Cristão pode julgar? (AX) (1)
(Se não conseguir ver as letras em hebraico, no III Capítulo, deverá
aplicar
ao seu computador a
fonte que está na página principal)
Coisa espantosa e
horrenda se anda fazendo na terra: os
profetas profetizam falsamente, e os
sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo. Porém que fareis quando estas coisas
chegarem ao seu fim? – Jeremias
5:30/31.
Não julgueis segundo a aparência, e sim
pela reta justiça. – João
7:24
Ou não sabeis que
os santos hão de julgar o mundo? Ora, se
o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas
mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as
coisas desta vida! Entretanto, vós, quando tendes a julgar negócios terrenos, constituís um tribunal daqueles que não têm nenhuma
aceitação na igreja. Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar
no meio da irmandade? I
Coríntios 6:2/5
Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti -lhe face a
face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns
da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e,
por fim, veio a apartar -se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele,
a ponto de o próprio Barnabé ter-se
deixado levar pela dissimulação deles. Quando, porém, vi que não procediam corretamente
segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na
presença de todos... Gálatas
2:11/14.
INTRODUÇÃO
O cristão pode julgar? Esta é
uma pergunta que poderia ser irrelevante. Poderia não fosse a impressionante realidade que estamos vivenciando nos dias de hoje. Este autor tem escritos
diversos artigos publicados no jesussite.org (2) os quais
têm motivado alguns leitores a lhe escreverem mensagens eletrônicas.
Alguns escrevem para agradecer, outros apenas para elogiar e outros para
expressar sentimentos que variam de frustração à ira. Entres este último grupo
as críticas podem ser facilmente classificadas em quatro categorias, a saber:
1)
Em
primeiro lugar, o campeão disparado, é a citação de alguns versículos bíblicos,
com especial ênfase nas passagens de Mateus
7:1/5 e Romanos
14:4/10 visando mostrar quão errado, impróprio e até anti-cristão é o ato
de julgar.
2)
Em
segundo lugar estão aqueles que sugerem que não é possível julgar a ninguém
porque somente Deus sabe os verdadeiros motivos das pessoas. Estes sugerem que
devemos deixar tudo correr como tem que correr e aguardar o juízo final de
Deus.
3)
Em
terceiro lugar está a turma do “deixa disso” alegando que toda crítica é
perniciosa e causa divisões no corpo de Cristo. “Irmão Alex”,
me escrevem “temos que manter
a unidade a qualquer custo”.
4)
Em quarto lugar estão aqueles que pedem para que nomes não
sejam mencionados porque este ato prejudica demais aos citados. Neste último
lote se encontram muitos pastores que consideram um sinal de maturidade e maior
espiritualidade não citarem nomes quando querem fazer uma crítica.
O autor não consegue evitar a
profunda tristeza que experimenta ao perceber nestas mensagens eletrônicas o nível em que se encontram os cristãos em
geral e a cristandade (3) em particular. Um velho professor e amigo
costumava dizer o seguinte: “Alex, a ignorância é o
paraíso”. E hoje, 25 anos depois, sou obrigado a concordar absolutamente com
ele.
Sinto-me motivado a escrever
este artigo porque observo que muito desta ignorância é alimentada pelos
próprios indivíduos que gostam de se intitular “Pastores, Reverendos, Mestres, Doutores,
Bispos” e, ultimamente, “Apóstolos”. Em vez de ensinarem o que a Bíblia diz acerca da responsabilidade cristã de julgar
preferem alimentar a ignorância do povo. Este ato, o de alimentar a ignorância,
visa à auto defesa que procura colocar estes indivíduos acima e fora do alcance
de qualquer admoestação, censura ou repreensão. E infelizmente, para complicar
ainda mais a situação, os crentes em geral se submetem a este tipo de abuso
espiritual, fazendo-o, a grande maioria, de boa vontade. Este problema, a
associação daqueles que têm a responsabilidade de guiar com aqueles que são
guiados, para perverter a Palavra de Deus, não é novo. O profeta Jeremias
enfrentou situação semelhante e se não soubéssemos que o mesmo profetizou entre
627 a 580 a.C. teríamos a impressão que ele estava se referindo aos nossos dias
tamanha a atualidade de suas palavras. O profeta
Jeremias diz o seguinte: Coisa espantosa e horrenda se
anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes
dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo. Porém que fareis
quando estas coisas chegarem ao seu fim? – ver Jeremias
5:30/31. Para entendermos de forma mais precisa estas palavras de Jeremias
é necessário compreendermos o contexto em que elas foram ditas. A semelhança
com os nossos dias, como se verá, é inescapável!
