Movimento
de Deus em nós (MC)
As reacções que conheço em
relação ao meu artigo “Igreja, túmulo de Deus?” têm me comovido bastante e
confirmam a minha convicção de que há um número grande de cristãos descontentes
com o estado das igrejas. Encontrei eco, primeiro do meu próprio desconforto e
também da minha admiração pelo Quakerismo. Mas os leitores perceberam bem que
não é minha intenção introduzir o Quakerismo como mais uma denominação na lista
já longa que conhecemos. Onde já houver congregações quakers, só desejo que
sejam fiéis à espiritualidade que têm vindo a defender desde George Fox, mas não me parece
útil importar mais essa denominação.
Podemos beneficiar dessa pesquisa simples sobre o Quakerismo
inspirando-nos no seu modo de entender a fé, tornando nosso também o ardente
desejo de estabelecer o diálogo com Cristo que habita o crente, secundarizando também o papel da instituição, recusando o doutrinarismo seco e o intelectualismo balofo, e abraçando
uma grande tolerância baseada na convicção de que em cada ser humano existe a
centelha divina a que é preciso dar atenção. Tudo isso é possível ter na nossa
vida sem nos tornarmos formalmente quakers. Como eles, podemos ser confiantes e
pacifistas.
O que sem dúvida pode ser de grande benefício, incluindo para as Igrejas, é criarmos uma rede de cristãos descontentes com o estado actual das Igrejas e decididos a orarem pela renovação. Há já um pequeno núcleo que tem esse programa, mas é importante que o movimento cresça. Para evitar os erros de algumas Igrejas, esse movimento rejeitará qualquer tipo de organização que poderia conduzir a uma nova denominação. Cada crente adere por si mesmo, no uso da sublime liberdade com que fomos chamados Gálatas 5:13, guardando total discrição, porque tudo o que se propõe fazer é orar pelo despertamento – e não é nada pouco este alvo, porque a oração é a força maior que Deus concede aos crentes. No teu quarto, no meio da floresta, andando ou trabalhando, tu tens, irmã ou irmão, a espantosa oportunidade dada por Deus que está em ti de contribuir para a mudança para melhor. Os crentes que aceitarem esta missão continuarão ou não a ser membros de uma Igreja, a adorar com essa Igreja, mas no mais fundo de si terão este clamor: “Vem, Senhor, renovar a Tua Igreja!”. Esta é uma fase de oração no deserto, porque quando o Senhor o desejar virá a mudança.
Se for desejado, voltarei a este tema, assim como peço que outros o façam, mas hoje realço isto: Do que o mundo precisa é de cristãos transformados. Não é por alguém se gabar de ter tal ou tal baptismo, de os seus ministros terem tal ou tal ordenação, mas é por vidas transformadas que honramos o nome de Jesus Cristo.
Houve um monge da Idade Média, Joaquin de Fiore, que defendeu esta ideia: a história do mundo está dividida em três grandes períodos: o tempo do Pai (Antigo Testamento); o tempo do Filho (Vinda de Jesus) e o tempo do Espírito Santo. Agora vivemos no terceiro tempo, que terminará com a Segunda Vinda de Cristo.
Em Portugal e no Brasil houve muitos ecos deste ensino, com o culto do
Espírito Santo, infelizmente depois deturpado, e a espera do Quinto Império,
que é o Reino de Deus na sua plenitude. O Padre António Vieira estudou o
assunto com paixão; Fernando Pessoa também; e por fim o Professor Agostinho da
Silva. Trata-se de uma ideia que os cristãos evangélicos não podem recusar sem
reflectir. Não teremos nós, povos da língua portuguesa, um papel importante na profunda
transformação espiritual que se deseja?
Figueira da Foz - Portugal, Março de 2006
Convidamos a ler também, o primeiro artigo sobre o assunto, do mesmo autor Igreja = Túmulo de Deus? bem como os diversos comentários recebidos nesta página, em Comentários ao artigo “Igreja = Túmulo de Deus?”
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