Mudar a Vida
(MC)
Quando se entra num novo
ano, em muitas pessoas, consciente ou inconscientemente, está presente este
desejo: “Quem me dera poder este ano mudar a minha vida!”. Fala-se muito em
“Ano Novo, Vida Nova”, o que corresponde a um anseio muito profundo do ser
humano, mas a verdade é que a maior parte de nós iniciamos o ano com esse
secreto desejo e acabamo-lo com o sentimento de que, no fundamental, não
mudámos nada para melhor.
Podemos parecer pessoas
muito satisfeitas com o que somos, com o modo como vivemos, mas nos momentos de
mais fria análise percebemos que a nossa vida está a ser um fracasso, que não
nos sentimos bem, que, se um júri objectivo nos submetesse a “exame na
disciplina Vida”, dar-nos-ia nota negativa.
Também as sociedades precisam
de mudar. Hoje fala-se muito da premente necessidade de criar uma nova e melhor
ordem mundial, com uma nova economia, uma nova justiça, um novo relacionamento
entre os povos. Mas é uma ilusão esperar-se mudanças a nível colectivo,
mantendo-se um estilo de vida individualista. Como Igrejas também aspiramos a
mudar, a sermos este ano mais obedientes à ordem de ir e fazer discípulos,
sermos uma Igreja mais fiel a Cristo – mas como o poderemos ser se na maioria
nos mantivermos prisioneiros da nossa visão mesquinha, interesseira, arrogante?
Uma reflexão rigorosa
sobre as eventuais causas do fracasso pode levar-nos às conclusões que se
seguem.
O erro principal
A tendência humana é
cada um de nós pensar demasiado em si próprio. A isso, sem uma conotação
moralista, poderemos chamar egocentrismo: o homem centrado em si mesmo. É uma
tendência natural quando se é criança: é correcto que o centro da vida seja o
próprio, pois a criança, sendo um ser totalmente incapaz de sobreviver por si
só, está, por assim dizer, programada para requerer a atenção dos adultos; da
sua mãe em primeiro lugar, mas também do pai e de outros adultos. Não é erro,
portanto, a criança querer toda a atenção sobre si – mas essa atenção tem de
ser gradualmente dispensada, à medida que a pessoa cresce – significando total
maturidade a total capacidade de autonomia. Mas “total maturidade”, digamo-lo
já, é um alvo que se deve ter em vista, não sendo, por certo, muitos os que a
atingem, mesmo na velhice mais avançada. Educar é fazer com que a pessoa vá
paulatinamente ganhando essa autonomia. Não se espera, nem é desejável, que a
pessoa chegue a sentir-se totalmente auto-suficiente, mesmo no plano
sentimental, mas é saudável que possamos chegar a dispensar amizades sem
solidez e cheguemos a aceitar sem perturbação a solidão. Temos conhecido
pessoas que se resignam com convivências extremamente desagradáveis por não
suportarem a ideia de ficar sós. Mas essas pessoas seriam mais felizes se
estivessem preparadas para viver apenas consigo próprias, se tal fosse
necessário.
Subdesenvolvimento psicológico
Sinal, portanto, de
“subdesenvolvimento psicológico” é o continuarmos pela vida fora com um elevado
grau de necessidade de estar no centro das atenções, de ser elogiado, de ser
aplaudido, de receber dos outros (amor, prazer, benefícios). Se chamarmos
“felicidade” ao sentimento de a pessoa se sentir bem, de se sentir “realizada”,
perceberemos que não pode haver felicidade enquanto estivermos nesse
“subdesenvolvimento psicológico”.
Necessariamente, a
pessoa egocêntrica sentir-se-á sempre insatisfeita – e mais insatisfeita ainda
vivendo rodeada por uma maioria de outros “subdesenvolvidos psicológicos” que
também requerem estar no centro, querem brilhar e receber, receber benefícios.
Imagine-se uma família – pai, mãe e dois filhos – todos em fase de
egocentrismo, mesmo que uns mais do que outros, logo todos exigindo ser amados,
servidos, beneficiados, aplaudidos. Na sua juventude, do autor destas linhas
houve um autor mais ou menos das margens da sociedade lisboeta, chamado
Mesquita Brehem, que pareceu querer dar origem a uma
nova filosofia que designava por “Egocentrismo” – e via nela a salvação do ser
humano. Deduzia que o nosso mal vem de dependermos dos outros e que é
cultivando o egocentrismo que nos libertamos. Mas essa ideia é errada: o
egocentrismo não nos liberta, porque ele é prisão.
