens.
É
nessa altura que Jesus os escandaliza apresentando o samaritano, o inimigo, que
os mais religiosos odiavam e amaldiçoavam. Foi um samaritano que o Mestre
escolheu para herói desta história. Nos nossos dias, seria talvez um palestino.
A
parábola não era somente anti-clerical, pois todos estavam incluídos na crítica
do Mestre.
O
samaritano não perguntou quem era o viajante. Não sabemos se ele conhecia bem
as Escrituras e se sabia que iria ficar impuro por tocar num cadáver... Mas
para os “religiosos” ele já era um impuro por ser samaritano... portanto nem se
preocupou com isso.
Diz-nos
o versículo 34 que ele “...aproximando-se, atou-lhe as
feridas, deitando-lhes azeite e vinho...” É bem possível que
transportasse consigo azeite e vinho para a viagem, pois o azeite era o
protector solar para a sua pele, num clima quente e seco e o vinho seria para
acompanhar as suas refeições. Nessa altura, utilizou o vinho devido às suas
propriedades anti-sépticas e anestésicas e o azeite como protector da pele.
É
interessante a curta conversa do samaritano com o hospedeiro. É bem possível
que o samaritano fosse um comerciante habituado a viajar, pois parece que
conhecia bem o hospedeiro e a expressão utilizada “...quando
voltar”, parece indicar pessoa conhecida e respeitada. A importância
entregue, de dois denários, equivalia a dois dias de salário mínimo.
Jerusalém
era uma cidade edificada no alto do monte que dependia do exterior, quer para
alimentação dos seus habitantes, quer para matéria-prima para as suas pequenas
indústrias. Muitos estrangeiros eram os profissionais de transporte para
abastecimento da cidade. É bem possível, que entre o hospedeiro e o samaritano,
embora separados pela religião, os interesses comerciais em comum tivessem
criado uma profunda confiança e amizade.
Mas
afinal, que conclusões podemos tirar desta parábola?
Inicialmente,
Jesus apela para a Lei, mas depois o seu herói é precisamente o samaritano, que
não seguiu a lei veterotestamentária, e que segundo essa mesma Lei deveria ser
considerado impuro.
Não
há dúvida de que, de acordo com a Lei, tanto o sacerdote como o levita ficariam
impuros sob o aspecto religioso se tocassem no viajante e ele viesse a falecer
nas suas mãos. Mas talvez tenhamos de considerar uma certa hierarquia das
Leis.... e a Lei de do amor de Cristo, que se deve
manifestar em todos os seus é a nossa Lei suprema, que tudo ultrapassa e que
inclusive pode inverter os nossos valores.
Mas
não estão todos estes problemas já ultrapassados, depois de 20 séculos de
cristianismo? Para quê lembrar essas velhas leis, há tanto ultrapassadas?
Nos
nossos dias, tudo que as igrejas ou juntas missionárias decidem, não está
sempre em sintonia com o pensamento de Jesus? Não vivemos nós de acordo com os
ensinos do nosso Mestre?
Podemos
imaginar, como seria a história do bom samaritano contada nos nossos dias?...
Era
domingo de manhã, e estava quase na hora da escola dominical. À beira da
estrada estava um homem caído. Já não se mexia e estava todo sujo do sangue que
derramara.
Passa
o carro do Pastor da igreja local, que até poderia ajudar.... se não estivesse já na hora da escola dominical... e com
tanta gente à sua espera na igreja... Não. Em primeiro lugar estão as suas
funções na igreja. Em primeiro lugar o Trabalho do Senhor... Mas o pastor
sente-se tocado e exclama: “Mas que país é este!... Com toda esta insegurança
nas nossas estradas.. Estou profundamente chocado com
estes problemas... Mas isto não vai ficar assim... Vou já tomar providências.. É um bom tema para uma pregação... Venham
logo à noite à minha igreja e logo vão ver a empolgante pregação que vou
apresentar sobre a insegurança nas nossas estradas...” E o pastor fecha energicamente
a porta do carro, e acelera a toda a velocidade a caminho da sua igreja,
entusiasmado com a sua própria espiritualidade.