I – O EXEMPLO DO PROFETA JEREMIAS
O profeta Jeremias começou a
profetizar nos dias do rei Josias, filho de Amon, que
reinou (Josias) sobre o reino de Judá de 640 a 609 a.C. Nos dias de Josias uma
cópia do “Livro da Lei” de Moisés foi encontrada na “Casa do SENHOR”, isto é, no
templo em Jerusalém pelo sumo sacerdote Hílquias – ver II
Reis 22:8/20 e II
Reis 23:1/3. A leitura deste manuscrito descoberto no templo, causou
profunda comoção no rei Josias que chegou até mesmo a rasgar suas roupas, o que
era um ato externo que indicava como o rei estava se sentindo por dentro – ver II
Reis 22:11. O rei sabia o valor do documento que acabava de ser lido para
ele. Este era um livro, revelado por Deus, pelo qual, de forma padronizada e objetiva, todas as tradições podiam e deveriam ser julgadas.
Os sacerdotes e os príncipes do povo eram os que tinham mais a perder com esta
descoberta, pois os privilégios que desfrutavam não eram sustentados pela
Palavra de Deus. Para se protegerem contra a perda destes privilégios estes
sacerdotes tinham o apoio de falsos profetas que vinham trazendo falsas
revelações da parte de Deus. É contra este corporativismo que Jeremias se
levanta. Os falsos profetas que segundo o texto profetizavam falsamente, isto
é, falavam mentiras, estavam intimamente associados, de mãos dadas, com os
sacerdotes para dominar sobre o povo de Deus. E o próprio povo de Deus aprovava
tal dominação. Para Jeremias esta situação só podia ser descrita de uma
maneira: era algo espantoso e horrendo.
O coração do problema, como
entendido pelo profeta Jeremias, consistia em que havia uma aliança perversa
entre os falsos profetas, os sacerdotes e o povo para prestarem um culto a Deus
que fosse somente “da boca para fora”. Tal hipocrisia já havia sido denunciada
pelo próprio Deus através do profeta Isaías – ver Isaías
29:13. E foi novamente denunciada pelo próprio Senhor Jesus em Seus dias –
ver Mateus
15:7/9. Nos dias de Jeremias não
havia interesse nem da parte dos falsos profetas, nem dos sacerdotes e nem do
povo de reformar honesta e completamente seus caminhos. Para estes, uma vez
mantidas as aparências estava tudo muito bom. Jeremias denuncia esta
religiosidade falsa, superficial e pretensiosa. A pergunta que ele faz é: que fareis quando estas coisas chegarem ao seu fim? Jeremias
se refere ao julgamento de Deus em que todo o povo de Judá estava incorrendo
por praticar uma religião que vivia somente de aparências. Para que possamos
ter uma compreensão do estado moral (4) que existia em Judá nos dias do profeta
Jeremias, nós temos que nos lembrar das palavras de Deus ditas através do
profeta no início do capítulo 5: Dai voltas às ruas de
Jerusalém; vede agora, procurai saber, buscai pelas suas praças a ver se achais alguém, se há um homem que
pratique a justiça ou busque a verdade; e eu lhe perdoarei a ela – Jeremias
5:1. Que cena patética! A promessa de Deus era que se fosse possível achar
uma pessoa somente que praticasse a justiça ou que buscasse a verdade em toda
cidade de Jerusalém, Deus estava disposto a perdoar o pecado de toda a cidade. Agora
imagine se Jeremias não tivesse se levantado e julgado (5) a
situação. Se ele não tivesse exercido o ato de julgamento acerca da situação em
que a nação de Judá se encontrava ele jamais poderia ter proferido as palavras
que proferiu. Nos dias de hoje vivemos uma situação semelhante. A Cristandade
está satisfeita em manter as aparências. Em prestar um culto apenas de lábios
ao Senhor. Em pretender ser aquilo que realmente não é. As insidiosas
infiltrações da chamada “Teologia do Domínio” que visam à criação de um
verdadeiro exército de “vencedores” liderados por uma nova casta de “profetas e
apóstolos” e que irão pavimentar o caminho para a volta do Senhor Jesus têm
criado um afastamento da verdadeira fé que não está sendo devidamente avaliada.
