Cristão pode julgar? (AX) (1)

 

(Se não conseguir ver as letras em hebraico, no III Capítulo, deverá aplicar

ao seu computador a fonte que está na página principal)

 

Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo. Porém que fareis quando estas coisas chegarem ao seu fim? Jeremias 5:30/31.

 

Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça.João 7:24

 

Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida! Entretanto, vós, quando tendes a julgar negócios terrenos, constituís um tribunal daqueles que não têm nenhuma aceitação na igreja. Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade? I Coríntios 6:2/5

 

Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti -lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar -se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles. Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos... Gálatas 2:11/14.

 

 

INTRODUÇÃO

 

O cristão pode julgar? Esta é uma pergunta que poderia ser irrelevante. Poderia não fosse a impressionante realidade que estamos vivenciando nos dias de hoje. Este autor tem escritos diversos artigos publicados no jesussite.org (2) os quais têm motivado alguns leitores a lhe escreverem mensagens eletrônicas. Alguns escrevem para agradecer, outros apenas para elogiar e outros para expressar sentimentos que variam de frustração à ira. Entres este último grupo as críticas podem ser facilmente classificadas em quatro categorias, a saber:

 

1)               Em primeiro lugar, o campeão disparado, é a citação de alguns versículos bíblicos, com especial ênfase nas passagens de Mateus 7:1/5 e Romanos 14:4/10 visando mostrar quão errado, impróprio e até anti-cristão é o ato de julgar.

 

2)               Em segundo lugar estão aqueles que sugerem que não é possível julgar a ninguém porque somente Deus sabe os verdadeiros motivos das pessoas. Estes sugerem que devemos deixar tudo correr como tem que correr e aguardar o juízo final de Deus.

 

3)               Em terceiro lugar está a turma do “deixa disso” alegando que toda crítica é perniciosa e causa divisões no corpo de Cristo. “Irmão Alex”, me escrevemtemos que manter a unidade a qualquer custo”.

 

4)               Em quarto lugar estão aqueles que pedem para que nomes não sejam mencionados porque este ato prejudica demais aos citados. Neste último lote se encontram muitos pastores que consideram um sinal de maturidade e maior espiritualidade não citarem nomes quando querem fazer uma crítica.    

 

O autor não consegue evitar a profunda tristeza que experimenta ao perceber nestas mensagens eletrônicas o nível em que se encontram os cristãos em geral e a cristandade (3) em particular. Um velho professor e amigo costumava dizer o seguinte: “Alex, a ignorância é o paraíso”. E hoje, 25 anos depois, sou obrigado a concordar absolutamente com ele.

 

Sinto-me motivado a escrever este artigo porque observo que muito desta ignorância é alimentada pelos próprios indivíduos que gostam de se intitular “Pastores, Reverendos, Mestres, Doutores, Bispos” e, ultimamente, “Apóstolos”. Em vez de ensinarem o que a Bíblia diz acerca da responsabilidade cristã de julgar preferem alimentar a ignorância do povo. Este ato, o de alimentar a ignorância, visa à auto defesa que procura colocar estes indivíduos acima e fora do alcance de qualquer admoestação, censura ou repreensão. E infelizmente, para complicar ainda mais a situação, os crentes em geral se submetem a este tipo de abuso espiritual, fazendo-o, a grande maioria, de boa vontade. Este problema, a associação daqueles que têm a responsabilidade de guiar com aqueles que são guiados, para perverter a Palavra de Deus, não é novo. O profeta Jeremias enfrentou situação semelhante e se não soubéssemos que o mesmo profetizou entre 627 a 580 a.C. teríamos a impressão que ele estava se referindo aos nossos dias tamanha a atualidade de suas palavras. O profeta Jeremias diz o seguinte: Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo. Porém que fareis quando estas coisas chegarem ao seu fim?ver Jeremias 5:30/31. Para entendermos de forma mais precisa estas palavras de Jeremias é necessário compreendermos o contexto em que elas foram ditas. A semelhança com os nossos dias, como se verá, é inescapável!