Quanto mais nos
centrarmos em nós mais ficamos dependentes dos outros, mais requeremos a
atenção alheia, mais os nossos diabos interiores nos inquietam. Não sei o que
foi feito desse autor, mas pareceu-me nos seus escritos que havia uma evolução
perigosa para a excentricidade e para a paranoia,
podendo ter acabado na loucura, que é também uma forma de prisão.
Foi nesta situação de “o
homem centrado sobre si mesmo” que o teólogo Martinho Lutero viu a ilustração
do pecado. Para ele, falar do pecado não é falar em termos moralistas deste ou
daquele acto, mas é falar da situação do homem dobrado sobre si mesmo,
egocêntrico, e portanto, vivendo necessariamente em conflito com os outros. É
esta também a atitude da Bíblia. A alegoria da Queda de Adão e Eva transmite
esse mesmo ensino e toda a Bíblia mostra que a causa do sofrimento humano é
justamente o pecado. Quando os teólogos falam do Pecado Original falam desse
pecado do egocentrismo, que dá origem a todo o mal. O livro de Génesis não foi
escrito para responder à nossa curiosidade sobre as origens da terra e dos
seres que nela habitam, mas para responder a esta questão fundamental: Génesis
não compete com a ciência e as suas hipóteses, mas tem de ver com esta questão:
“Porque sofremos?”. E a resposta da Bíblia é: “sofremos porque somos
pecadores”. O ímpio, isto é, o homem natural, tem muitas dores, diz o Salmo
32:10.
A tarefa impossível
Descoberta ou
pressentida que a causa do fracasso da nossa vida é o egocentrismo, pensamos: “Tenho de abandonar esta tendência de tudo
referir a mim e preocupar-me com os outros”. Tudo e todos, de resto, nos fazem
ver essa necessidade. Até muitas Igrejas tem um discurso nesse sentido:
“Melhora o teu comportamento!”. Fala-se da reforma da vida, não no sentido de a
pessoa se aposentar, claro, mas de melhorar o seu comportamento. As pessoas
tentam - mas a verdade é que, bem vistas as coisas,
não só não melhoram nada – como até podem piorar muito – porque se tornam
hipócritas, fingem ter-se tornado melhores, mas nada mudou. Pelo menos nada
mudou no mais profundo da pessoa. Pôs um verniz por cima do seu carácter, mas
num momento de crise, o verniz salta e o carácter mostra-se tão rude como era,
acrescentado com o sentimento de culpa.
A Bíblia pergunta: Pode
o leopardo mudar as suas manchas? Nesse caso, também vós não podeis fazer o
bem, acostumados que estais a fazer o mal Jeremias
13:23. É verdade que o verbo hebraico aqui traduzido por “acostumar”, limmud, também tem o sentido de “aprender” e “ensinar”,
razão porque algumas versões dizem “sendo ensinados a fazer o mal”, e portanto
poderia argumentar-se que o mal não é inato no ser humano, mas produto do que a
sociedade ensina com os seus maus exemplos. É assim que em geral se pensa e foi
assim que o filósofo Jean-Jacques Rousseau ensinou: o
ser humano não é naturalmente mau, diz Rousseau, mas é a sociedade que o faz
mau. Ora bem, a Bíblia diz que não: que não é a sociedade que nos faz maus. Quem
tem razão? Nós diremos: tem a Bíblia porque ela reflecte a experiência dos
povos. Neste caso a voz do povo é voz de Deus. Não podemos ler a Bíblia com
olhos de ideologia, mas leiamo-la comparando-a com a nossa própria experiência
e a experiência da História. Não teremos dúvida que poderíamos reconhecer que,
sem que o possamos explicar, o pecado está em nós desde que nos conhecemos.
O versículo acima –
“pode o leopardo mudar as suas manchas? Nesse caso, também vós não podeis fazer
o bem, acostumados que estais a fazer o mal” – pelo contexto é claro que indica
o mal no ser humano não como algo adquirido, pela (má) educação ou por
influência alheia, mas nascido com a pessoa, exactamente como o leopardo nasce
com as suas manchas. A Bíblia não especula, não faz uma afirmação filosófica
sobre a natureza humana, mas limita-se a registar um facto real. Quem quiser
pode não aceitar essa concepção do ser humano, mau por natureza, mas é a que a
experiência individual e colectiva ensina. “Tal como o leopardo não pode mudar
as manchas da sua pele, também vós, sendo maus por natureza, não podeis fazer o
bem”.