Os dois exemplos mais clamorosos são os representados pelo pastor colombiano
César Castellanos com suas teorias mirabolantes de
“sonha e ganharás o mundo” e do americano norte estadunidense
Rick Warren que
recentemente anunciou a criação de um “exército” de um bilhão (6) de homens que irão implementar de fato aquilo que ele tem chamado de
“a segunda reforma”. Segundo Rick Warren,
depois de transformar as igrejas em “igrejas com propósitos”, depois de
transformar as vidas das pessoas em “vidas com propósitos”, agora chegou a hora
de transformar os países em “países com propósito”, preparando, desta maneira,
o mundo para o segundo advento do Senhor Jesus. Além de tudo isto, a
Cristandade não aceita nenhum tipo de crítica ou chamado ao arrependimento. Estão
tão cheios de si mesmos que
precisamos repetir a pergunta de Jeremias: Que fareis
quando estas coisas chegarem ao seu fim?.
II – O CONCEITO DE JULGAR NA LÓGICA E NA PSICOLOGIA
Quando nos referimos no
estudo da Lógica, seja ela na tradição clássica (aristotélica-tomista),
seja na tradição moderna (dialética hegeliana), ao ato de julgar, estamos apenas afirmando que
é nosso desejo estabelecer uma relação mental entre dois ou mais conceitos onde
o julgamento em si não passa de uma simples proposição que afirma ou nega a
conexão existente entre estes mesmos conceitos (7).
Já na Psicologia o ato de
julgar não passa de uma outra expressão para caracterizar a perspicácia ou
sagacidade que são qualidades de todas as pessoas que possuem a habilidade de
discernir ou avaliar de maneira equilibrada uma determinada situação, fato ou
evento. A verdade que precisa ser dita aqui é que praticamente todas as pessoas,
com exceção daquelas que são mentalmente incapazes de
raciocinar, possuem esta capacidade de julgar, de avaliar, de discernir. É exatamente neste sentido que o salmista pede a Deus que: Ensina-me bom
juízo e conhecimento, pois creio nos teus
mandamentos – Salmos
119:66 .
Assim podemos avaliar de
maneira equilibrada que é apenas lógico o que o dicionário Aurélio Século XXI
nos informa ser o escopo alcançado pelo verbo “julgar” no nosso idioma
português do Brasil. O Aurélio nos diz que o escopo vai muito além dos atos executados por um juiz propriamente dito. O termo
também descreve as ações genéricas atribuídas a todas
as pessoas sem distinção. Entre estas ações podemos citar:
supor, imaginar, conjeturar, formar opinião sobre,
avaliar, formar juízo crítico e apreciar.
Mas muito além das definições
filosóficas e psicológicas e mesmo morfológicas queremos saber como o Antigo
Testamento e o Novo Testamento definem o ato de julgar. O que queremos
aprender, caso a ilustração de Jeremias fornecida acima não tenha sido
suficiente, diz respeito ao fato se é ou
não lícito o crente julgar. Bem vejamos os que os dicionários de Hebraico e
Grego nos dizem acerca do ato de julgar.
III – OS CONCEITOS BÍBLICOS DE JULGAR
A – No Hebraico
Na língua hebraica a palavra
mais comum usada para expressar o ato de julgar é o verbo fpv – shapat (8) –
que é traduzido, basicamente, por julgar, governar. Deste verbo derivam os
substantivos fpv – shepet – julgamento, fopv – shepot – juízo e fpvm – mishpat – justiça ou ordenança. De acordo com a concordância
de James Strong (9) a palavra fpv – shapat ocorre cerca de 125 vezes no Antigo Testamento,
enquanto que o termo fpvm – mishpat ocorre cerca de 420 vezes no mesmo texto hebraico.
Outro grupo de palavras no
Hebraico que também expressam o ato de julgar é representado pela expressão /yD – din – julgar, contender, suplicar e pleitear. Desta
palavra surgem os derivados /yD – din – julgamento, /yD – dayyan – juiz, /odm – madon – luta ou contenda e hnydm – medinah – província. Ainda de acordo com a
concordância de James Strong (10) a palavra /yD – din ocorre, em todas as suas formas somente 23
vezes no Antigo Testamento. Para os autores do Dicionário Internacional de
Teologia do Antigo Testamento (11) o termo /yD – din
possui uma gama de significados que é exatamente a
mesma do termo fpv – shapat apesar
de os mesmos serem usados de maneira tão desproporcional. Entres estes
significados encontramos: governar, em todo o elenco de atividades
de governo: legislativa, executiva, judiciária ou ainda outra. Ainda seguindo o
mesmo dicionário a diferença entre os termos é simplesmente que /yD – din é poético e provavelmente também arcaico e
mais elegante do que fpv – shapat.