 

 

I – O EXEMPLO DO PROFETA JEREMIAS

 

O profeta Jeremias começou a profetizar nos dias do rei Josias, filho de Amon, que reinou (Josias) sobre o reino de Judá de 640 a 609 a.C. Nos dias de Josias uma cópia do “Livro da Lei” de Moisés foi encontrada na “Casa do SENHOR”, isto é, no templo em Jerusalém pelo sumo sacerdote Hílquias – ver II Reis 22:8/20 e II Reis 23:1/3. A leitura deste manuscrito descoberto no templo, causou profunda comoção no rei Josias que chegou até mesmo a rasgar suas roupas, o que era um ato externo que indicava como o rei estava se sentindo por dentro – ver II Reis 22:11. O rei sabia o valor do documento que acabava de ser lido para ele. Este era um livro, revelado por Deus, pelo qual, de forma padronizada e objetiva, todas as tradições podiam e deveriam ser julgadas. Os sacerdotes e os príncipes do povo eram os que tinham mais a perder com esta descoberta, pois os privilégios que desfrutavam não eram sustentados pela Palavra de Deus. Para se protegerem contra a perda destes privilégios estes sacerdotes tinham o apoio de falsos profetas que vinham trazendo falsas revelações da parte de Deus. É contra este corporativismo que Jeremias se levanta. Os falsos profetas que segundo o texto profetizavam falsamente, isto é, falavam mentiras, estavam intimamente associados, de mãos dadas, com os sacerdotes para dominar sobre o povo de Deus. E o próprio povo de Deus aprovava tal dominação. Para Jeremias esta situação só podia ser descrita de uma maneira: era algo espantoso e horrendo.

 

O coração do problema, como entendido pelo profeta Jeremias, consistia em que havia uma aliança perversa entre os falsos profetas, os sacerdotes e o povo para prestarem um culto a Deus que fosse somente “da boca para fora”. Tal hipocrisia já havia sido denunciada pelo próprio Deus através do profeta Isaías – ver Isaías 29:13. E foi novamente denunciada pelo próprio Senhor Jesus em Seus dias – ver Mateus 15:7/9. Nos dias de Jeremias não havia interesse nem da parte dos falsos profetas, nem dos sacerdotes e nem do povo de reformar honesta e completamente seus caminhos. Para estes, uma vez mantidas as aparências estava tudo muito bom. Jeremias denuncia esta religiosidade falsa, superficial e pretensiosa. A pergunta que ele faz é: que fareis quando estas coisas chegarem ao seu fim? Jeremias se refere ao julgamento de Deus em que todo o povo de Judá estava incorrendo por praticar uma religião que vivia somente de aparências. Para que possamos ter uma compreensão do estado moral  (4) que existia em Judá nos dias do profeta Jeremias, nós temos que nos lembrar das palavras de Deus ditas através do profeta no início do capítulo 5: Dai voltas às ruas de Jerusalém; vede agora, procurai saber, buscai pelas suas praças a ver se achais alguém, se há um homem que pratique a justiça ou busque a verdade; e eu lhe perdoarei a elaJeremias 5:1. Que cena patética! A promessa de Deus era que se fosse possível achar uma pessoa somente que praticasse a justiça ou que buscasse a verdade em toda cidade de Jerusalém, Deus estava disposto a perdoar o pecado de toda a cidade. Agora imagine se Jeremias não tivesse se levantado e julgado (5) a situação. Se ele não tivesse exercido o ato de julgamento acerca da situação em que a nação de Judá se encontrava ele jamais poderia ter proferido as palavras que proferiu. Nos dias de hoje vivemos uma situação semelhante. A Cristandade está satisfeita em manter as aparências. Em prestar um culto apenas de lábios ao Senhor. Em pretender ser aquilo que realmente não é. As insidiosas infiltrações da chamada “Teologia do Domínio” que visam à criação de um verdadeiro exército de “vencedores” liderados por uma nova casta de “profetas e apóstolos” e que irão pavimentar o caminho para a volta do Senhor Jesus têm criado um afastamento da verdadeira fé que não está sendo devidamente avaliada. Os dois exemplos mais clamorosos são os representados pelo pastor colombiano César Castellanos com suas teorias mirabolantes de “sonha e ganharás o mundo” e do americano norte estadunidense Rick Warren que recentemente anunciou a criação de um “exército” de um bilhão (6) de homens que irão implementar de fato aquilo que ele tem chamado de “a segunda reforma”. Segundo Rick Warren, depois de transformar as igrejas em “igrejas com propósitos”, depois de transformar as vidas das pessoas em “vidas com propósitos”, agora chegou a hora de transformar os países em “países com propósito”, preparando, desta maneira, o mundo para o segundo advento do Senhor Jesus. Além de tudo isto, a Cristandade não aceita nenhum tipo de crítica ou chamado ao arrependimento. Estão tão cheios de si mesmos que precisamos repetir a pergunta de Jeremias: Que fareis quando estas coisas chegarem ao seu fim?.

