Lecionário (CC)
Introdução
Depois de ler o esclarecedor artigo do
Pastor Manuel Pedro Cardoso, nosso antigo Professor no Seminário Evangélico de
Teologia de Lisboa, decidi acrescentar estas linhas. Assim, aconselho a ler
primeiro o artigo Leccionário Litúrgico (MC), caso ainda não o tenha
lido.
É muito provável que o primitivo
cristianismo não utilizasse lecionários, assim como também não consta que
houvesse escolas bíblicas dominicais, pelo que também concordo que as igrejas
de cada época e cada cultura, são livres para utilizar os métodos que entenderem
necessários e convenientes para proclamar a mensagem do Mestre, desde que tais
métodos não se oponham à mensagem cristã (como diz o Professor Cardoso), e eu
gostaria de acrescentar que, também não constituam um atentado cultural aos
diferentes povos dos nossos dias. Refiro-me a esse problema no meu artigo Música Religiosa
(CC) e também no artigo Ceia
do Senhor, Santa Ceia, Eucaristia, Missa (CC), artigos que convido a ler. Há
tradições que nada têm de bíblicas neotestamentárias (o que por si só, não é
motivo para a sua rejeição), mas são tradições dos missionários que acabam por
ser impostas aos outros povos, muitas vezes com grande prejuízo para a
evangelização, por motivos culturais.
Compreendo que haja reservas ao uso do
lecionário, quando a sua utilização é simplesmente decidida pelas cúpulas das
igrejas, sem que o assunto seja devidamente estudado com ampla participação de
todos os crentes.
Como diz o Pastor Cardoso, na sua visão
realista, há vantagens e desvantagens na utilização do lecionário. Eu
pessoalmente, estou pronto a aceitar o uso do
lecionário, desde que a sua utilização não seja obrigatória. Certamente que há
vantagens numa uniformização dos assuntos a tratar nas várias igrejas cristãs. Mas
se numa determinada igreja (congregação) houver um casamento e noutra um
funeral, o mais importante será o pregador apresentar textos apropriados a essas
ocasiões, abandonando o lecionário nesse Domingo, se necessário.
Inconvenientes do lecionário
1) Admitindo, como disse de início, que
a utilização do lecionário seja facultativa, há na verdade o problema do
programa para os três anos (A, B e C), não incluir todos os textos da Bíblia.
Mas há aqui um pormenor que, segundo
suponho, me separa da maioria dos cristãos. Eu não dou o mesmo valor a toda a
Bíblia, nem a considero igualmente inspirada do Génesis ao Apocalipse.
Recuso-me a considerar, por exemplo, os livros de
Levítico ou Deuteronómio, tão importantes como o Evangelho de João, ou a
considerar a mensagem de Moisés ou de Abraão tão importante como a do próprio
Cristo, o único que é verdadeiramente a Palavra de Deus, como afirmo no meu
artigo “A Bíblia é a
Palavra de Deus?”
Quando João Batista iniciou sua pregação
no deserto, fez estremecer toda a velha teologia, mas quando o próprio Filho de
Deus nos mostrou como Deus é, toda a velha revelação se tornou deuterocanónica, ou seja, menos inspirada ou de inspiração
duvidosa. É o mínimo que posso dizer em relação ao Velho Testamento.
Nem tudo que é bíblico é bom. Até
compreendo que antigamente o catolicismo romano não apoiasse a leitura da
Bíblia, pois as suas duas partes, Velho Testamento e Novo Testamento são bem
diferentes. Não considero o Velho Testamento (há quem prefira a expressão
Antigo Testamento), como um livro edificante, pois há muitos ensinamentos
veterotestamentários que Cristo rejeitou, como é o caso da forte discriminação
da mulher, que começava logo na altura do seu nascimento (Levítico
12:1/5), a pena de morte para muitos e variados casos, com manifesto
desprezo pela vida humana, ou a escravatura que estava prevista na lei de
Moisés, legislando até as condições a que um pai teria de obedecer para vender
as suas filhas como escravas (Êxodo
21:7/11), direitos que não se aplicavam às escravas estrangeiras, para não
falar nos horrorosos crimes de Josué, com destruição total de vários povos, que
os mais “espirituais” ainda consideram como grandes manifestações do poder de Deus.