Depois
vem o superintendente da Escola Dominical. Pára bruscamente o seu carro quando
vê o homem ferido na borda da estrada.... e até
poderia ajudar... se não estivesse já na hora da escola dominical. E logo nesta
altura, em que no domingo anterior fez um apelo para que todos fossem
pontuais.... Não. Em primeiro lugar estão as suas funções na igreja onde vai
falar do amor de Jesus. Em primeiro lugar o “Trabalho do Senhor”.
Em
seguida vem o imigrante, que veio de África, ou da Ucrânia, ou do Brasil, ou da
Rússia, um jovem dinâmico e trabalhador. Está há pouco tempo em Portugal, mas
já tem onde morar e até já comprou um carro muito usado em que é o terceiro ou
quarto dono, mas é o seu carro, fruto do seu trabalho árduo em que faz os
trabalhos que os outros não querem fazer.
Nesse
domingo levanta-se cedo, leva o seu carro para lhe dar melhor aspecto, pois gastou
as últimas economias a substituir o forro dos bancos já rasgados, por outros
novos. Toma banho e veste as suas melhores roupas, para ir à igreja, à escola
dominical.
Mas
o Senhor tinha outros planos. Tinha para ele uma bênção que os outros
desprezaram. Também vai a caminho da igreja, nesse domingo de manhã, quando vê
o ferido à beira da estrada. Aproxima-se, vê que o ferido ainda respira. Não
tem telemóvel (celular) para telefonar à ambulância, mas o ferido está a perder
muito sangue e tem de tomar uma decisão urgente. Pega no ferido e coloca-o no
seu carro. As suas melhores roupas ficam manchadas de sangue e lama, assim como
o forro dos bancos que mandou colocar na semana passada. Leva o ferido às
urgências (à emergência) do hospital, onde tem de prestar declarações às
autoridades policiais.
Por
fim chega à sua igreja, já quase no fim da escola dominical. É uma igreja
tradicional, onde nesse domingo de manhã todos se apresentam com as suas
melhores roupas.
Quando
termina a escola dominical, como de costume, apresentam o relatório desse dia.
Alunos inscritos..... Visitantes........ Alunos pontuais....... O pastor e o
superintendente da escola dominical respiram de alívio. Conseguiram chegar a
horas, foram pontuais.... O que seria do seu prestígio como crentes, se não dessem o bom exemplo.
Mas
muitos olham para o desgraçado que chegou quase no fim.... Veio com a roupa
toda suja.... Mas que falta de respeito pela Casa do Senhor, onde tudo deve ser
santo, limpo e perfeito!!... Quando será que ele vai compreender o Evangelho?!!
Quando será que se vai converter ao Senhor?!!!
Nesse
domingo o herói da nossa ilustração volta para casa.
Poderíamos
dizer que dava graças a Deus e que mostrava uma grande fé... mas infelizmente,
na vida real não há muitos heróis...
Ele
está desiludido, foi demais para a sua fé.... Tentou fazer o melhor e bem
sentiu o desprezo e os olhares de reprovação dos “santos” da sua igreja.
Esta
ilustração acaba mal, como tudo, ou quase tudo, na vida real. Mas, quem aceita
Cristo como seu Salvador e Mestre, tem de aceitar o seu desafio e sujeitar-se a
tudo que possa acontecer.
Será
que depois de 2000 anos já compreendemos a mensagem do nosso Mestre e o seu
conceito de santidade? Será que tudo mudou? Será que ainda nem tudo mudou?
Será
que temos de voltar ao princípio?
Que
o Senhor nos oriente na nossa resposta a estas perguntas.
Que
possamos reflectir com o nosso Mestre. Este pormenor é muito importante,
“reflectir com Jesus” pois tanto para o nosso Mestre como para o doutor da Lei
a pergunta era a mesma “Quem é o meu próximo?”
Mas
o doutor da Lei procurava uma definição teórica, uma definição teológica de
“próximo” (nisso nós somos bons), enquanto para Jesus isso significava acção.
Mais
importante do que uma definição teórica da palavra “próximo”, é perguntar: Onde
está o meu próximo para que o ame e o ajude como Jesus ensinou. Pois só esse
compreendeu quem é o seu próximo.
Camilo
– Marinha Grande 2002