Inferno (MC)
Capítulo - I
Rudolf Bultmann, um dos mais
famosos teólogos do século XX, considerava que a linguagem
da Bíblia, vazada em termos mitológicos, não diz nada ao homem moderno, homem
das ciências e das técnicas. Falar em Ascensão, Céu, Inferno, pecado, salvação
é falar de categorias que o homem do mundo moderno não consegue compreender
Para esse teólogo, a linguagem bíblica tem de ser vertida na linguagem da
filosofia do mundo moderno – que Bultmann aceitou ser
o existencialismo do seu tempo. A esse processo teológico para interpretar “os
mitos” da Bíblia chamou “desmitologização”.E escreveu:
“Desmitologizar não significa, porém, recusar a Escritura e a mensagem
cristã em seu todo, mas eliminar a visão bíblica do mundo, visão caduca, por
demais conservada na dogmática e na pregação da Igreja. Desmitologizar
resume-se então em recusar a ideia de que a mensagem escriturística
e eclesial se ache ligada a uma visão do mundo antiga
e desusada”.
Sublinhe-se desde já que falar em
“linguagem mitológica” não significa falar em linguagem fantasiosa ou
mentirosa. O mito é uma forma de estilo que fala de realidades concretas que é
preciso decifrar. Bultmann foi um sábio cristão
piedoso e sincero que acreditava com firmeza no ensino do Antigo e do Novo
Testamento, e apenas estava interessado em tornar esse ensino acessível ao
homem do seu tempo, o homem secularizado para quem a Bíblia nada diz, embora
seja de importância fundamental a mensagem por ela transmitida.
O que Bultmann
não podia suspeitar (nem, em verdade, nenhum dos seus contemporâneos podia) era
que poucas décadas depois da sua morte (1976) o mundo esteja a ser varrido por
uma onda de fundamentalismo religioso que volta a usar com toda a tranquilidade
os conceitos tradicionais, incluindo a ideia do inferno que tanta popularidade
teve na Idade Média.
A “visão antiga do mundo” a que Bultmann faz referência, e que encontramos explícita ou
implicitamente desde a primeira página da Bíblia, consiste, desde logo, em
referir-se a um “universo de três andares ou patamares”. No andar do
rés-do-chão está o mundo terrestre que é este mundo em que se encontra o
homem, uma terra plana na visão bíblica, sobre a qual se ergue o mundo
celeste, o mundo habitado por Deus e seus anjos, onde, algumas almas
próximas de Deus são recebidas (Moisés, Enoque,
Elias, e depois Jesus Cristo). Abaixo do rés-do-chão fica o mundo inferior,
o lugar dos mortos, o Sheol na língua hebraica, Hades no grego, e a que tradicionalmente se chama Inferno
ou Infernos. Observe-se como na Bíblia e na linguagem popular falamos em “subir
ao Céu” (o céu lá em cima) e “descer ao Inferno, o Hades
em baixo dos nossos pés.
É com esta visão do mundo que Jesus
ensina e ensinam depois os apóstolos. Jesus conta a parábola do rico e de
Lázaro com essa visão: depois da morte, o homem vai para “o seio de Abraão” ou
vai para o Hades (Inferno). O “seio de Abraão” é um
lugar aprazível, de felicidade, e o Inferno é um lugar de tormentos Lucas
16:19/31 .
