Predestinação (MC)
Uma doutrina difícil
A doutrina da predestinação não é fácil,
mas as pessoas fazem-na mais difícil, ou pelo menos muito diferente, quando a
confundem com “predeterminismo”. O predeterminismo acredita que tudo o que acontece a uma pessoa
acontece porque já estava previamente estabelecido (por Deus, pelo Destino,
pelos astros), não podendo a pessoa livrar-se disso de forma alguma.
Predestinação tem de ver com a intenção final. Se um homem, ao entrar no seu
automóvel, disser: “O meu destino é Lisboa”, embora isto se diga, está a usar
erradamente a palavra destino, porque não é fatal que chegue a Lisboa. O carro
pode avariar-se e ele não chegará a Lisboa. Pode adoecer e não poder avançar. O
modo correcto de falar seria: “A minha destinação é Lisboa”, tornando claro que
Lisboa é o seu alvo. Em inglês e em francês esta diferença é muito clara (destination and destiny; destination et destin). A predestinação
afirma solenemente que Deus elege para a salvação eterna, mas não afirma de
modo algum que todas as coisas que acontecem na vida do crente já estavam
previamente estabelecidas. Nem elimina o direito do homem de rejeitar Deus. O
homem eleito não perde a sua capacidade de escolha pessoal nos caminhos da
vida, mas se é realmente alguém que Deus escolheu vai ao encontro do plano de
Deus. Muitos acontecimentos narrados na Bíblia ilustram a relação entre o plano
de Deus e o livre arbítrio do homem. E é à luz de um desses acontecimentos de
que é protagonista que Paulo de Tarso se torna o mais expressivo escritor
bíblico da predestinação. A vida de Paulo, a sua condição de, sendo judeu, era
também cidadão romano, a sua formação rabínica junto de Gamaliel mas também
formação helenista; a sua condição de fariseu, enfim, tudo nele se conjugou
para ser um elemento fundamental para a difusão da fé cristã. Portanto, a sua
referência ao facto de ser eleito de Deus não tem nada de orgulho, mas
justamente o contrário, é a humilde afirmação de que tudo se devia à infinita
bondade e sabedoria de Deus.
Não deixa de ser significativo que a
ideia da predestinação tenha estado obscurecida durante séculos e que tenha
sido na Reforma do século XVI, especialmente com Calvino,
que ela retomou um lugar importante. O sistema sacerdotalista
da Idade Média prefere a salvação pelo sacrifício do homem, pela sua luta, pelo
seu mérito. O Catolicismo medieval sobrevalorizava as “boas obras” para a
salvação; e Lutero realçou a justificação pela fé; mas Calvino
vai mais longe. Não vamos nós chegar à perversa ideia de que somos espertos,
somos superiores, porque temos fé e outros não têm, pois notemos bem, diz Calvino, que nem a fé é mérito nosso: pois fomos eleitos
por Deus. Recebemos a chamada, não devemos nada a nós próprios. É a posição
maior da humildade humana, que muitos inconscientemente receiam aceitar.
Segundo essa visão, a Igreja não nasce das boas intenções dos homens e os
cristãos não devem a sua salvação a si próprios, mas à chamada absolutamente
gratuita que receberam.
No Antigo Testamento é recorrente o
ensino de que Abraão é um homem eleito por Deus, não por causa de algum mérito
nele existente mas porque na Sua soberana vontade, Deus assim o quis Génesis
12:1/3; Génesis
22:15/18; Génesis
26:4; Isaías
41:8. Não podemos citar todos os textos e referir todos os chamados por
Deus. No entanto, é importante sublinhar que a chamada de Deus impõe o dever da
obediência. Eis o que é dito a Israel: De todas as
famílias da terra, a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças
visitarei sobre vós - Amós
3:2. Note-se, entretanto, que os profetas de Israel nunca anunciaram a
total rejeição de Israel. Como escreve um comentador: “Deus castiga e prova,
mas permanece fiel à sua aliança e às promessas feitas, não revogando a vocação
do seu povo” (F. Michaeli, Vocabulário Bíblico). Esta
ideia da eleição mantém-se no Novo Testamento. Somos salvos porque Deus nos
elegeu, mas Deus espera de nós total obediência. Somos
a “raça eleita” I
Pedro 2:9, mas com um objectivo: para fazer a vontade de Deus.
Detestam esta ideia os grupos religiosos
que querem manter o povo em constante incerteza (estou salvo? Não estou salvo?
Que me falta fazer para completar a salvação: pagar o dízimo, obedecer aos
chefes e manter-me nesta denominação? Receber tal tipo de baptismo?); esses
grupos ou Igrejas detestam a ideia de eleição. Eleitos só eles, os chefes, às
vezes eleitos por votos em Sínodos, é verdade, mas Deus sabe o que valem tais
votos humanos, às vezes conquistados com jogos de bastidores. Detestam a todos
os que disserem que são crentes não por pertencerem a esta denominação, não por
subscreverem este credo, não por se submeterem a esta liturgia, mas pela graça
de Deus que nos escolheu desde a fundação dos mundos (Romanos
8:29; Efésios
1:4/11). Antes de acabar este artigo é bom dizer que hoje não há, que eu saiba,
nenhuma Igreja que defenda a predestinação como Calvino
a formulou, isto é, falando da dupla predestinação. A Reforma não canoniza os
seus teólogos e não tem dificuldade em reconhecer exageros neles. Calvino achou que, se há uns que Deus elegeu para a
salvação eterna, é porque há também quem fosse eleito para a perdição eterna.
Este segundo ponto é rejeitado. Trata-se de um aspecto que não conhecemos, não
é revelado na Bíblia.
Agora o que se não pode negar é o júbilo
profundo que o crente pode experimentar por poder dizer: “Estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos,
nem os principados, nem as potestades, nem o presente nem o porvir, nem a
altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura, nos poderá separar do
amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” -
Romanos
8:38/39.
Figueira da Foz – Portugal – Maio de
2006