 

 

II – O CONCEITO DE JULGAR NA LÓGICA E NA PSICOLOGIA

 

Quando nos referimos no estudo da Lógica, seja ela na tradição clássica (aristotélica-tomista), seja na tradição moderna (dialética hegeliana), ao ato de julgar, estamos apenas afirmando que é nosso desejo estabelecer uma relação mental entre dois ou mais conceitos onde o julgamento em si não passa de uma simples proposição que afirma ou nega a conexão existente entre estes mesmos conceitos (7).

 

Já na Psicologia o ato de julgar não passa de uma outra expressão para caracterizar a perspicácia ou sagacidade que são qualidades de todas as pessoas que possuem a habilidade de discernir ou avaliar de maneira equilibrada uma determinada situação, fato ou evento. A verdade que precisa ser dita aqui é que praticamente todas as pessoas, com exceção daquelas que são mentalmente incapazes de raciocinar, possuem esta capacidade de julgar, de avaliar, de discernir. É exatamente neste sentido que o salmista pede a Deus que: Ensina-me bom juízo e conhecimento, pois creio nos teus mandamentos Salmos 119:66 .

 

Assim podemos avaliar de maneira equilibrada que é apenas lógico o que o dicionário Aurélio Século XXI nos informa ser o escopo alcançado pelo verbo “julgar” no nosso idioma português do Brasil. O Aurélio nos diz que o escopo vai muito além dos atos executados por um juiz propriamente dito. O termo também descreve as ações genéricas atribuídas a todas as pessoas sem distinção. Entre estas ações podemos citar: supor, imaginar, conjeturar, formar opinião sobre, avaliar, formar juízo crítico e apreciar.

 

Mas muito além das definições filosóficas e psicológicas e mesmo morfológicas queremos saber como o Antigo Testamento e o Novo Testamento definem o ato de julgar. O que queremos aprender, caso a ilustração de Jeremias fornecida acima não tenha sido suficiente, diz respeito ao fato se é ou não lícito o crente julgar. Bem vejamos os que os dicionários de Hebraico e Grego nos dizem acerca do ato de julgar.

 

III – OS CONCEITOS BÍBLICOS DE JULGAR

 

A – No Hebraico

 

Na língua hebraica a palavra mais comum usada para expressar o ato de julgar é o verbo fpv shapat (8) – que é traduzido, basicamente, por julgar, governar. Deste verbo derivam os substantivos fpvshepet – julgamento, fopv shepot – juízo e fpvm mishpat – justiça ou ordenança. De acordo com a concordância de James Strong (9) a palavra fpv shapat ocorre cerca de 125 vezes no Antigo Testamento, enquanto que o termo fpvm mishpat ocorre cerca de 420 vezes no mesmo texto hebraico.

 

Outro grupo de palavras no Hebraico que também expressam o ato de julgar é representado pela expressão /yD din – julgar, contender, suplicar e pleitear. Desta palavra surgem os derivados /yDdin – julgamento, /yDdayyan – juiz, /odm madon – luta ou contenda e hnydmmedinah – província. Ainda de acordo com a concordância de James Strong (10) a palavra /yDdin ocorre, em todas as suas formas somente 23 vezes no Antigo Testamento. Para os autores do Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (11) o termo /yD din possui uma gama de significados que é exatamente a mesma do termo fpv shapat apesar de os mesmos serem usados de maneira tão desproporcional. Entres estes significados encontramos: governar, em todo o elenco de atividades de governo: legislativa, executiva, judiciária ou ainda outra. Ainda seguindo o mesmo dicionário a diferença entre os termos é simplesmente que /yD din é poético e provavelmente também arcaico e mais elegante do que fpv shapat.