Se todas as famílias do nosso mundo
lusófono se orientassem pelos ideais veterotestamentários e pelos exemplos que
nos deixaram aqueles que as igrejas consideram como os grandes exemplos do
Velho Testamento, estaríamos perante uma perniciosa influência bíblica para os
cristãos. Temos o caso de Salomão, com as suas 700 mulheres e 300 concubinas,
exemplo que não seria possível seguir, não só por motivos económicos, como
porque a percentagem de mulheres em relação aos homens não é assim tão grande,
mas quase todos os que consideramos os grandes exemplos veterotestamentários
nos deixaram o exemplo da poligamia.
Ao fazer esta afirmação, não estou a
colocar-me como juiz da própria Bíblia, mas a ser fiel ao pensamento de Cristo
que por vezes tomou atitudes em clara oposição ao “que
foi dito aos antigos” Mateus
5:20/47.
Assim, não estou preocupado com este
pormenor, nem interessado num lecionário que inclua “toda a Bíblia”, e sou a
favor da omissão das longas genealogias do Velho Testamento (I
Timóteo 1:4).
Como Cristão, só me interessa estudar a
mensagem de Cristo, no Novo Testamento, embora as passagens
veterotestamentárias tenham interesse para uma melhor compreensão do contexto
cultural em que Jesus viveu e assim, melhor compreender a sua mensagem. Mas, o mesmo podemos dizer de quase todos os livros de teologia.
Embora todos digam que pregam o
Evangelho de Cristo, penso que nas igrejas ditas evangélicas, há uma certa
indefinição sobre o papel do Velho Testamento, não só por motivos históricos,
mas principalmente por motivos económicos, para que todo o Velho Testamento
possa continuar a funcionar como um grande centro comercial (shoping como dizem no Brasil), onde pregadores pouco
honestos podem ir buscar tudo de que necessitam para fundamentar as suas ideias
e rentabilizar as suas igrejas. Também na teologia católica há uma certa
contradição ao manter o pensamento de Agostinho no parágrafo 107 do Catecismo
da Igreja Católica, mas no § 122 o mesmo documento afirma haver no Velho Testamento
“...coisas imperfeitas e transitórias”.
É bem possível que um lecionário que
inclua só 16% de toda a Bíblia, seja aceitável, desde que inclua todo o Novo
Testamento, onde Jesus o Cristo é a figura central. Como afirma o § 125 do
Catecismo da Igreja Católica, Os evangelhos são o coração de todas as
Escrituras.
Prefiro um lecionário que não inclua
todo o Velho Testamento, pois também me identifico com as palavras de Pedro numa
época em que o Templo de Jerusalém funcionava com todo o rigor da Velha Lei. Respondeu-lhe Simão
Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna e nós
já temos crido e bem sabemos que tu és o Santo de Deus. (João
6:68/69). Pedro bem sabia, que não podia encontrar a “vida eterna” no Templo
de Jerusalém, de acordo com a teologia veterotestamentária.
2) Outro inconveniente que posso ver no
lecionário é o perigo de alguns pregadores com pouca iniciativa e pouca
capacidade de reflexão, se limitarem a ser meros transmissores do que leram nos
vários comentários aos textos do lecionário, perdendo a sua capacidade de
reflexão e contextualização da mensagem dos textos indicados no lecionário.
3) Outro inconveniente, ou talvez lhe
deva chamar de perigo do lecionário, é a possibilidade dos textos serem
escolhidos de forma a privilegiar alguma doutrina em particular, embora esse
perigo seja bastante atenuado, ou mesmo anulado, pela
liberdade dos pregadores darem a interpretação que considerarem
correcta, acrescentando outros textos, se necessário, sobre o mesmo assunto. Não
podemos esquecer, de que uma afirmação pode ser bíblica neotestamentária,
embora contendo uma ênfase que não seja a correcta, pois segundo uma boa hermenêutica,
qualquer afirmação só se pode considerar como genuinamente bíblica neotestamentária,
quando conseguir resumir toda a informação sobre o assunto.
Por esse motivo, considero altamente
desejável que os textos do lecionário sejam escolhidos por uma entidade
ecuménica com representação de teólogos de todas as igrejas que queiram colaborar
nesse “lecionário comum”.
4) Quero também mencionar uma certa
descoordenação que noto nos textos de cada domingo, que nem sempre são
coincidentes nas várias páginas da internet que as divulgam. Por vezes os
textos de páginas católicas e protestantes não coincidem, e até entre páginas
católicas na internet há diferenças. Não seria mais prático e acessível a
todos, mencionar os dias do calendário vulgar em vez das referências aos
principais dias religiosos? Ou então, como já aparece em algumas páginas na
internet, apresentar as duas referências a tradicional e a do calendário dos
nossos dias?
