Igreja Cristã virtuosa; quem a achará? (DO)
1) Introdução.
Não
tenho intenção de achar a igreja “ideal”, pois esta não existe; mas apontar, de
maneira isenta, para aquela que tenha as características que a meu ver, mais se
aproxima das palavras de seus primitivos idealizadores,
e manifestar o meu desejo, mesmo que subconsciente, de encontrar uma igreja
mais próxima da Verdade. Isso está sendo uma utopia para mim.
Cristo
não deixou nenhum modelo de organização religiosa; pelo contrário, desfez,
atacando p’ra valer o existente em seu tempo de
encarnação. Tudo o que existe veio depois de sua morte e ressurreição. Ao longo
dos séculos, a chamada igreja cristã sofreu, por intervenções humanas, todas as
transformações possíveis, até chegar nos modelos atuais.
A
partir do Pentecostes, a Igreja passa a ser dirigida pelos “Pais da igreja”;
homens que receberam as instruções diretamente de
Cristo e as passaram para a primeira geração de discípulos de mestres humanos.
Na
época dos apóstolos, as comunidades cristãs eram locais e independentes, unidas
apenas na fé em Cristo e seu evangelho. Sua liderança era composta pelo
Espírito Santo que capacitava os líderes locais a conduzir as respectivas
comunidades a difundir com intrepidez o reino de Deus. Um bispo, diáconos e um
número limitado de anciãos compunham a liderança local, sem subordinação ou
dependência entre as igrejas e as comunidades cristãs. Portanto, as comunidades
compartilhavam apenas uma unidade espiritual. Muitos cristãos consideravam
desnecessárias as igrejas como instituições organizadas. Enfatizavam que somos
todos “irmãos em Cristo” e não precisamos das estruturas orgânicas das igrejas.
Depois da primeira metade do século II a ênfase começou a recair sobre a
consolidação da igreja. Muitas heresias começaram a disseminar-se na igreja.
Face ao relaxamento que começou a verificar-se, e ao processo espontâneo de
auto consolidação, a igreja começou a hierarquizar-se. Os bispos, que haviam
sido responsáveis (administradores) da comunidade local, começaram a
despontarem-se como sacerdotes
monárquicos. Isto levou ao surgimento da estrutura hierárquica da igreja, isto é, um sistema em que o corpo sacerdotal é dividido em ordens,
cada um subordinado a outro acima dele. Bispo, diáconos e anciãos começaram a
serem vistos como ministérios subalternos (hierarquia) e a maioria dos crentes
como simples leigos (povo). (História da Igreja, por Zakeu
A. Zengo).
Este
texto não trata da verdadeira Igreja de Cristo, organismo vivo, que está na
terra; pois esta, necessariamente não tem lugar certo de adoração; pode estar
em nosso quarto de dormir, com a porta fechada. Trata-se das organizações
religiosas mesmo!
Muitas
vezes saímos, dos términos dos “cultos domingueiros” com aquela velha impressão
indecifrável: o que estamos fazendo aqui? O pior é que todo domingo precede uma
segunda feira!
Talvez
nosso erro seja querer o reino de Deus somente dentro dos templos feitos por
mãos humanas e um pouco do “divino” na carne dos pregadores. Talvez queiramos
somente o que é atraente: a mensagem da igreja (instituição religiosa) e de
seus representantes, na ilusão de conseguirmos suportes financeiros e sucessos
na vida social e familiar. (levar tudo o que possuímos e o que somos para o
céu).
Na
verdade não sei exatamente o que busco, mas com
certeza sei com mais exatidão o que não busco.
Porventura procuro
eu agora o favor dos homens, ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se
agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo. Gálatas
1:10.
2) Procuro uma
“igreja cristã” que não tenha “donos fundadores”.
O que
mais existe hoje são os “donos fundadores de igrejas”, que de igreja, nem nome
têm mais, “ministérios”, “comunidades”, “movimentos”, e tantos outros nomes de
fantasia mercadológica. São todas originariamente
semelhantes: saem de outras igrejas em que os seus fundadores brigaram com os
fundadores de lá, e para fazer jus ao brocardo: “dois
bicudos não se beijam”, um, “seca” o outro e praticamente o expulsa. Para
mostrar ao seu desafeto, o
expulsado leva consigo seus “correligionários”, e mostrará ao expulsor, que é capaz de montar um “movimento” ainda maior,
e assim nasce mais uma “igreja neopentecostal!”. A
cada briga de “bicudos”, quase sempre surge uma nova igreja e a cada nova
igreja; novas formas de se fazer “evangelicalismo”.