 

Em resumo podemos dizer que existe um consenso entre os estudiosos de que os dois termos, fpv shapat e /yD din bem como os termos deles derivados, se referem às ações relacionadas à execução dos processos de governo. Estes termos não possuem nenhuma conotação aos atos de julgar, avaliar ou discernir que são comuns a todas as pessoas e se restringem à área do governo seja ele Divino ou humano. Desta maneira podemos dizer, com certo grau de segurança, que no que diz respeito à nossa questão se o crente pode julgar, o ensino do Antigo Testamento cai na categoria expressa pela assim chamada “Lei do Silêncio”. Esta “Lei” é uma norma estabelecida pelos intérpretes (exegetas), e diz que quando um determinado assunto não for claro em um texto ou série de textos analisados estes mesmos textos não poderão ser usados nem para apoiar a idéia nem para condená-la. Este é exatamente o caso que temos diante de nós. O estudo dos termos em hebraico relacionados ao ato de julgar não podem ser utilizados nem para apoiar nem para condenar o ato de julgar como atribuição a todos os seres humanos em geral. É óbvio que a ilustração de Jeremias citada acima ainda é muito sugestiva. E o mesmo é verdadeiro com inúmeras outras passagens do Antigo Testamento.

 

Para aqueles interessados em aprofundar este estudo o autor sugere uma leitura do “Apêndice A” onde poderá encontrar uma lista de todos os significados dos termos fpv shapat e /yDdin, bem como do termo  fpvm mishpat como apresentados pela concordância exaustiva de James Strong. Poderá também procurar ler as definições contidas no Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento nas páginas 309 e 310 e nas páginas 1602 a 1606.

 

B – No Grego

 

No Novo Testamento grego existem três palavras que estão diretamente relacionadas ao nosso estudo referente ao ato de julgar. A seguir o leitor encontrará estes termos com a definição dos mesmos conforme o Dicionário “A Concise GreekEnglish Dictionary of The New Testament(12):

 

1.                 krinw - krino – julgar, passar julgamento, ser julgado, condenar, decidir, determinar, considerar, estimar, pensar e preferir.

2.                  anakrinw - anakrino – questionar, examinar (estudar as escrituras como em Atos 17:11), julgar, avaliar, sentar-se para julgar ou em juízo, convocar para prestar contas.

3.                  diakrinw - diakrino – avaliar, julgar, reconhecer, discernir, fazer distinção entre pessoas, considerar-se ou fazer-se superior a outras pessoas (ver I Coríntios 4:7), duvidar, hesitar, disputar, debater, tomar lado ou partido.

 

Para aqueles interessados em aprofundar este estudo o autor sugere uma leitura do “Apêndice A” onde irá encontrar uma lista de todos os significados dos três termos acima.

 

Uma quarta palavra grega katakrinw - katakrino – não tem significado para o nosso estudo já que a mesma é usada exclusivamente para indicar o ato de passar julgamento ou condenar e não é usado no sentido de determinar, considerar, avaliar etc.

 

O leitor atencioso já terá notado que o significado dos termos gregos traduzidos pelas formas do verbo “julgar” em português são bem mais abrangentes do que aquelas em hebraico, que como vimos, se resumem à esfera de governo seja ele humano ou Divino. No grego, como veremos em seguida, as palavras são aplicadas não somente à esfera de governo, mas também à esfera da vida comum. Em grego as palavras krinw - krino, anakrinw - anakrino e diakrinw - diakrino dizem respeito também aos relacionamentos entre as pessoas comuns, e não estão, como no caso do hebraico, relacionadas aos atos de governo, humano ou divino, exclusivamente. Alguns versículos do Novo Testamento servirão para ilustrar o uso que estes termos receberam tanto da parte de Jesus como da parte dos apóstolos.

 

1. O termo grego krinw - krino aparece em todas as suas formas cerca de 130 vezes no Novo Testamento grego. O termo é usado da seguinte maneira:

 

a. Lucas, citando o apóstolo usa o termo grego krinw - krino para descrever tanto os atos de julgamento sofridos pelo apóstolo diante do Sinédrio Atos 23:6/7 quando Paulo armou o maior salseiro ao dizer que estava sendo julgado por causa da ressurreição dos mortos, bem como os atos diante do governador Félix Atos 24:21.