Portanto, deduzindo-se,
correctamente, que é a nossa inclinação para o egocentrismo que nos traz a
infelicidade, pode concluir-se que nos devemos auto-corrigir. Mas é errado
pensar assim, pois tal é o mesmo que uma pessoa nascida com olhos azuis querer,
por esforço pessoal, passar a ter olhos castanhos. É uma
tarefa impossível mudarmos por nós próprios a cor dos nossos olhos ou
mudar a nossa maneira egocêntrica de viver.
Com a Revolução
Francesa, muitos homens bem intencionados sonharam o nascimento de um mundo de
justiça, de liberdade e de igualdade. Mas duzentos anos depois já todos sabemos
que onde houve a oportunidade de realizar esses sonhos manifestaram-se
fracassos colossais. E isso porque os homens bem intencionados que quiseram
concretizar esses sonhos foram gradualmente fazendo o contrário do que eles próprios queriam fazer, por serem maus – tão maus como
os outros que não fizeram nada de grave, porque não estiveram em condições de o
fazer.
Continua a ser legítima
a discussão dos sistemas sociais e da indispensável acção disciplinadora da
política e dos Estados, a fim de se evitarem situações limite de degradação e
de insegurança, mas sem ilusões, sabendo que o ser humano continua a ser
inclinado ao pecado, isto é, inclinado ao egocentrismo que o leva a querer
dominar e a querer ser servido.
Não há quem faça o bem
Pessoas sensíveis
suspiram: “Não se pode confiar em ninguém!”. Podem ser pessoas sem grandes
estudos e sem grandes leituras, mas provavelmente chegaram a essa afirmação por
terem sido mal tratadas pela vida, tendo aprendido a dura lição.
Quem, pelo contrário,
cresceu num ambiente protector e sem grandes perturbações, recebendo uma
educação que sublinhou a bondade e a polidez, fica impressionado com essa
desconfiança e considera-a exagerada ou mesmo maliciosa, mas vale a pena dar um
novo olhar e ver se quem diz que não se pode confiar em ninguém não terá razão.
Os mais velhos, que têm
uma experiência alargada e não estiveram distraídos no relacionamento nas
escolas, nos empregos, nos partidos políticos mesmo com ideários
muito generosos, e até a experiência dentro de Igrejas, sabem que não há
exagero: em todo o lado a perversidade está presente, introduz-se a mentira,
manifesta-se a traição.
Quando, no princípio de
2003, os meios de comunicação social portugueses deixaram atónito o público com
a citação de nomes famosos alegadamente envolvidos em casos de abuso sexual de
crianças, pessoas humildes juntaram-se em magotes para apoiarem os seus ídolos
e manifestarem rejeição liminar das acusações. “Eu tenho a certeza que Fulano
está inocente! É uma calúnia!”. Tais atitudes, porém, revelam o fundo católico
da consciência dessas pessoas, pois o Catolicismo adoptou desde o século V uma
antropologia dita semi-pelagiana muito optimista – e além disso é no seio do Catolicismo que são apontados os “santos”, cristãos e
cristãs supostamente muito acima das pessoas comuns e que se notabilizaram,
diz-se, por fazerem o bem. Para essa visão optimista do ser humano, há pessoas
acima de toda a suspeita, de cuja bondade e correcção é mesmo ofensivo, senão
blasfemo, pensar. O Protestantismo, principalmente o de linha calvinista, pelo
contrário, fala da corrupção geral da humanidade e crê que não nos podemos
iludir nem com o rosto angélico nem com a belas
palavras dos homens.
Desconfiar, porém, não
significa odiar nem desprezar os seres humanos. Significa apenas reconhecer com
realismo a “nossa” condição de pecadores.
Sublinhamos “nossa” para
deixar claro que quem fala da corrupção do género humano não é dos outros
apenas que fala, mas também de si. Repetimos, no entanto, que falar da condição
pecaminosa do ser humano não implica desprezá-lo.
Uma menina de três anos,
vendo a mãe a limpar o pó da sala, toma um pano e, pressurosa, dirige-se a um
jarrão da China, com cem anos na família, com a intenção de ajudar. Mas a mãe,
rapidamente, proíbe-a de tocar no jarrão!
Desconfiada esta mãe?
Sim, mas amando a sua menina, pela sua boa intenção, embora com três anos o
mais certo seria transformar o jarrão em mil pedaços.
Pela mesma razão, ter
esta visão pessimista do ser humano não obriga quem a tem a ser um misantropo,
a viver com uma expressão de zangado ou a ser sistematicamente pessimista. Não
podemos ter a visão ingénua da personagem do Cândido de Voltaire que achava que
tudo ia bem no melhor dos mundos – mas podemos ser homens e mulheres tranquilos
que não se iludem a esperar grandes coisas de si e dos outros, mas ser optimistas
globalmente por acreditarem que há um desígnio no Universo e no fim o projecto
de Deus sairá vencedor.