5) Nos textos neotestamentários, que são
os mais importantes, onde encontramos os evangelhos que são o coração de todas as
Escrituras, não há qualquer
divergência quanto à sua canonicidade. Mas no Velho Testamento, por vezes
aparecem (embora raramente), algumas referências aos livros de Sabedoria 8
vezes, Baruc 3 vezes e II Macabeus
só uma vez o que se pode considerar pouco em três anos.
Atendendo a que, segundo dizem, o
lecionário cobre apenas 16% de toda a Bíblia, não seria preferível evitar tais
textos, já que a sua canonicidade é posta em causa pelos protestantes e a própria
teologia católica os considera deuterocanónicos, ou
seja inspirados em segundo lugar ou menos inspirados que os livros canónicos?
Vantagens do lecionário
Atendendo à diversa informação que fica
disponível, sobre os vários textos do lecionário, agora muito aumentada com a
possibilidade da sua divulgação pela internet, com a vantagem de serem
interpretações de várias culturas do nosso mundo lusófono, penso que isso seria
o ideal para que tais textos fossem debatidos em reuniões de Escola Bíblica
Dominical participativa, ou reuniões de estudo bíblico tipo “mesa redonda”,
pois todos os alunos viriam já com uma grande informação sobre os temas em
debate.
No entanto, mesmo considerando que os
textos do lecionário sejam destinados à pregação, além do que já foi mencionado
pelo Professor Cardoso, vejo as seguintes vantagens.
1) As pregações seriam mais bíblicas e
menos “denominacionais”, se é que se pode chamar
assim. Claro que isto será uma vantagem ou inconveniente segundo o ponto de
vista do leitor.
Posso dar um exemplo. Numa igreja “evangélica”
pragmatizada e americanizada, voltada para a exploração
dos mais ingénuos, há muita tendência em ler e voltar a ler Malaquias
3:7/10, ou Mateus
23:23 para rentabilizar a igreja, e o lecionário não permitiria o uso e
abuso dos mesmos textos em quase todas as pregações. Bem sei que esse é um dos
principais motivos da rejeição do lecionário que iria prejudicar a mentalização
doutrinária dessas igrejas, que não podemos confundir com o sério estudo
bíblico.
2) Ter um texto comum, divulgado pela
nossa página na internet, com o incentivo a que outras páginas da internet
façam coisa idêntica, com possibilidade de cada um apresentar a sua
interpretação, sem possibilidade de qualquer censura, católica, evangélica,
económica, política ou de qualquer outra natureza, seria colocar o Evangelho no
centro do estudo, em substituição do pregador, e seria mobilizar todos os
cristãos para um sério e imparcial estudo dos evangelhos.
3) Se uma elevada percentagem dos cristãos
(católicos, protestantes ou ortodoxos), adquirir o
hábito de leitura dos comentários na internet, teríamos nos cultos, uma
assistência mais esclarecida, mais exigente e um maior incentivo ao pregador.
Lecionário e Ecumenismo
Quero dizer, em primeiro lugar, que
compreendo a relutância que muitos sentem pelo ecumenismo, que atribuo
principalmente a dois motivos:
1) Cristo fundou uma Igreja que deve ser
Una e Plural, que não necessita dum poder centralizado para quem aceite a
presença do Espírito Santo (João
14:23/26). A Igreja está, onde dois ou três se reunirem em nome de Cristo (Mateus
18:20). Mas aceito que qualquer organização pode ser útil, desde que não
ponha em causa este princípio fundamental, e seja elemento de união sem se
tornar intermediária entre Cristo e os que se reúnem em seu nome. Assim, penso
que a união de todos os cristãos (não confundir união com uniformização), faz
parte do cristianismo, é um ideal que todos os verdadeiros crentes em Cristo
desejam, mas é um “fruto que ainda não está maduro” e que se pode estragar se,
com toda a boa vontade, mas também alguma doze de ingenuidade, o tentarem colher
antes do tempo.
2) Penso que o impasse a que chegou o
movimento ecuménico, é consequência dum mau encaminhamento do assunto, pois as
igrejas que se identificaram com esse movimento,
avançaram demasiado nos contactos entre as cúpulas, descurando os movimentos de
base. Quase todas a reflexões sobre o ecumenismo foram efectuadas pelos maiores
teólogos, com fraca participação dos leigos e qualquer movimento ecuménico
centralizado em alguma organização, parece não ter muito futuro.