Em resumo podemos dizer que
existe um consenso entre os estudiosos de que os dois termos, fpv – shapat e /yD – din bem como os termos deles derivados, se
referem às ações relacionadas à execução dos
processos de governo. Estes termos não possuem nenhuma conotação aos atos de julgar, avaliar ou discernir que são comuns a todas
as pessoas e se restringem à área do governo seja ele Divino ou humano. Desta
maneira podemos dizer, com certo grau de segurança, que no que diz respeito à
nossa questão se o crente pode julgar, o ensino do Antigo Testamento cai na
categoria expressa pela assim chamada “Lei do Silêncio”. Esta “Lei” é uma norma
estabelecida pelos intérpretes (exegetas), e diz que quando um determinado
assunto não for claro em um texto ou série de textos analisados estes mesmos
textos não poderão ser usados nem para apoiar a idéia
nem para condená-la. Este é exatamente o caso que
temos diante de nós. O estudo dos termos em hebraico relacionados ao ato de
julgar não podem ser utilizados nem para apoiar nem para condenar o ato de
julgar como atribuição a todos os seres humanos em geral. É óbvio que a
ilustração de Jeremias citada acima ainda é muito sugestiva. E o mesmo é
verdadeiro com inúmeras outras
passagens do Antigo Testamento.
Para aqueles interessados em
aprofundar este estudo o autor sugere uma leitura do “Apêndice A” onde poderá encontrar
uma lista de todos os significados dos termos fpv – shapat e /yD – din, bem como do termo fpvm – mishpat como apresentados pela concordância
exaustiva de James Strong.
Poderá também procurar ler as definições contidas no Dicionário Internacional
de Teologia do Antigo Testamento nas páginas 309 e 310 e nas páginas 1602 a
1606.
B – No Grego
No Novo Testamento grego
existem três palavras que estão diretamente
relacionadas ao nosso estudo referente ao ato de julgar. A seguir o leitor
encontrará estes termos com a definição dos mesmos conforme o Dicionário “A Concise Greek – English Dictionary of The New
Testament” (12):
1.
krinw - krino – julgar, passar julgamento,
ser julgado, condenar, decidir, determinar, considerar, estimar, pensar e
preferir.
2.
anakrinw - anakrino – questionar, examinar
(estudar as escrituras como em Atos 17:11), julgar, avaliar, sentar-se para julgar ou
em juízo, convocar para prestar contas.
3.
diakrinw - diakrino – avaliar, julgar, reconhecer,
discernir, fazer distinção entre pessoas, considerar-se ou fazer-se superior a
outras pessoas (ver I
Coríntios 4:7), duvidar, hesitar, disputar, debater, tomar lado ou partido.
Para aqueles interessados em
aprofundar este estudo o autor sugere uma leitura do “Apêndice A” onde irá
encontrar uma lista de todos os significados dos três termos acima.
Uma quarta
palavra grega katakrinw - katakrino – não tem significado para o nosso estudo já que a mesma é usada
exclusivamente para indicar o ato de passar julgamento ou condenar e não é
usado no sentido de determinar, considerar, avaliar etc.
O leitor atencioso
já terá notado que o significado dos termos gregos traduzidos pelas formas do
verbo “julgar” em português são bem mais abrangentes do que aquelas em
hebraico, que como vimos, se resumem à esfera de governo seja ele humano ou
Divino. No grego, como veremos em seguida, as palavras são aplicadas não
somente à esfera de governo, mas também à esfera da vida comum. Em grego as
palavras krinw - krino, anakrinw - anakrino e diakrinw - diakrino dizem respeito também aos
relacionamentos entre as pessoas comuns, e não estão, como no caso do hebraico,
relacionadas aos atos de governo, humano ou divino,
exclusivamente. Alguns versículos do Novo Testamento servirão para ilustrar o
uso que estes termos receberam tanto da parte de Jesus como da parte dos
apóstolos.