Mesmo entre um casal que
se ama é errado um deles, ou ambos, crer que “pode pôr as mãos no lume pelo
outro”. Todo o ser humano está sujeito a tentações e pode falhar. Os pais que
educam os seus filhos ou filhas numa atitude de contínua confiança nos outros –
“Não sejas desconfiado! Não penses mal de ninguém!” – não estão a preparar os
filhos para a vida real e podem estar a criar neles condições psicológicas para
grandes frustrações.
Foi no livro de Salmos
ainda que São Paulo encontrou uma frase para explicitar a visão bíblica do
homem, quando escreveu; Não há quem faça o bem, nem um sequer Romanos
3:12; Salmo
14:1/3; Salmo
52:1/3.
Não se duvida que haja
pessoas bem intencionadas, que procuram fazer o bem. Mas nuns de um modo mais
sofisticado noutros de forma mais brutal, não é difícil perceber que é
verdadeiro o provérbio que diz que “de boas intenções está o inferno cheio”,
pois ou os projectos não passam à prática ou a prática tem resultados opostos
às boas intenções.
Só Deus é bom
Esta concepção negativa
da humanidade parece-nos excessiva. Não temos ouvido falar de pessoas
admiráveis crentes, ateus, e agnósticos; cristãos, hindus, islamitas, budistas,
de todas as religiões e de todas as ideologias?
Há que ter em conta duas
coisas. Primeiro: muitas dessas mesmas grandes pessoas são as primeiras a
reconhecerem que o bem que fazem não tem origem nelas, que não são pessoas
boas. O próprio Jesus Cristo, ao ser chamado “bom” por um jovem, observou-lhe:
Porque me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus Mateus
19:17. Não estamos a dizer que Jesus não era bom: no seu caso, esta frase
reivindica a sua divindade, mas leva subjacente a visão bíblica da situação
pecadora do homem. Não há ninguém bom, senão Deus.
A segunda coisa a
reconhecer é que nós só vemos os actos dos homens, que podem, os actos, ser
classificados de bons, mas não sabemos com que intenções são feitos. Olha
aquele homem oferecendo abundante esmola a um pobre. A esmola não será filha da
generosidade se dentro de si o homem pensar: “Dou a esmola a este velhaco que
não quer trabalhar para que Deus me dê um lugar no céu!”. Uma tal esmola é
negócio, falso, mas negócio. E quem sabe se nem mesmo em Deus esse homem
pensou, mas apenas sabia que estava a ser observado e assim ganhava reputação
de boa pessoa?
É por ter esta concepção
do homem que a Bíblia indica leis morais, não que o homem se torne bom por se
submeter aos mandamentos, mas porque os mandamentos limitam a sua maldade.
Aliás, o crente deve ter um bom comportamento ético na sociedade em que está
inserido – não que o Cristianismo seja uma ética, mas para que a convivência
entre os humanos seja possível. Mas o homem mais escrupuloso em moral continua
a ser um pulha no mais profundo de si.
No Sermão da Montanha,
Jesus aponta o erro dos fariseus, que eram os religiosos exemplares dos seus
dias. Eles achavam que tudo andava bem se uma pessoa não matava, não roubava,
não adulterava. Mas Jesus dizia: Eu, porém, vos digo: se alguém diz uma palavra
que fere o seu próximo já está a transgredir a lei que diz não matarás; se alguém não partilha com o necessitado, já está a
roubar; e o homem que dentro de si pensa eroticamente numa mulher já está a
adulterar com ela. Ou seja: Os fariseus podiam chegar a pensar que, se se esforçassem, podiam chegar à perfeição, mas quem a si
mesmo se observa sem ilusões percebe que é pecador. Quem a si mesmo se engana
inventa justificações, como aquele homem a quem entregaram uma importância
elevada para distribuir pelos pobres e usou-a em seu proveito, pois sentia-se
também ele um pobre. Como se
sabe, se nos compararmos com outros podemos sempre acharmo-nos muito pobres, se
os outros se chamarem Bill Gate ou mesmo Belmiro de
Azevedo.
Sentimento de culpa
Por causa da natureza
pecaminosa do ser humano, a vida na terra caracteriza-se pelo conflito e pelo
sofrimento. Há momentos de alegria e de festa, mas em geral a vida, a nível
natural, é uma caminhada de dor. A educação e os costumes, a polícia e os
tribunais, levam muitos a controlar os seus maus instintos, mas também essas
pessoas praticam o mal, mesmo que de um modo mais subtil. Muitas pessoas
aparentemente de comportamento moral exemplar podem ser alvo da comparação que
Jesus fez em relação aos judeus mais religiosos do seu tempo: Ai de vós,
escribas e fariseus hipócritas! Pois sois semelhantes aos sepulcros caiados,
que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de
ossos de mortos e de toda a imundícia Mateus
23:27.