 

b. Em Atos 21:25 a expressão é traduzida por “transmitimos decisões” referindo-se às orientações que a igreja em Jerusalém havia passado aos gentios concernentes à necessidade que eles (os gentios) tinham de se abster das coisas sacrificadas a ídolos, do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas.

 

c. Este termo é traduzido por condenar em Atos 13:27 referindo-se à condenação do Senhor Jesus pelas autoridades e pelos habitantes de Jerusalém como fruto de um processo de julgamento. O mesmo uso (processo de julgamento) aparece em Romanos 2:27 e Tiago 5:9. Neste último versículo somos advertidos a não nos queixarmos uns dos outros pois os que agem desta maneira serão julgados pelo Senhor. Este não queixar uns dos outros não tem nada a ver com questões doutrinárias e sim com a falta de paciência (ver Tiago 5:8). Este versículo não pode ser aplicado de formas universal para justificar que não podemos em nenhuma hipótese e sob nenhum motivo julgarmos uns aos outros. Ele se aplica específicamente, neste contexto, à falta de paciência que demonstramos de uns para com os outros especialmente quando parece que o Senhor está demorando muito para voltar.

 

d. krinw - krino é usado no sentido de separar para se referir àqueles que usam suas opiniões para provar, avaliar ou estimar, ou seja, para discernir entre uma coisa e outra. É desta maneira que esta palavra é usada em Romanos 14 por 5 vezes (versos 3, 4, 5, 10 e 13).

 

No capítulo 14 de Romanos nós encontramos o apóstolo Paulo dando instruções acerca de como proceder em questões que não são fundamentais para a vida de fé. Na opinião de Paulo os crentes não devem discutir por causa de diferença de opinião em questões que não sejam realmente relevantes para a vida de fé – ver Romanos 14:1. Para ilustrar o que estava querendo dizer, o apóstolo Paulo descreve duas pessoas onde uma primeira acredita que pode comer de tudo e, uma segunda, que Paulo caracteriza como débil (fraca, frágil), que acredita que só pode comer legumes – ver Romanos 14:2. O conselho de Paulo diante desta situação é bastante objetivo. Paulo sabia que em tais situações é somente humano o débil julgar o outro irmão, enquanto este, por sua vez, teria a atitude de desprezar aquele mais fraco. Paulo diz que tais atitudes, de julgamento e de desprezo não eram convenientes porque esta situação não é fundamental para a vida de fé. Além disso, Deus acolhe tanto a um quanto ao outro – ver Romanos 14:3. É por este motivo que é completamente errado julgar um irmão por causa de algo não relevante, como neste caso, por causa da comida já que o reino de Deus não é comida nem bebida e sim justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo – ver Romanos 14:4 e 17.

 

Em seguida Paulo dá uma segunda ilustração de coisas irrelevantes citando o fato de que também poderiam existir pessoas que, por um lado, fizessem distinção entre um dia e outro dia e, por outro lado, pessoas que considerassem todos os dias iguais. A opinião de Paulo é que como esta questão envolve uma situação irrelevante cada crente precisa ter uma opinião bem definida em sua própria mente – ver Romanos 14:5. Para Paulo tanto uma coisa (fazer distinção), como a outra (não fazer distinção) eram completamente irrelevantes na mesma linha que era irrelevante a questão da comida ver Romanos 14:6. O fato que torna estas coisas irrelevantes é a perspectiva de que vivemos para o Senhor – ver Romanos 14:7/8. Ou seja, se a questão em disputa não quebrar nenhum mandamento do Senhor ou não for contrária a nada que está estabelecido nas Escrituras, ela é irrelevante. Mas para chegarmos a esta conclusão é necessário julgarmos o fato ou evento à luz da palavra revelada de Deus. A bíblia é nosso padrão e não devemos discutir opiniões fora ou além daquilo que está estabelecido nas Escrituras. “Sola (somente) Scriptura (as Escrituras)” como única regra absoluta de fé e prática foi um dos lemas centrais da Reforma Protestante. A conclusão de Paulo acerca destas questões é que não devemos nem julgar nem desprezar nossos irmãos em questões irrelevantes, pois todos, sem exceção, teremos que prestar contas a Deus um dia – ver Romanos 14:9/12.