1. O termo grego krinw - krino
aparece em todas as suas formas cerca de 130 vezes no Novo Testamento grego. O
termo é usado da seguinte maneira:
a. Lucas, citando o apóstolo usa o termo
grego krinw - krino para descrever tanto os atos de julgamento sofridos pelo apóstolo diante do Sinédrio
Atos 23:6/7 quando Paulo armou o maior salseiro ao dizer que estava sendo julgado por causa da
ressurreição dos mortos, bem como os atos diante do
governador Félix Atos 24:21.
b. Em Atos 21:25 a expressão é traduzida por “transmitimos
decisões” referindo-se às orientações que a igreja em Jerusalém havia passado
aos gentios concernentes à necessidade que eles (os gentios) tinham de se abster das coisas sacrificadas a ídolos, do sangue, da
carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas.
c. Este termo é traduzido por condenar em Atos 13:27 referindo-se à condenação do Senhor Jesus
pelas autoridades e pelos habitantes de Jerusalém como fruto de um processo de
julgamento. O mesmo uso (processo de julgamento) aparece em Romanos
2:27 e Tiago
5:9. Neste último versículo somos advertidos a não nos queixarmos uns dos
outros pois os que agem desta maneira serão julgados pelo Senhor. Este não queixar uns dos outros não tem nada a ver com
questões doutrinárias e sim com a falta de paciência (ver Tiago
5:8). Este versículo não pode ser aplicado de formas universal para
justificar que não podemos em nenhuma hipótese e sob nenhum motivo julgarmos
uns aos outros. Ele se aplica específicamente, neste
contexto, à falta de paciência que demonstramos de uns para com os outros
especialmente quando parece que o Senhor está demorando muito para voltar.
d. krinw - krino é usado no sentido de separar
para se referir àqueles que usam suas opiniões para provar, avaliar ou estimar,
ou seja, para discernir entre uma coisa
e outra. É desta maneira que esta palavra é usada em Romanos
14 por 5 vezes (versos 3, 4, 5, 10 e 13).
No capítulo 14 de
Romanos nós encontramos o apóstolo Paulo dando instruções acerca de como
proceder em questões que não são fundamentais para a vida de fé. Na opinião de
Paulo os crentes não devem discutir por causa de diferença de opinião em
questões que não sejam realmente relevantes para a vida de fé – ver Romanos
14:1. Para ilustrar o que estava querendo dizer, o apóstolo Paulo descreve
duas pessoas onde uma primeira acredita que pode comer de tudo e, uma segunda,
que Paulo caracteriza como débil (fraca, frágil), que acredita que só pode
comer legumes – ver Romanos
14:2. O conselho de Paulo diante desta situação é bastante objetivo. Paulo sabia que em tais situações
é somente humano o débil julgar o outro irmão, enquanto este, por sua
vez, teria a atitude de desprezar aquele mais fraco. Paulo diz que tais
atitudes, de julgamento e de desprezo não eram convenientes porque esta
situação não é fundamental para a vida de fé. Além disso, Deus acolhe tanto a
um quanto ao outro – ver Romanos
14:3. É por este motivo que é completamente errado julgar um irmão por
causa de algo não relevante, como neste caso, por causa da comida já que o
reino de Deus não é comida nem bebida e sim justiça, e paz, e alegria no
Espírito Santo – ver Romanos
14:4 e 17.
Em seguida Paulo
dá uma segunda ilustração de coisas irrelevantes citando o fato de que também
poderiam existir pessoas que, por um lado, fizessem distinção entre um dia e
outro dia e, por outro lado, pessoas que considerassem todos os dias iguais. A
opinião de Paulo é que como esta questão envolve uma situação irrelevante cada
crente precisa ter uma opinião bem definida em sua própria mente – ver Romanos
14:5. Para Paulo tanto uma coisa (fazer distinção), como a outra (não fazer
distinção) eram completamente irrelevantes na mesma linha que era irrelevante a
questão da comida – ver Romanos
14:6. O fato que torna estas coisas irrelevantes é a perspectiva de que
vivemos para o Senhor – ver Romanos
14:7/8. Ou seja, se a questão em disputa não quebrar nenhum mandamento do
Senhor ou não for contrária a nada que está estabelecido nas Escrituras, ela é irrelevante.
Mas para chegarmos a esta conclusão é
necessário julgarmos o fato ou evento à luz da palavra revelada de Deus. A
bíblia é nosso padrão e não devemos discutir opiniões fora ou além daquilo que
está estabelecido nas Escrituras. “Sola (somente) Scriptura
(as Escrituras)” como única regra absoluta de fé e
prática foi um dos lemas centrais da Reforma Protestante. A conclusão de Paulo
acerca destas questões é que não devemos
nem julgar nem desprezar nossos irmãos em questões irrelevantes, pois
todos, sem exceção, teremos que prestar contas a Deus
um dia – ver Romanos
14:9/12.