Essa desarmonia entre
aquilo que o ser humano quer ser ou parecer e aquilo que sabe ser realmente, a
maldade constante que vai praticando, dá origem a um enorme sentimento de
culpa, que a muitos atormenta e se transforma em distúrbios e violência
individual e colectiva. A força destruidora do sentimento de culpa está por
detrás das guerras que põem o mundo em fogo, nos assassinatos, nos assaltos,
nas violações, na opressão, na corrupção, enfim, na enorme onda de ódio que
cobre o mundo. Pessoas inteligentes, de grande capacidade de raciocínio em
muitas áreas, caminham inconscientemente no caminho da dor e da morte, sem
encontrarem solução para os seus problemas. O autor bíblico também viu essa
situação e escreveu: O caminho dos ímpios é como a escuridão: nem conhecem aquilo
em que tropeçam Provérbios
4:19. É realmente espantoso verificar como o ser humano, fazendo sofrer
outros com os seus dislates, tem muitas vezes este
lamento, porventura sincero: “Ninguém me compreende!” Faz-se vítima, apesar de
objectivamente ser ele o causador do problema.
Freud, o pai da
Psicanálise, percebeu que muitos acidentes que a pessoa tem na sua vida
quotidiana são formas inconscientes de auto-punição. A mulher que na cozinha se
fere ao cortar carne, pode estar, sem o saber, a castigar-se pelo modo como foi
dura para o filho essa manhã, e o homem que dá uma martelada no seu polegar ao
bater um prego, pode estar também a punir-se de uma falta. Por isso, não parece
errado usar uma categoria de Carl Jung,
discípulo dissidente de Freud, para dizer que talvez o inconsciente colectivo
tenha levado o homem a deduzir que Deus castiga todo o pecado. “Quem o mal faz,
às costas o traz”. Esta verdade, bem fixada na alma humana, explica a
perturbação em que vivemos.
Confiar em Deus
Devemos agora referir
que, para a Bíblia, o contrário de homem “ímpio” ou “mau”, não é o “bom”. Pela
simples razão já referida que, para ela, não há ninguém entre os humanos que
mereça ser chamado “bom”. Só Deus é bom.
É aqui que convém
lembrar a experiência de Martinho Lutero. Lutero é o homem atormentado pela sua
consciência de ser pecador. A grande questão que ele põe é: como é que posso
tornar-me um cristão digno? O seu biógrafo Lucien Febvre fala dele no convento ainda: “Transporta um fardo
demasiado pesado. Tem a alma inquieta, a consciência funesta. Não que seja
biltre, perverso ou mau. Mas sente que fervilham e rastejam, nos subterrâneos
da sua alma, muitos desejos duvidosos, muitas tentações dolorosas, muitos
vícios em potência e complacências secretas. Desespera de si próprio, da sua
salvação; a pureza absoluta, a pureza que precisaria de ter para só então ousar
apresentar-se perante o seu Deus, essa está tão longínqua, tão inacessível...”
Como saiu Lutero dessa
situação angustiante? Não saiu pelo seu esforço.
Saiu justamente quando
deixou de se esforçar, quando percebeu que o seu erro era procurar o que devia
fazer para “se salvar”, isto é, para encontrar a paz, e aceitar-se. Foi quando
ele fez a descoberta de Romanos
1:17. Descobriu ao ler este texto que o pecador encontra finalmente a paz
quando deixa de se esforçar por se tornar melhor, desiste e se coloca numa
total passividade nas mãos de Deus. É como se fosse um soldado de armas nas
mãos a tentar conquistar um lugar e que, subitamente, consciente da inutilidade
do seu esforço, lança as armas no chão, rende-se e fica à mercê do que até
agora considerou o Inimigo. Neste caso o “Inimigo” é Deus -
porque, no fundo, para o homem natural Deus é sempre o Inimigo, o que castiga,
o que vigia, o desmancha-prazeres. Mas ao depor as armas, ao deixar de lutar, o
crente descobre que, afinal, Ele não é o Inimigo, porque a experiência que tem
é a de ser alvo do amor supremo. Nessa rendição, Lutero vê-se como um homem
justo, não porque se tenha tornado perfeito, mas porque aceita a justificação
oferecida por Deus. A justiça que recebe é a de Deus, não a sua. Não se trata
de um melhoramento pela moral, o que seria, reforma natural, mas trata-se de um
acto sobrenatural, cujo sujeito é Deus.