Capítulo - II
Não se pode deixar de reconhecer a
dificuldade do homem moderno para lidar com as imagens bíblicas. Requerendo-se
a aceitação literal dessa linguagem está-se a tornar mais difícil ao homem a
aceitação da mensagem cristã. Mas é já claro que não é a filosofia que nos pode
ajudar a compreender a mensagem do Antigo e do Novo Testamento. Continua a ser
importante, como o era para Pascal, perceber que o Deus da Bíblia NÃO é o Deus
dos filósofos mas é o Deus de Abraão de Isaac e de Jacob, ou seja, o Deus da
revelação bíblica – mas é igualmente importante perceber que os conceitos
bíblicos não têm que ser tomados à letra. Eles referem-se a realidades, mas não
podemos “traduzir” a Bíblia em termos diferentes; não há modo seguro de nos
dispensarmos desses conceitos. Por exemplo: não é possível pensar na Ascensão
de Cristo como uma viagem para as nuvens, como se Cristo tivesse sido um
astronauta, mas sem deixar a palavra Ascensão, podemos ver aí a mensagem da
entronização de Cristo. E ainda: falando em “entronização”, não se tome à letra
que Ele se senta num trono colocado algures no Céu, como acreditava a imagética
da Idade Média, mas falamos da sua glorificação. Com esta interpretação não
negamos as imagens tradicionais mas usamo-las para dizer a mesma verdade ao
homem contemporâneo e desta maneira possibilitar a sua adesão à fé. Se
percebemos instintivamente que, quando Cristo diz: “Se
o teu olho direito te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti” Mateus
5:29, trata-se de um falar metafórico, porque não aceitar como expressões
metafóricas ou simbólicas outras passagens da Bíblia? Falou-se muito, pelos
anos 1960, do dito de um famoso político soviético que teria afirmado, depois
da primeira viagem dos astronautas daquele país:”Os nossos astronautas
voaram até milhares e milhares de quilómetros e não encontraram nem céu, nem
Deus nem anjos”. Se o político disse mesmo essas palavras isso prova que
uma linguagem literal sobre conceitos da fé bíblica é prova de uma grande
pobreza cultural. Mas é culpa dos cristãos tradicionalistas que não querem
aceitar o facto de que a Bíblia foi escrita ao longo de milhares de anos e
dirigia-se inicialmente a povos de culturas e com uma ciência totalmente
diferentes das nossas. Falar do Céu ou do Paraíso não nos obriga a ver aí uma
espécie de quinta murada, com os respectivos portões; mas sabemos que é falar
de uma realidade que ultrapassa todos os nossos conhecimentos actuais, sobre a
qual não é legítimo especular. O mesmo devemos dizer do Inferno..
Nos tempos antigos, especialmente na Idade Média, havia a tendência de
concretizar muito os conceitos religiosos – daí dizer-se que “objectivavam”” os
conceitos – como se pode ver na ideia que se tinha da graça de Deus, que era
vista como uma espécie de fluído vindo de Deus e não como a expressão da Sua
misericórdia, e como se vê na formulação da Eucaristia, onde a Presença de
Cristo é vista materialmente no pão e no vinho.
Capítulo - III
O Inferno não é o tal lugar descrito
pelo ensino catequético das Igrejas ao longo dos
séculos, mas é a palavra que a Escritura usa para referir uma realidade grave e
terrível que faz parte da mensagem cristã. É verdade que as Igrejas ficaram
desacreditadas por causa da exploração do medo dos homens que faziam com a
ideia do Inferno, mas não será por causa desse erro que devemos abandonar tal
ensino e deixá-lo nas mãos das seitas religiosas que continuam a aterrorizar os
povos com a ameaça das chamas do Inferno. Embora as Sagradas Escrituras sejam
muito lacónicas sobre este tema (o Antigo Testamento fala do “lugar dos
mortos”, sem pormenorizar; o Novo Testamento refere o Inferno mais vezes, mas
também sem muitas explicações), é absolutamente necessário reconhecer essa
parte sombria da existência. O Credo Apostólico, fundamentado na Bíblia, diz
que Jesus Cristo “desceu aos Infernos” e em I
Pedro 3:19/20 lemos sobre Cristo que “foi e
pregou aos espíritos em prisão, os quais noutros tempos foram rebeldes”.
Os “espíritos em prisão” são os mortos.
A tentação é optar pelo “aniquilacionismo”
e dizer que a ideia de um Deus que em Jesus Cristo se revela como Amor, não se
harmoniza com a ideia da existência de um “lugar de tormento eterno”. Portanto,
para harmonizar estas ideias, seria melhor a crença de que o maior castigo que
Deus podia dar seria simplesmente pôr fim às “almas dos não salvos”. Essa
crença teria a vantagem de encontrar pelo menos alguns textos bíblicos que a
apoiasse. De facto, Apocalipse
2:11 e Apocalipse
20:6 falam da “segunda morte”, como destinação dos que não recebem o perdão
final de Deus. A interpretação que alguns fazem desta expressão “segunda morte”
é a de que no fim do Julgamento Final os que em absoluto não pudessem ter
acesso ao Céu seriam aniquilados por Deus com uma morte definitiva. Mas o mesmo
livro de Apocalipse refere-se à segunda morte e explica ser a participação no “lago que arde com fogo e enxofre”. Portanto o
que poderemos dizer é que não se trata do aniquilamento do pecador, mas da sua total
separação de Deus. O Inferno é a separação de Deus. Não precisamos de tomar à
letra as imagens bíblicas sobre o Inferno e crer que há nele um lago com
enxofre, mas o que o conceito tem de actual é a crença num outro destino para
os não salvos.