Como pode ser
facilmente notado estes conselhos valem para acomodar situações que são
realmente indiferentes no que diz respeito à vida cristã. O apelo do apóstolo
Paulo é que, nestas questões que são
realmente indiferentes, não é atitude conveniente a um cristão nem julgar nem
desprezar outros irmãos – ver Romanos
14:10.
Entretanto este
critério não se aplica a situações onde podemos perceber que a ação de um certo indivíduo não é realmente indiferente. Se
o que estiver em pauta for algo relevante, como por exemplo, um ensinamento que
vai contra o que ensinam as Escrituras Sagradas ou uma determinada prática
claramente condenada nas Escrituras então este princípio não se aplica. E como
podemos determinar quando se aplica de quando não se aplica? Só podemos
determinar quando exercitamos nosso juízo e discernimos uma coisa da outra. Para discernir é preciso julgar. Para
ilustrar vamos supor que um determinado irmão está mentindo em uma certa
situação. Neste caso, julgando as evidências e confirmando o ato de mentir, o
mesmo precisa ser confrontado e não acomodado usando o texto de Romanos 14 para
justificar que não podemos julgar. Se a pessoa em questão for um pastor ou
reverendo ou ancião ou até mesmo um apóstolo nossa responsabilidade é a mesma.
Se estiver errado, baseado nos ensinamentos das Escrituras Sagradas, o mesmo
precisa ser repreendido. Se o erro for público e notório a exposição de tal
erro precisará ter a mesma dimensão sob o risco de não alcançarmos todas as
pessoas que foram prejudicadas pelo ensino ou exemplo errado. Por outro lado
digamos que a questão diga respeito às roupas que alguém está usando. Alguns
acham que precisam se vestir “mais socialmente” para irem adorar a Deus. Outros
acham que podem usar roupas que sejam “menos sociais e mais esportivas”.
Quem está certo? Ora o único mandamento acerca de vestimenta que temos válido
na Nova Aliança é que devemos nos vestir de forma decente e modesta. Pouco
importa se a roupa é social ou esportiva. Quem se
veste socialmente não julgue o irmão que se veste esportivamente
e este por sua vez não despreze àquele! E acima de tudo, que nenhum dos dois caia na besteira de achar que está
agradando mais a Deus do que o outro. Deus não está interessado nas roupas que
vestimos contanto que sejam decentes e modestas. Para escolher uma roupa que
seja modesta e decente eu também preciso exercitar minha capacidade de
discernimento ou de julgamento.
Creio que já é o
bastante. Qualquer pessoa inteligente, e quase todas são, já percebeu o que
estamos querendo dizer até aqui.
Neste mesmo
sentido, o de exercitar a capacidade de julgamento para tomar uma decisão, o
termo é usado para se referir à Pilatos quando ele havia “decidido” soltar a
Jesus – ver Atos 3:13. Também se refere ao apóstolo Paulo quando
ele determinou não
aportar em Éfeso porque não queria demorar na Ásia – ver Atos 20:16. O mesmo uso ocorre em Atos 25:25 resolvi; 27:1
resolvido; I
Coríntios 2:2 decidi; II
Coríntios 2:1 isto
deliberei por mim mesmo (mais direto impossível!); Tito
3:12 estou resolvido.
e. Uma outra maneira como o
verbo “julgar” é usado no Novo Testamento tem a ver com a capacidade de formar
opinião baseado em um ato de julgamento. Uma ilustração deste uso pode ser
vista quando Jesus estava jantando com Simão, um fariseu – ver Lucas
7:36. Durante a refeição uma mulher, caracterizada como pecadora, adentrou o salão trazendo consigo um vaso de alabastro e
“estando por detrás, aos pés de Jesus, chorando, regava-os com suas lágrimas e
os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüento – Lucas
7:38. O fariseu reage a esta atitude da mulher pensando consigo mesmo que
se Jesus fosse realmente um profeta saberia muito bem que tipo de mulher era
aquela. Jesus percebe e sabe exatamente o que o
fariseu está pensando então lhe propõe uma pequena parábola dizendo: Certo credor tinha dois
devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinqüenta.
Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos - Lucas
7:41/43. Em seguida Jesus pergunta a Simão: “Qual deles, portanto, o amará mais? – Vr.
42. Simão responde dizendo: Suponho que aquele a quem mais perdoou – vr. 43a. Após
ouvir a resposta de Simão Jesus diz o seguinte: JULGASTE BEM – vr. 43b. O
que Jesus queria dizer com estas últimas palavras? Simplesmente que Simão havia
avaliado, analisado, estimado e formado uma opinião acerca da estória que havia ouvido dos lábios do Senhor. Esta
formação de opinião, analisando a história, permitiu não só que Simão julgasse,
mas que julgasse bem!
É desta mesma
maneira que o verbo
krinw - krino é usado em:
§
João
7:24 onde Jesus diz: Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta
justiça. Note que
Jesus não critica os Judeus porque estavam julgando mas porque estavam julgando
apenas pelas aparências. Contra esta atitude, de julgar pelas aparências, Jesus
ordena que julguem segundo a reta justiça.
§
Atos 4:19 - Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante
de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar
de falar das coisas que vimos e ouvimos. Note como Pedro insiste em que os lideres judaicos julguem!
2. O Termo grego anakrinw - anakrino era usado na cultura geral
para descrever a investigação preliminar para juntar provas que servissem de
base para a informação dos juízes. Partindo desta compreensão que envolve o ato de investigar ou examinar, no Novo Testamento esta
palavra é usada das seguintes maneiras:
a. Como buscar ou informar-se
como por exemplo em Atos 17:11 onde um grupo de cidadãos de uma cidade
grega chamada Beréia são caracterizados como sendo
“mais nobre” do que os crentes de Tessalônica exatamente porque haviam decidido julgar as informações que
estavam recebendo do Apóstolo Paulo mediante uma comparação entre o que Paulo
dizia e o que diziam as Escrituras do Antigo Testamento. O verso de Atos 17:11 diz textualmente o seguinte: Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica;
pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de
fato, assim.
Em I
Coríntios 9:3 este mesmo verbo é traduzido por “interpelar” e é um
indicativo claro de que o apóstolo Paulo estava sendo questionado (literalmente
estava sendo julgado) por certas pessoas que questionavam suas prerrogativas
como apóstolo. A reação de Paulo contra estes
críticos não é sugerir que eles estavam errados ao julgá-lo e sim dar-lhes uma
resposta à altura das interpelações (críticas) que estava recebendo.
Nesta mesma linha,
de questionar para obter informações, a expressão grega anakrinw - anakrino é usada em I
Coríntios 10:25/27 onde é traduzida por perguntardes.
b. Alcançar um resultado que seja proveniente de
investigação, de pesquisa e de julgamento. É neste sentido que este verbo é
traduzido tanto por discernir quanto por julgar em I
Coríntios 2:14/15 onde podemos ler: Ora, o homem natural não aceita as coisas
do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque
elas se discernem espiritualmente. Porém
o homem espiritual julga todas as coisas,
mas ele mesmo não é julgado por ninguém. É importante destacarmos aqui que Paulo
deixa bem claro que aquele a quem ele caracteriza por homem espiritual julga todas as coisas.
Em I
Coríntios 4:3/4 Paulo usa novamente o verbo grego
anakrinw - anakrino para indicar que o supremo
juiz de todas as coisas é Deus. No contexto imediato Paulo está falando de
fidelidade a Deus. Dentro deste contexto Paulo deseja ser encontrado fiel.
Pouco lhe interessa ser julgado pelos Coríntios ou por outro tribunal humano. O
que Paulo deseja é ser fiel à vontade revelada de Deus. De fato, ele não se
julga nem a si mesmo, pois apesar de ter a consciência tranqüila
Paulo sabia que o justo Juiz é somente Deus. Mas isto não quer dizer que Paulo não estava aberto a ser criticado nem
que não criticava a outros. Um exemplo do primeiro caso é quando Paulo
admite que errou ao chamar o Sumo Sacerdote de parede branqueada – ver Atos 23:1/5. Do segundo caso uma passagem que
certamente pode ser citada neste contexto é a de Gálatas
2:11/14. Nesta passagem Paulo descreve a maneira rígida como repreendeu a
Pedro, a Barnabé e outros irmãos porque, em suas próprias palavras, estes
irmãos haviam se
tornado repreensíveis...não procedendo corretamente
segundo a verdade do evangelho. Esta última passagem possui alguns ingredientes muito
interessantes.