O único mérito do homem,
nesta situação, é confiar tranquilamente na obra de Deus. É isso que Lutero,
como São Paulo, entende por fé.
A mudança operada
O ser humano não tem
capacidade para praticar o bem. Não pode mudar a sua vida, não pode deixar de
fazer o mal para fazer o bem. Viver como homem, segundo a ordem natural, é
viver no mal. Mas pode haver um milagre. Que começa com o reconhecimento da sua
situação de pecador. Paradoxalmente, é quando escondemos dos outros e até de
nós a nossa miséria interior, que mais nos perdemos no lamaçal e quando nos
reconhecemos pecadores é que nos podemos libertar.
Enquanto não passarmos dessa
difusa, intuitiva, culpabilidade para uma clara, consciente, visão do nosso
pecado, não avançaremos. Mas essa compreensão do nosso estado só é possível ao
contemplarmos Cristo. Se nos contentarmos em comparar a nossa vida com a do
vizinho que mora na casa em frente ou com um colega de emprego, é possível que
continuemos a ser complacentes com o nosso próprio pecado. Não somos
intriguistas como aquele vizinho, não maltratamos a nossa mulher, não roubamos.
O nosso vizinho, se se comparar connosco, também é
capaz de ficar satisfeito consigo próprio: ele acha que as nossas faltas são
mais graves do que as ele. Até dentro da mesma família encontramos comparações
para ficarmos de bem com a nossa consciência. Um marido que se acha superior a
sua mulher por ela ver telenovelas, ao passo que ele só lê alta literatura – e
não tem consciência de que a limpeza da casa, o trato de roupas do casal e dos
filhos, a comida, etc. é feito apenas pela esposa, é uma ilustração dessa
tendência universal de egocentrismo inconsciente.
É por fazermos
comparações com outros – e intuitivamente sabemos muito bem escolher um outro
mais fraco que nós – que nunca passamos da culpabilidade ao agónico sentimento
de pecado. O tal homem que ficou com o dinheiro destinado aos pobres aguenta-se
de pé porque diz de si para si: “Os outros ainda fazem pior do que eu!”. Pode
até ser apenas uma suspeita sem provas, mas serve de justificação. É preciso
levantarmos os olhos, compararmo-nos com um homem mesmo superior. Fala-se do
homem que julgava que a sua camisa era branca, e não se apercebia de como
estava descorada, até que viu uma camisa realmente branca, bem lavada. Quando
elevamos os olhos e fixamos Cristo, que se aniquilou a si mesmo e tomou a forma
de servo, sendo obediente a Deus até à morte e morte de cruz Filipenses 2:1/11, então percebemos a nossa miséria e
perdemos todas as pretensões. Não nos tornamos boas pessoas: apenas nos
revestimos de Cristo Romanos
13:14 e deixamos de dar maior atenção ao homem velho que há em nós. A razão
da fraqueza espiritual de muitos de nós e das congregações vem, por certo, de
os cristãos se entreterem mais com moral, com liturgia, com política do que com
Cristo. Não estando Ele no centro da nossa vida, como poderemos ter a sua
referência para nos examinarmos?
Não basta, porém,
reconhecermos a nossa condição de pecadores. É preciso também percebermos que
Deus em Cristo nos oferece o perdão. É preciso vermo-nos crucificados em
Cristo, mas também nele perdoados. A nossa crucifixão
é seguida da nossa ressurreição. E a ressurreição é, como no milagre de Lázaro,
a saída do túmulo e um recomeçar da vida.
Luz do mundo
Apesar de tudo, Jesus
diz que os cristãos são a luz do mundo e o sal da terra Mateus
5:13/16. Não diz que devem esforçar-se por serem luz e sal, mas que o são
já. Não é que se tenham tornado melhores do que as outras pessoas, mas porque
se tornaram “satélites” do Sol, que é Cristo, que irradia a luz que passam a
reflectir, e porque recebem dele a força interior que dá sabor à vida.
Sim, por momentos pode haver cristãos que não
reflictam a luz de Cristo nem dêem sabor à vida nos lugares onde se encontram –
são muitas as vezes mesmo que isso acontece. Deixamos o
nosso eu vir ao de cima, não deixamos a luz brilhar,
manifestamos o nosso velho lado humano e não damos oportunidade a Jesus de
actuar em nós pelo Espírito Santo. Mas se a nossa fé é sincera, se estamos
mesmo desejosos de viver a aventura de filhos de Deus, arrependemo-nos e
voltamos ao bom caminho.