 

Como pode ser facilmente notado estes conselhos valem para acomodar situações que são realmente indiferentes no que diz respeito à vida cristã. O apelo do apóstolo Paulo é que, nestas questões que são realmente indiferentes, não é atitude conveniente a um cristão nem julgar nem desprezar outros irmãos – ver Romanos 14:10.

 

Entretanto este critério não se aplica a situações onde podemos perceber que a ação de um certo indivíduo não é realmente indiferente. Se o que estiver em pauta for algo relevante, como por exemplo, um ensinamento que vai contra o que ensinam as Escrituras Sagradas ou uma determinada prática claramente condenada nas Escrituras então este princípio não se aplica. E como podemos determinar quando se aplica de quando não se aplica? Só podemos determinar quando exercitamos nosso juízo e discernimos uma coisa da outra. Para discernir é preciso julgar. Para ilustrar vamos supor que um determinado irmão está mentindo em uma certa situação. Neste caso, julgando as evidências e confirmando o ato de mentir, o mesmo precisa ser confrontado e não acomodado usando o texto de Romanos 14 para justificar que não podemos julgar. Se a pessoa em questão for um pastor ou reverendo ou ancião ou até mesmo um apóstolo nossa responsabilidade é a mesma. Se estiver errado, baseado nos ensinamentos das Escrituras Sagradas, o mesmo precisa ser repreendido. Se o erro for público e notório a exposição de tal erro precisará ter a mesma dimensão sob o risco de não alcançarmos todas as pessoas que foram prejudicadas pelo ensino ou exemplo errado. Por outro lado digamos que a questão diga respeito às roupas que alguém está usando. Alguns acham que precisam se vestir “mais socialmente” para irem adorar a Deus. Outros acham que podem usar roupas que sejam “menos sociais e mais esportivas”. Quem está certo? Ora o único mandamento acerca de vestimenta que temos válido na Nova Aliança é que devemos nos vestir de forma decente e modesta. Pouco importa se a roupa é social ou esportiva. Quem se veste socialmente não julgue o irmão que se veste esportivamente e este por sua vez não despreze àquele! E acima de tudo, que nenhum dos dois caia na besteira de achar que está agradando mais a Deus do que o outro. Deus não está interessado nas roupas que vestimos contanto que sejam decentes e modestas. Para escolher uma roupa que seja modesta e decente eu também preciso exercitar minha capacidade de discernimento ou de julgamento.

 

Creio que já é o bastante. Qualquer pessoa inteligente, e quase todas são, já percebeu o que estamos querendo dizer até aqui.

 

Neste mesmo sentido, o de exercitar a capacidade de julgamento para tomar uma decisão, o termo é usado para se referir à Pilatos quando ele havia “decidido” soltar a Jesus – ver Atos 3:13. Também se refere ao apóstolo Paulo quando ele determinou não aportar em Éfeso porque não queria demorar na Ásia – ver Atos 20:16. O mesmo uso ocorre em Atos 25:25 resolvi; 27:1 resolvido; I Coríntios 2:2 decidi; II Coríntios 2:1 isto deliberei por mim mesmo (mais direto impossível!); Tito 3:12 estou resolvido.

 

e. Uma outra maneira como o verbo “julgar” é usado no Novo Testamento tem a ver com a capacidade de formar opinião baseado em um ato de julgamento. Uma ilustração deste uso pode ser vista quando Jesus estava jantando com Simão, um fariseu – ver Lucas 7:36. Durante a refeição uma mulher, caracterizada como pecadora, adentrou o salão trazendo consigo um vaso de alabastro e “estando por detrás, aos pés de Jesus, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüentoLucas 7:38. O fariseu reage a esta atitude da mulher pensando consigo mesmo que se Jesus fosse realmente um profeta saberia muito bem que tipo de mulher era aquela. Jesus percebe e sabe exatamente o que o fariseu está pensando então lhe propõe uma pequena parábola dizendo: Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos - Lucas 7:41/43. Em seguida Jesus pergunta a Simão: “Qual deles, portanto, o amará mais?Vr. 42. Simão responde dizendo: Suponho que aquele a quem mais perdoouvr. 43a. Após ouvir a resposta de Simão Jesus diz o seguinte: JULGASTE BEMvr. 43b. O que Jesus queria dizer com estas últimas palavras? Simplesmente que Simão havia avaliado, analisado, estimado e formado uma opinião acerca da estória que havia ouvido dos lábios do Senhor. Esta formação de opinião, analisando a história, permitiu não só que Simão julgasse, mas que julgasse bem!

