Nova Evangelização
(JL)
Relíquias, imagens e… CRISTO VIVO
ICNE
Sou cristão e lisboeta, mas não venero
as relíquias da Santa Teresa do Menino Jesus nem dobro os meus joelhos diante
da imagem da Senhora de Fátima!
Serve este desabafo inicial para melhor
me posicionar perante o Congresso da Nova Evangelização (ICNE) que terminou e
mereceu a minha atenção particular pelo seu tema central: “CRISTO VIVO”.
Lembro-me de ter comentado, com esperança e alegria, o facto da Igreja Católica,
no caso presente a Diocese de Lisboa, ter dado prioridade à dimensão
cristológica nesta sua iniciativa, o que nem sempre acontece.
Essa esperança e alegria iniciais
foram-se esfumando à medida que ia conhecendo o programa da semana e
tornaram-se frustração no final do mesmo. Sei que muita coisa válida foi
realizada e vivida nos múltiplos eventos cultuais e culturais, e lamento que,
apesar de “alfacinha”, me visse obrigado a seguir o ICNE à distância, tal como
a grande maioria dos portugueses. Dependi, como eles, dos meios de comunicação
social e, por mais honesta e objectiva que ela tenha sido, terei de admitir
algumas lacunas no meu conhecimento. No entanto, o que li, vi e ouvi é-me
suficiente para defender o meu ponto vista.
A referência primeira e fundamental de
qualquer cristão é CRISTO e é o anúncio da Boa Nova, do Seu Evangelho, que está
no centro da acção missionária da Igreja ou, como o Congresso sublinhou, da
Nova Evangelização. Era este anúncio que eu esperava que Lisboa ouvisse. Esperava
que Lisboa se confrontasse com esta referência. Esperava que Lisboa pudesse
sentir que o CRISTO VIVO não a abandonou e caminha pelas suas avenidas e
bairros degradados. De nenhuma destas dimensões me apercebi pelas notícias e
comentários recebidos.
O mesmo não aconteceu com o que pensava
ser secundário ou mesmo desnecessário. O ICNE acabou por ser a ocasião onde a
religiosidade popular, tantas vezes contrária à doutrina oficial da Igreja, se
expressou em toda a sua amplitude. É certo que os organizadores e responsáveis do
Congresso deram-lhe todas as condições para tal.
Sabiam de antemão o “sucesso” que teriam a exposição das relíquias da Doutora
da Igreja e a procissão das velas na companhia da “verdadeira” imagem da
Senhora de Fátima. E o povo correspondeu, como era previsível. Mas…
E o CRISTO VIVO? Onde é que o povo o
encontrou? Nas relíquias de Santa Teresa? Na imagem peregrina da Senhora? Na
verdade é muito mais fácil beijar ou tocar um relicário ou uma imagem do que
uma mãe solteira, um drogado, um refugiado ou imigrante, alguém com SIDA ou os
sem abrigo que dormem na rua, perto das nossas casas. Mas não está Cristo
neles, interpelando-nos e chamando-nos a cumprir a missão que Ele mesmo nos
entregou? Não está a cidade de Lisboa cheia destes exemplos? Que o povo de
Lisboa atente nas palavras do Evangelho do próximo domingo: Afastai-vos de mim,
malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus
anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de
beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente
e na prisão e não fostes visitar-me… Sempre que deixastes de fazer isto a um
destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer Mateus
25:41/45. Identificando-se a Si
próprio com todos estes homens e mulheres que vivem, ou sobrevivem, nestas
condições, Cristo está-nos a dizer que está VIVO ao nosso lado, no meio de nós,
nesta nossa Lisboa, neste país e no mundo.
Este desafio evangélico interpela-nos de
uma dupla maneira: a do CRISTO VIVO, sofredor, marginalizado e esquecido, que
se identifica com o próximo e a do CRISTO VIVO que está em nós e quer ir ao
encontro dos outros. Não duvido que muitos O encontram na Sua mesa, partilhando
do Seu Corpo e do Seu Sangue, sejam quais forem as concepções teológicas que
lhes estão subjacentes. Mas não é este o meio mais cómodo e fácil do nosso
encontro com Ele? Não será igualmente fácil tentá-Lo
encontrar venerando relíquias ou participando em procissões marianas? E o
resto, o caminho mais difícil, o que nos faz testemunhas visíveis e eficazes da
presença de Cristo, na cidade e no mundo?
Duas notas finais. A primeira refere-se
à consagração do povo da diocese de Lisboa à Virgem de Fátima. Como lisboeta, e
cristão não católico romano, não me revejo nela. Uma vez que me consagrei ao
CRISTO VIVO não vejo necessidade, porque não quero e não posso, compartilhar
essa consagração com terceiros. Ele é para mim o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir
até o Pai senão por Ele João
14:6. Pode ser que muitos lisboetas pensem como eu, mas se este não for o
caso, pode o Senhor Cardeal Patriarca ter a certeza de não poder contar com
este lisboeta no número dos consagrados à Senhora de Fátima!
A segunda nota dedico-a
a um breve comentário ecuménico. Em Abril de 2001, a Conferência das Igrejas
Europeias (KEK), da qual a Igreja a que pertenço faz parte, e o Conselho das
Conferências Episcopais Europeias (CCEE), da qual a Conferência Episcopal
Portuguesa faz parte, assinaram, pela mão dos seus respectivos Presidentes a Charta Oecumenica para a
Europa. Essa Carta inclui uma série de compromissos que as Igrejas na
Europa aceitaram. No que respeita à evangelização, transcrevo da secção II, 2:
“2- Anunciar juntos o Evangelho
O dever mais
importante das Igrejas na Europa é o de anunciar juntas o Evangelho, … é
importante que todo o povo de Deus se empenhe junto em espalhar o Evangelho
dentro do espaço público da sociedade…
Comprometemo-nos:
- em fazer conhecer às outras Igrejas as nossas iniciativas
para a evangelização e em estabelecer acordos a propósito, para assim evitar
uma concorrência prejudicial e o perigo de novas divisões;”
Desconheço que este compromisso tenha
sido levado à prática. Simples esquecimento? Ou talvez não? De qualquer modo,
podem os responsáveis do ICNE em Lisboa ter uma certeza: com este programa
todas ou, pelo menos, a maior parte das outras Igrejas irmãs de Lisboa, teriam
respondido negativamente a qualquer convite que lhes deveria ter sido feito.
Infelizmente…
José Manuel Leite -
Pastor Presbiteriano
Novembro de 2005