O padre Teilhard de Chardin escreveu numa
carta a uma amiga este período: “Penso que, na verdade, para vencer o Mundo,
não há melhor meio (está, de resto, no Evangelho): crer energicamente que o
Universo é bom e que são boas as suas potências, desde que os tratemos
laboriosamente e fielmente no sentido em que as coisas se tornam melhores e
mais unas. O erro está em imaginar que tudo é naturalmente, inicialmente,
estaticamente bom. A verdade está em ver que tudo cede no sentido, e sob a
influência, da Beleza e da Bondade. Tal é a face interior da Evolução...”
Há aqui, aparentemente,
uma contradição entre o pensamento de Teilhard e o
que expusemos antes, visto que ele fala da bondade do Universo e das suas
potências, e nós sublinhamos o estado decaído do mundo. Mas não podemos
esquecer que para Teilhard de Chardin
falar do Universo é falar da Realidade Suprema, que é Deus.
E foi isso também que
lembrámos atrás: Não há um bom senão Deus.
Vidas transformadas
A história do
Cristianismo, como é sabido, fala de muitas atrocidades cometidas por homens
que se diziam cristãos, tanto católicos, como ortodoxos e protestantes. Alguns
desses homens tiveram mesmo cargos de grande responsabilidade nas suas
respectivas Igrejas. Não faltaram também os que, tendo cometido actos
vergonhosos, vieram a mudar radicalmente no sentido de fazerem as obras de bem
preparadas por Deus, ilustrando assim o dito de São Paulo segundo o qual onde o
pecado abundou, superabundou a graça Romanos
5:20. O próprio São Paulo, de resto, tinha a experiência de, tendo tido no
primeiro período da sua vida, como fariseu, uma religiosidade carregada de ódio
aos que considerava errados, veio a ser transformado por Deus e tornou-se o
grande apóstolo, pronto a dar a sua vida ao serviço de Deus e dos homens, sendo
dele esse capítulo espantoso sobre o dom mais importante, que é o Amor I
Coríntios 13. Quem hoje é visto como um homem ou uma mulher sem sentimentos
de bondade, egoísta e cruel, pode, e por vezes em poucos segundos,
transformar-se autenticamente numa pessoa terna, generosa, abnegada. Outros
levam anos num processo gradual de conversão. Cremos que a diferença tem muito
de ver com a observação de São Paulo acima referida Romanos
5:20. Uma pessoa educada numa família tranquila, onde não houve grande perturbações, e que chegou à idade adulta num comportamento
razoavelmente digno, talvez membro de uma igreja desde pequenino (que não é o
mesmo sempre com ser discípulo de Cristo), fará a sua conversão em pequenos
passos, por assim dizer sem pressa. Mas aquele ou aquela que desceu muito cedo
“ao inferno”, que sentiu mais de perto o odor do pecado, esse pode, como se a
natureza tivesse pressa em recuperar a felicidade, passar em reduzido tempo do
inferno para o céu. Num famoso pequeno livro com o título Il
y a un autre
monde (Há um outro mundo), o escritor francês André Frossard
conta-nos como passou do ateísmo à fé, da inquietação ao júbilo, nos breves
minutos em que esperava por um amigo.
No Poder do Espírito
Poderíamos referir um
número enorme de mudanças parecidas, mas citaremos apenas mais um caso, o de Charles Grandison Finney, (1792- 1874), americano, que foi um dos mais
reputados evangelistas de todos os tempos.
Era advogado em 1821,
com, portanto, 29 anos, e, embora cultuando numa
igreja presbiteriana, não se sentia seriamente
identificado com a fé cristã. A leitura da Bíblia era-lhe penosa e tinha muita
dificuldade em concentrar-se para fazer a mais pequena oração. Ao fim de algum
tempo de inquietação, tomou uma decisão que concorreu para a mudança radical
que se operou na sua vida. A decisão foi a de orar tão abertamente até à agonia
que, se Deus existisse, teria mesmo que o ouvir – ou concluiria que Deus era
uma ilusão. Escolheu um local solitário num bosque para orar. Na sua
autobiografia conta: “Nesse momento mostrou-se diante de mim a minha vaidade e
a arrogância do meu coração. Uma sensação enorme da minha iniquidade
percorreu-me, sentindo que seria uma vergonha que algum ser humano me visse de
joelhos perante Deus – e então gritei do mais fundo da minha alma e com a força
máxima dos meus pulmões clamando a Deus.”. Esteve um longo tempo em oração e
quando regressou, cambaleando, mas sentindo uma paz profunda, sabia que Deus
lhe tinha concedido o perdão. Uma ternura imensa enchia-lhe o coração. Voltou à
oração nas horas que se seguiram e era tanto o gozo que experimentava que num
certo momento parecia-lhe que ia morrer de prazer. A partir desse dia Finney tornou-se uma testemunha entusiasta do poder de
Cristo. Abandonou a carreira de advogado e passou a pregar onde era convidado.