 

É desta mesma maneira que o verbo krinw - krino é usado em:

 

§                  João 7:24 onde Jesus diz: Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça. Note que Jesus não critica os Judeus porque estavam julgando mas porque estavam julgando apenas pelas aparências. Contra esta atitude, de julgar pelas aparências, Jesus ordena que julguem segundo a reta justiça.

§                  Atos 4:19 -  Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. Note como Pedro insiste em que os lideres judaicos julguem!

 

2. O Termo grego anakrinw - anakrino era usado na cultura geral para descrever a investigação preliminar para juntar provas que servissem de base para a informação dos juízes. Partindo desta compreensão que envolve o ato de investigar ou examinar, no Novo Testamento esta palavra é usada das seguintes maneiras:

 

a. Como buscar ou informar-se como por exemplo em Atos 17:11 onde um grupo de cidadãos de uma cidade grega chamada Beréia são caracterizados como sendo “mais nobre” do que os crentes de Tessalônica exatamente porque haviam decidido julgar as informações que estavam recebendo do Apóstolo Paulo mediante uma comparação entre o que Paulo dizia e o que diziam as Escrituras do Antigo Testamento. O verso de Atos 17:11 diz textualmente o seguinte: Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.

 

Em I Coríntios 9:3 este mesmo verbo é traduzido por “interpelar” e é um indicativo claro de que o apóstolo Paulo estava sendo questionado (literalmente estava sendo julgado) por certas pessoas que questionavam suas prerrogativas como apóstolo. A reação de Paulo contra estes críticos não é sugerir que eles estavam errados ao julgá-lo e sim dar-lhes uma resposta à altura das interpelações (críticas) que estava recebendo.

 

Nesta mesma linha, de questionar para obter informações, a expressão grega anakrinw - anakrino é usada em I Coríntios 10:25/27 onde é traduzida por perguntardes.

 

b. Alcançar um resultado que seja proveniente de investigação, de pesquisa e de julgamento. É neste sentido que este verbo é traduzido tanto por discernir quanto por julgar em I Coríntios 2:14/15 onde podemos ler: Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. É importante destacarmos aqui que Paulo deixa bem claro que aquele a quem ele caracteriza por homem espiritual julga todas as coisas.

 

Em I Coríntios 4:3/4 Paulo usa novamente o verbo grego anakrinw - anakrino para indicar que o supremo juiz de todas as coisas é Deus. No contexto imediato Paulo está falando de fidelidade a Deus. Dentro deste contexto Paulo deseja ser encontrado fiel. Pouco lhe interessa ser julgado pelos Coríntios ou por outro tribunal humano. O que Paulo deseja é ser fiel à vontade revelada de Deus. De fato, ele não se julga nem a si mesmo, pois apesar de ter a consciência tranqüila Paulo sabia que o justo Juiz é somente Deus. Mas isto não quer dizer que Paulo não estava aberto a ser criticado nem que não criticava a outros. Um exemplo do primeiro caso é quando Paulo admite que errou ao chamar o Sumo Sacerdote de parede branqueada – ver Atos 23:1/5. Do segundo caso uma passagem que certamente pode ser citada neste contexto é a de Gálatas 2:11/14. Nesta passagem Paulo descreve a maneira rígida como repreendeu a Pedro, a Barnabé e outros irmãos porque, em suas próprias palavras, estes irmãos haviam se tornado repreensíveis...não procedendo corretamente segundo a verdade do evangelho. Esta última passagem possui alguns ingredientes muito interessantes.

 

1.                Em primeiro lugar nós encontramos o apóstolo Paulo julgando o comportamento de outros irmãos porque estavam agindo de forma hipócrita usando dois pesos e duas medidas. Paulo chama este comportamento de dissimulado.