É isto conciliável com a revelação de
Deus como Amor? Dizemos que o Absoluto Amor é absoluto perdão mas esquecemos que
Jesus Cristo afirmou que todo o pecado e blasfémia serão perdoados menos o
pecado contra o Espírito Santo: “Se alguém falar
contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no outro”
Mateus
12:30/31. Os “não salvos” a que se destina o Inferno não são os simples
pecadores ou os que não são cristãos, mas são os que “falam contra o Espírito
Santo”, que o contexto de Marcos
3:20/29 mostra serem os que negam as evidências do amor de Deus, os que se
recusam a ver as obras de Deus. Um padre católico francês que veio a abandonar
o sacerdócio, Louis Evely,
escreveu estas palavras, com as quais concordo inteiramente: “O pecado
fundamental do homem está no seu medo, no seu ódio, na sua repulsa a Deus. O
pior pecado não é o de se reconhecer incapaz de cumprir os mandamentos. É dizer
a Deus: «Tu não me interessas; desejo ignorar-te e que me deixes em paz. Não me
sinto bem, senão onde tu não estás. Arranjar-me-ei como puder, mas sem ti». O
pior pecado que muitos cometem contra Deus é talvez o desejo de não mais pecar
para não precisar mais de se socorrer do seu perdão”. Louis
Evaly é mais radical na “desmitologização” do que
creio dever ser-se, mas estou inteiramente de acordo com ele neste pensamento,
que nos mostra como a existência do Inferno não só é conciliável a ideia do
Deus de Amor como mostra que essa existência se impõe para percebermos que o
Absoluto Amor tem de aceitar absolutamente a vontade do outro. O verdadeiro
amor respeita a liberdade do outro. E é o homem quem escolhe o seu destino eterno.
A expressão máxima da dignidade humana é o seu direito, dado pelo Criador, de
dizer “sim” ou dizer “não” ao mesmo Criador. Os artistas, ao longo dos séculos,
fizeram representações minuciosas sobre o Inferno, com destaque para Hieronymus Bosh. Os pregadores
aterraram as audiências com descrições minuciosas dos tormentos que ali se
passavam – mas, afastados desses tempos de trágicas concepções, interessa hoje
usarmos de prudente laconismo ao falar do Inferno. O importante é anunciar a
Boa Nova de que em Jesus Cristo temos acesso ao perdão de Deus e à vida eterna.
O que a pregação cristã deve fazer é proclamar que em Jesus Cristo é o
Salvador. Quando entramos numa casa que está mergulhada em trevas não nos pomos
a atacar as trevas, tentando varrê-las para a rua. O que fazemos é abrir as
janelas para que a luz ilumine a casa – ou ligamos o interruptor que nos dará a
luz eléctrica. O importante é, como cristãos, anunciarmos por palavras e actos
que Jesus Cristo é a Luz que ilumina o mundo João
8:12.
No Antigo Testamento a ideia do Inferno
(Sheol) é ainda muito vaga. Há claramente uma
evolução na revelação divina, evolução que alcança o seu ponto mais alto em
Jesus Cristo, mas é já no livro de Deuteronómio que encontramos estas palavras
solenes da parte de Deus: “Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra
vós que vos tenho proposta a vida e a morte, a bênção
e a maldição. Escolhe, pois, a vida para que vivas, tu e a tua descendência,
amando ao Senhor, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e chegando-te a ele; pois
ele é a tua vida e a longura dos teus dias; para que
fiques na terra que o Senhor jurou aos teus pais, a Abraão a Isaque e a Jacob,
que lhes havia de dar” Deuteronómio
30:19/20
Junho de 2008
Comentários
Comparo as boas exegeses bíblicas como quadros
de um destro pintor, o irmão Pedro com certeza tem os sentidos aguçados tal
qual Monet ou Van Gogh, sua obra intitulada "Inferno" é de uma
sagacidade singular, me ocupo e preocupo em como conduzir as pessoas do físico
ao abstracto, do material ao celestial, há uma resistência por parte dos menos
esclarecidos, louvo à Deus pela vida e esclarecimento dado aos irmão Pedro,
Parabéns.