1.
Em primeiro lugar nós encontramos o apóstolo Paulo julgando o
comportamento de outros irmãos porque estavam agindo de forma hipócrita usando
dois pesos e duas medidas. Paulo chama este comportamento de dissimulado.
2.
Tal dissimulação era, em segundo lugar, um comportamento
inconsistente com a verdade do evangelho.
3.
Em terceiro lugar Paulo não
evita usar nomes citando nominalmente a Pedro e a Barnabé.
Esta passagem
contém todos os ingredientes que aqueles que querem transgredir contra a
verdade do evangelho, mas que não querem ser criticados costumam usar para se
defender. Imagine Pedro e Barnabé argumentando com Paulo e dizendo:
1)
Paulo, não nos julgue, lembre-se do que Jesus falou acerca de “não
julgar”.
2)
Paulo, você não conhece nossos motivos, portanto não diga que
estamos agindo de forma dissimulada. Será que você não percebe que está nos
julgando?
3)
Em terceiro lugar Paulo, sua atitude certamente vai criar divisão
entre os irmãos. Você deveria pensar mais na unidade, nas coisas boas que nos
unem e deixar um pouco de lado este seu apego tão legalista e farisaico e
porque não hipócrita de amor à verdade do evangelho acima de tudo!
4)
E, por favor, Paulo, não cite nomes, isto é muito feio!
Espero que o
leitor perceba quão ridículos estes argumentos seriam! Todavia estes são, de
forma mais consistente, os argumentos usados por aqueles que estão agindo de
maneira errada e não querem, em nenhuma hipótese e sob nenhum pretexto, serem
criticados ou julgados. São estes mesmos que ensinam, em proveito próprio, que
é errado julgar. E o mais surpreendente é que existam pessoas que acreditem
nesta mentira, de que é errado julgar, e que ainda tomam as dores do pretenso
ofendido e saem em sua defesa.
c. Ainda neste contexto existe ainda um terceiro significado para anakrinw - anakrino no Novo Testamento. Como este
significado diz respeito especificamente ao ato de examinar (interrogar)
mediante o uso de práticas de pressão e tortura o mesmo não possui um
significado que seja do nosso interesse neste estudo. Para aqueles que
gostariam de verificar o uso do mesmo seguem algumas referências básicas: Atos 4:8/10; Atos 12:19; Atos 14:7/9; Atos 28:16/18.
3. O Termo grego diakrinw - diakrino é usado no Novo Testamento
para indicar primariamente o ato de fazer distinção, de distinguir, resolver,
decidir. Na voz média (13) é usado no sentido de:
§
“Separar-se
ou contender com” como fizeram os judeus do partido da circuncisão com Pedro
quando este retornou a Jerusalém vindo da casa de Cornélio em Cesaréia – ver Atos 11:2 onde diakrinw - diakrino é traduzido por contenderam.
§
O mesmo sentido existe em Judas
1:9 que descreve a contenda
entre o Arcanjo Miguel e Satanás acerca do corpo de Moisés.
§
Em Judas
1:22 onde a tradução diz em dúvida o termo possui o sentido de diferença de opiniões.
a. Como o ato de fazer separação
ou distinção o termo é usado em Atos 15:9 onde Pedro deixa claro que Deus não faz
distinção entre judeus e gentios no que diz respeito a salvação.
b. O ato de fazer distinção implica em “discernir” que é
definido pelo Dicionário Aurélio Século XXI como: Conhecer distintamente;
perceber claro por qualquer dos sentidos; apreciar; distinguir; discriminar. É
neste sentido que
diakrinw - diakrino
é utilizado, por exemplo, em I
Coríntios 11:31 onde Paulo diz que se nos julgássemos a nós mesmos não seríamos
julgados (pelo
Senhor). O que Paulo está dizendo neste versículo é que precisamos discernir (conhecer
distintamente) nossa verdadeira condição diante do Senhor. Para alcançar este objetivo nós temos que nos julgar a nós mesmos. O mesmo
sentido aparece em I
Coríntios 14:29 onde os profetas têm a obrigação de julgar uns aos outros
visando discernir exatamente o que é procedente do Espírito
Santo.
c. diakrinw - diakrino é usado em I
Coríntios 6:5 para indicar a capacidade de “arbitrar” entre os irmãos
mediante o uso das capacidades de discernir ou discriminar.
d. A mesma palavra é usada para indicar a distin