 

2.                Tal dissimulação era, em segundo lugar, um comportamento inconsistente com a verdade do evangelho.

 

3.                 Em terceiro lugar Paulo não evita usar nomes citando nominalmente a Pedro e a Barnabé.

 

Esta passagem contém todos os ingredientes que aqueles que querem transgredir contra a verdade do evangelho, mas que não querem ser criticados costumam usar para se defender. Imagine Pedro e Barnabé argumentando com Paulo e dizendo:

 

1)               Paulo, não nos julgue, lembre-se do que Jesus falou acerca de “não julgar”.

 

2)               Paulo, você não conhece nossos motivos, portanto não diga que estamos agindo de forma dissimulada. Será que você não percebe que está nos julgando?

 

3)               Em terceiro lugar Paulo, sua atitude certamente vai criar divisão entre os irmãos. Você deveria pensar mais na unidade, nas coisas boas que nos unem e deixar um pouco de lado este seu apego tão legalista e farisaico e porque não hipócrita de amor à verdade do evangelho acima de tudo!

 

4)               E, por favor, Paulo, não cite nomes, isto é muito feio!

 

Espero que o leitor perceba quão ridículos estes argumentos seriam! Todavia estes são, de forma mais consistente, os argumentos usados por aqueles que estão agindo de maneira errada e não querem, em nenhuma hipótese e sob nenhum pretexto, serem criticados ou julgados. São estes mesmos que ensinam, em proveito próprio, que é errado julgar. E o mais surpreendente é que existam pessoas que acreditem nesta mentira, de que é errado julgar, e que ainda tomam as dores do pretenso ofendido e saem em sua defesa.

 

c. Ainda neste contexto existe ainda um terceiro significado para anakrinw - anakrino no Novo Testamento. Como este significado diz respeito especificamente ao ato de examinar (interrogar) mediante o uso de práticas de pressão e tortura o mesmo não possui um significado que seja do nosso interesse neste estudo. Para aqueles que gostariam de verificar o uso do mesmo seguem algumas referências básicas: Atos 4:8/10; Atos 12:19; Atos 14:7/9; Atos 28:16/18.

 

3. O Termo grego diakrinw - diakrino é usado no Novo Testamento para indicar primariamente o ato de fazer distinção, de distinguir, resolver, decidir. Na voz média (13) é usado no sentido de:

 

§                  “Separar-se ou contender com” como fizeram os judeus do partido da circuncisão com Pedro quando este retornou a Jerusalém vindo da casa de Cornélio em Cesaréia – ver Atos 11:2 onde diakrinw - diakrino é traduzido por contenderam.

§                  O mesmo sentido existe em Judas 1:9 que descreve a contenda entre o Arcanjo Miguel e Satanás acerca do corpo de Moisés.

§                  Em Judas 1:22 onde a tradução diz em dúvida o termo possui o sentido de diferença de opiniões.

 

a. Como o ato de fazer separação ou distinção o termo é usado em Atos 15:9 onde Pedro deixa claro que Deus não faz distinção entre judeus e gentios no que diz respeito a salvação.

 

b. O ato de fazer distinção implica em “discernir” que é definido pelo Dicionário Aurélio Século XXI como: Conhecer distintamente; perceber claro por qualquer dos sentidos; apreciar; distinguir; discriminar. É neste sentido que diakrinw - diakrino é utilizado, por exemplo, em I Coríntios 11:31 onde Paulo diz que se nos julgássemos a nós mesmos não seríamos julgados (pelo Senhor). O que Paulo está dizendo neste versículo é que precisamos discernir (conhecer distintamente) nossa verdadeira condição diante do Senhor. Para alcançar este objetivo nós temos que nos julgar a nós mesmos. O mesmo sentido aparece em I Coríntios 14:29 onde os profetas têm a obrigação de julgar uns aos outros visando discernir exatamente o que é procedente do Espírito Santo.

 

c. diakrinw - diakrino é usado em I Coríntios 6:5 para indicar a capacidade de “arbitrar” entre os irmãos mediante o uso das capacidades de discernir ou discriminar.

 

d. A mesma palavra é usada para indicar a distin