Penso que o melhor caminho será o estudo
em comum da mensagem do Mestre, agora tornada possível a nível mundial, através
da internet. Ter um texto comum de reflexão semanal, com divulgação de várias
opiniões acessíveis a todos, sem possibilidade de qualquer censura de alguma comissão,
e possibilidade de qualquer um divulgar a sua opinião, será um importante passo
para a eventual unidade de pensamento, ou pelo menos compreensão e aceitação
das diferenças. Muitos já chamam de “Lecionário
Comum”, que me parece um título apropriado.
Ao ler as palavras que Paulo dirigiu aos
crentes da cidade de Corinto em I
Coríntios 3:1/7, ficamos com a sensação de que ele fala ou escreve para
nós.
Quanto a mim, irmãos, não vos
pude falar como a homens espirituais, mas tão-somente como a homens carnais,
como a crianças em Cristo. Dei-vos a beber leite, não alimento sólido, pois não
o podeis suportar. Mas nem mesmo agora podeis, visto que ainda sois carnais.
Com efeito, se há entre vós invejas e rixas, não sois carnais e não vos
comportais de maneira meramente humana? Quando alguém declara: “Eu sou de
Paulo”, e outro diz: “Eu sou de Apolo”, não procedeis de maneira meramente humana?
Quem é, portanto, Apolo? Quem
é Paulo? Servidores, pelos quais fostes levados à fé; cada um deles agiu
segundo os dons que o Senhor lhe concedeu. Eu plantei; Apolo regou; mas era
Deus quem fazia crescer. Assim, pois, aquele que planta nada é; aquele que rega
nada é; mas importa tão-somente Deus, que dá o crescimento.
Afinal, não é isto que se passa nos
nossos dias? Penso que o fruto ainda não está maduro. Por favor, não o
estraguem tentando colher antes do tempo. O mais importante,
não são as decisões dos Concílios, mas que seja “só um, o coração e a
alma” dos cristãos (Actos
4:32), apesar das diferenças culturais e eventualmente até teológicas.
Eu também rejeito o movimento ecuménico
dirigido pelas cúpulas, ou pela ingenuidade dos mais simples, ou dos mais
“santos” ou dos mais “verdadeiros”.
Talvez sejam necessários mais
escândalos, mais fracassos para que os verdadeiros crentes em Cristo,
desiludidos com os “mais santos” ou os “mais verdadeiros” se juntem com
humildade, à volta do Único Mestre. Chamem o que quiserem a esse movimento,
quando esse dia chegar. Como diz Paulo, só Deus tem poder para dar o verdadeiro
crescimento. Deixemos que o fruto amadureça pelos meios naturais, pelo estudo e
pela meditação na mensagem do Mestre, o Único que é verdadeiramente o “Logos”, a Palavra de Deus.
Camilo – Marinha Grande, Portugal
Setembro de 2006
NOTA:
Verificando que alguns irmãos do Brasil,
que não têm tradição do lecionário, o confundiram com a revista de Escola
Dominical, torna-se necessário o seguinte esclarecimento.
Lecionário não é revista de escola
bíblica dominical.
Cá em Portugal, também temos as revistas
de escola dominical, com os textos bíblicos e o desenvolvimento da lição, mas
isso é feito por cada denominação e geralmente essas lições são um pouco
tendenciosas de forma a privilegiar as doutrinas típicas de cada denominação.
Lecionário é outra coisa. É uma tradição
muito antiga, que alguns até dizem que vem do Velho Testamento e que em Lucas
4:16/17, Jesus leu o texto do lecionário das Sinagogas, conforme essa
tradição veterotestamentária. Mas é difícil provar essa afirmação. No entanto,
é uma tradição muito antiga, possivelmente milenar, que a Igreja Católica
preservou.
Talvez por ser uma tradição católica,
muitos evangélicos a rejeitam.
Eu, que não me considero católico nem
evangélico (= membro de igreja evangélica), pois não prescindo de raciocinar
sem quaisquer fronteiras denominacionais, estou
pronto a aceitar tudo que for bom e for útil, quer seja dos católicos ou dos
protestantes, ou até dos judeus como alguns defendem que é o lecionário. Só que
essa velha tradição teria de ser adaptada aos nossos dias.
Quando me refiro a “todos os cristãos”,
estou a incluir católicos e ortodoxos. Por esse motivo, já recebi mensagens de
irmãos evangélicos do Brasil, pedindo para retirar os seus nomes da minha
lista, em que convidei a ler este artigo, mas também recebi outras mensagens de
apoio.