Assim o homem que se debateu com as trevas da dúvida transformou-se num feliz
anunciador da esperança.
O movimento carismático
(pentecostal), em que Finney
pode ser incluído como um pioneiro, movimento que realça a necessidade de o
crente receber o baptismo do fogo (do Espírito) anunciado por São João Baptista
Mateus
3:11, tem uma lista enorme de homens e mulheres cujas vidas secas e
perturbadas foram transformadas em vidas vitoriosas, simplesmente por terem
pedido e recebido esse milagre ao Pai Celestial. Essa foi justamente a promessa
de Jesus: Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma
pedra? Ou também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou
também se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, sendo maus,
sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o
Espírito Santo àqueles que lho pedirem? Lucas
11:11/13. O único senão que poremos ao movimento pentecostal,
que hoje, com o nome de movimento carismático, tem adeptos também na Igreja
Católica, Igreja Presbiteriana, Igreja Luterana,
Igreja Anglicana e Igrejas Baptistas, o único senão em alguns é a tendência que
há para complicar a experiência do Espírito Santo e entrarem numa certa
excentricidade. Na verdade, é preciso dizer, receber a bênção do Espírito que
muda a nossa vida é extremamente fácil. Basta crer, pedir e receber. Alguns
segundos apenas – e verás a tua vida mudada.
Ser cristão e viver uma
vida baça, sem alegria, de conflitos, é uma situação contraditória, pois Cristo
veio para que tenhamos Vida Abundante João
10:10. Uma Igreja cristã deve caracterizar-se pelo seu dinamismo, pelo
gosto com que se vive nela, pelo empenho que cada um põe na tarefa (ministério)
que lhe é concedida. Um cristão, uma cristã, deve caracterizar-se pela sua
lealdade, pelo espírito de partilha, pelo desejo de cooperar e de obedecer ao
Senhor da Igreja, Jesus Cristo. Temos de reconhecer que há muito por fazer. As
Igrejas e os crentes que somos manifestam o mais das vezes reduzida vitalidade.
Somos jardins de flores sem viço, com falta da “chuva de bênçãos” referida num
dos nossos velhos hinos.
Um homem caminhando no
deserto, perdeu-se. Andou vários dias sem encontrar o caminho que o levaria à
salvação. A sede foi a maior angústia. De boca seca, procurava um oásis, mas em
vão. Quando, sem forças, tentava subir uma pequena elevação, caiu. Não teve
ânimo para recomeçar a viagem e ao fim de várias horas, ali morreu na agonia da
sede. Quando uma equipa de socorro, horas mais tarde, encontrou o cadáver
verificou que, alguns passos além dessa elevação,
havia um pequeno lago com água fresca e pura, e uma figueira com figos.
Jesus, um dia, dirigiu-se
ao povo dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como
diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre João
7:37/38. O evangelista esclarece que Jesus dizia isto do Espírito Santo que
haviam de receber os que nele crêem.
Neste princípio de ano,
temos a oportunidade de dar nova direcção à vida. Sermos homens e mulheres que
estão no mundo para fazer avançar o Reino de Deus, melhorando o lugar onde
estivermos – na nossa família, no nosso emprego, na sociedade de que fazemos
parte. Os pastores e outros pregadores têm o privilégio de cooperar com Deus na
obra da renovação do mundo pela conversão deste pela Pregação Romanos
10:14/18. As Igrejas são instituições de primeiríssima importância na
perspectiva do Reino de Deus, pois são elas as depositárias da mensagem
libertadora de Jesus Cristo.
O Presidente da
República, Jorge Sampaio, na sua mensagem de fim do ano formulou o voto de que
2004 seja o ano da mudança em Portugal. Pensa, naturalmente, nas medidas do
governo, dos tribunais, dos empresários que possam mudar o país – e é
indubitável que essa mudança é indispensável.
Mas mais necessária
ainda, base de todas as mudanças da sociedade, é que haja muitos portugueses
que mudem a nível individual, vençam o seu egocentrismo e vivam os valores do
Reino de Deus anunciados e vividos por Jesus Cristo.
Manuel Pedro Cardoso
http://www.estudos-biblicos.com/cardoso.html
Janeiro de 2004