POLÍTICA
E RELIGIÃO (PM)
Qual
a fronteira?
Um fenômeno sócio-político-religioso
tem tomado vulto aqui no Brasil, quiçá em alguns outros países, nos últimos
vinte anos. É o crescente envolvimento de igrejas de forma direta,
no processo sucessório político-administrativo.
A partir do envolvimento em campo
aberto, na militância política (militância temos cá, com o sentido de atuação, exercício, prática) de igrejas expressivas como a
Igreja do Evangelho Quadrangular, Assembléia de Deus
e Universal do Reino de Deus, pelo número de templos que detém (milhares) e
pelo número de seus adeptos seguidores (milhões), foram estas objeto de estudos em sociologia, teses de mestrado em
ciências sociais e fórum de debates em núcleos teológicos.
É pertinente trazermos como tema para
nossa reflexão este assunto, visto que aqui no Brasil estamos num ano
eleitoral, quando serão renovados os quadros executivos e legislativos
nacionais, tanto nos estados como a nível federal.
Tendo as igrejas acima mencionadas como pontas-de-lança, outras tantas estão se organizando
politicamente e fincando bases e plataformas políticas em suas respectivas
áreas de influência, ou seja, na sua membresia.
A Igreja Universal do Reino de Deus, foi
a primeira a conseguir, em setembro de 2005, o registro
oficial de um partido político à si vinculado; trata-se do nóvel
PMR- Partido Municipalista Renovador, que objetiva, sobretudo, defender os interesses daquela igreja,
conforme pronunciamento obtido na imprensa pela fala de seus dirigentes. Pela
mesma imprensa, o renomado jurista brasileiro Dalmo Dallari declarou ver como
extremamente perigoso à democracia e à liberdade de credo um partido político
ligado a uma igreja.
O universo das igrejas pentecostais não
é coeso entre si; sua formação histórica origina-se de cismas doutrinários em
igrejas protestantes, chamadas tradicionais, ao longo do tempo estas mesmas
igrejas pentecostais fragmentaram-se, por outros cismas, dando origem a um sem
número de igrejas conhecidas como neo-pentecostais.
Segundo estatísticas, a cada dia duas novas denominações neo-pentecostais
assentam registros em cartórios brasileiros. Há uma rivalidade velada entre
elas, o que seria natural, pois cada líder novo que surge cria um rebanho para
si e preserva-o por todos os meios. Reproduzirei aqui e agora a fala do ex-articulador político da Igreja Universal, bispo Carlos
Alberto Rodrigues, egresso da mesma, conforme
publicado no Jornal do Brasil aos 20 de dezembro
de 2004, coluna do jornalista Bernardo Mello Franco: “A Universal é grande e
precisa de um partido próprio para apoiar sua estrutura de comunicação”.
Desta afirmação depreendemos que os
interesses do povo brasileiro como um todo não são levados em conta mas sim os
interesses midiáticos da Universal. Daí que a
política para a Universal é um meio de ampliar sua influência, aumentar o seu
rebanho preservando o já existente.
Entendo que ministros
de confissão religiosa seja ela qual for, tem o direito de pleitearem cargos
públicos enquanto cidadãos, não enquanto ministros e dirigentes de igrejas
ocupando púlpitos. Conforme proposta apresentada ao Congresso Nacional
Brasileiro em 16 de novembro de 2004, ainda não
votada, a Juíza Deputada Sra. Denise Frossard Loschi pede o
afastamento; no mínimo 12 (doze) meses anteriores ao pleito; do pretendente a
qualquer cargo público nas áreas executivas ou legislativas, do seu cargo ou
função que exerce na hierarquia da instituição religiosa a qual pertence, seja
católica, protestante, judaica, islâmica, induista , religiões orientais , afro-brasileiras,
etc. Projeto de Lei Complementar – Lei das
Inelegibilidades .
Agora vejamos se sob a análise das Escrituras
sacerdotes de confissão religiosa evangélico-protestantes
têm o direito de utilizarem a máquina institucional religiosa a que pertencem,
para se promoverem politicamente. Muitos não o fazem como candidatos diretos, porém defendem em púlpito candidaturas escolhidas
entre seus pares. Tendo entre seus membros uma grande maioria de pessoas
simples e incultas, apresentam-se como detentores de um mandato divino na
condição que estão como pastores, bispos ou modernos apóstolos e passam a
imagem de que também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação e administração públicas.
Pelas palavras e instruções do N.S.
Jesus Cristo, entendo que o dar a César o que é de
César e a Deus o que é de Deus, eqüivale dizer
que Igreja e política partidária não podem ser irmãs, no máximo podem ser
primas, oriundas de diferentes famílias com funções diametralmente opostas,
pois uma cuida da elevação moral e espiritual do povo e outra dos negócios
seculares.
Sem dúvida, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorram para um
aprimoramento de todas as instituições e produzam um, cada vez mais, elevado
padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo (ou
dos povos) devem ser buscados e cultivados, inclusive a política. O código
moral, espiritual bíblico-evangélico é universal e
apartidário, daí a igreja não poder ater-se a um partido político, senão perde
o seu caráter de universalidade e imparcialidade.
Outro destaque bíblico que cabe aqui é
que ninguém pode servir a dois senhores e muitos largaram a mão do arado e
voltaram-se para trás.
Veja-se Mateus
6:24 e Lucas
9:62.
Vejo com muita preocupação a posição de
muitos líderes evangélicos ao manipularem suas membresias
com o discurso de que fazer política partidária é também uma responsabilidade
da igreja. Assim estão os tais se convertendo em políticos ao invés de
converterem os políticos ao Evangelho.
Se também bem entendi o Velho
Testamento, lá está escrito que Deus fez uma nítida separação entre a condução
e administração dos negócios de Estado ou Nação dos negócios da religião, sendo
que religião é ‘religare’: o processo de religar o homem a Deus (elo rompido no Jardim do Édem).
Moisés foi legislador/administrador
e Arão e os levitas os que exerciam o poder
sacerdotal. Samuel era o oráculo (profeta) de Deus, Saul
o administrador da nação enquanto Estado. Inclusive Saul
foi destituído porque entendeu que sendo rei (político) poderia imiscuir-se nas
coisas espirituais. I
Samuel 13:8/14
Diante do exposto estamos assistindo
aqui no Brasil, não sei como estão os outros países do mundo, a um
desvirtuamento da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, no que concerne a ser a
detentora do poder espiritual provindo do alto: Espírito Santo; para a redenção
dos povos, para a maior glória de Deus nas alturas, a partir dos terráqueos na
face da terra.
Somente posso aceitar a igreja com a
posse de um partido político e detentora de um poder político, se ambos (poder
político e partido político) receberem do alto o Espírito Santo, como que
línguas de fogo repartidas. Caso contrário é rebeldia, e rebeldia é pior que
crime de feitiçaria: ASSIM ESTÁ ESCRITO. I
Samuel 15:23.
Está aberto o debate: SENHORAS E
SENHORES.
Saudações à
todos com a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Paulo Rogério Pires de
Miranda
São Paulo, 24 de abril de 2006