São
igrejas economicamente bem sucedidas. Aliás, no Brasil existe algumas classes
quase sempre diferenciadas, em termos de “prosperidade financeira”: políticos
corruptos e seus bajuladores; empresários corruptores; banqueiros; donos de
escolas particulares e donos fundadores de igrejas. É lucro certo!
As mega igrejas dispõem de serviços de propaganda muito
poderosos. Gostam de lidar com pessoas melhores instruídas, mas crianças ingênuas na Palavra e sem discernimento espiritual; são os
“velhos Nicodemos” que ainda não nasceram da água e do espírito, mas continuam
sendo “bons religiosos”. Porém a maioria é de pobre em todos os sentidos, que
querem se livrar da dificuldade financeira a todo custo e os “pastores, bispos
e apóstolos” são as suas tábuas de salvação. Quem passa por dificuldade
financeira é discriminado, incrédulo e infiel na lei dos dízimos; estes devem
fazer as famosas “campanhas” e “correntes” da prosperidade. Todos têm de
mostrar prosperidade, mesmo se não a tiverem, como numa grande companhia de
teatro macabro.
A
disciplina do “oficialato” é tão severa e hermética quanto num quartel do
exército e a hierarquia, mais impenetrável que este. São os senhores do poder,
os donos da verdade, os infalíveis e inacessíveis sacerdotes.
Não
precisamos de “heróis religiosos” e “intermediários de Deus na terra”; isso só
existe em cabecinhas de crianças e adolescentes na fé.
O
“apóstolo moderno” anda num carro importado de luxo; viaja muitas vezes ao
estrangeiro, disputando espaços no avião, com os grandes empresários. Comanda
todos os negócios do setor de comunicação, compras de
rádios, programas de televisão, imóveis e transações comerciais
etc. Seus salários são estipulados por eles mesmos e representam muitas vezes
mais de setenta salários mínimos e o pior é que sabem de muitos irmãos que
estão a passar dificuldades para sustentá-los! Não é difícil entender Mateus
7: 21/23: Nem
todo o que diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a
vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em
teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não
fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os
que praticais iniqüidade.
Os
espaços de reuniões (templos) devem ser bem grandes e luxuosos, para que caibam
milhares de seletas pessoas muito bem confortáveis.
Têm o
velho testamento, como os seus principais argumentos de que um cristão é
obrigado a “ser e parecer” um bem sucedido homem ou mulher de negócios, e
sempre investirá nisso, tendo a igreja e os “pastores” como os principais
“suportes”; uma espécie de assessoria e consultoria econômico-financeira-religiosa.
Como
não gosto de visitar “propriedades particulares”, a não ser de pouquíssimas
pessoas; então não me sinto bem num lugar desse. Com toda a tranqüilidade,
tenho certeza absoluta de que esta não é a “igreja virtuosa” que procuro;
aliás, uma igreja que me ofereça somente as coisas deste mundo, é a “mais pobre
de esperança” que poderia achar e seria o mais infeliz dos homens se me
contentasse com o que eles oferecem. O ministério de Cristo na terra foi bem
diferente deste glamour que vemos nessas grandes
organizações; é só conferir!
Vocês dizem: somos
ricos, estamos bem de vida e temos tudo o que precisamos. Mas não sabem que são
miseráveis, infelizes; nus e cegos. Apocalipse
3:17. (igreja de Laudiceia).
Pois muitos andam
entre nós, dos quais repetidas vezes eu vos dizia, e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo; o
destino deles é a perdição, o deus deles
é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia; visto que só se preocupam com as cousas
terrenas. Filipenses
3: 18/19.
3) Procuro uma
“igreja cristã” que não tenha “manda-chuvas”.
O
novo testamento nos ensina que liderar a igreja, não é o mesmo que liderar uma
Empresa ou qualquer outra instituição secular. Nem, todos têm essa capacidade;
isso não vem do homem. A igreja é um corpo comandado somente por uma cabeça,
que é Cristo. E
sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como
cabeça da igreja. Efésios
1:22.
Em
nenhuma parte do novo testamento, identifiquei alguém que me fizesse entender
que seria “o grande chefe ou líder” de alguma igreja. O homem mais indicado
para isso seria o grande “plantador” de igrejas, o apóstolo Paulo; mas segundo
as suas mensagens, isso fica muito distante de suas intenções.
Porque a mim me
parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos
condenados à morte; porque nos tornamos espetáculos
ao mundo, tanto a anjos, como a homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, e
vós sábios em Cristo; nós fracos, e vós fortes; vós nobres e nós desprezíveis. Até à presente hora sofremos fome, e sede,
e nudez, e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as próprias mãos. I
Coríntios 4: 9/12.
Toda
deliberação deve ter a “cara” de Jesus, o órgão pensante e decisório da igreja;
caso contrário, alguém, percebendo isto, deve se manifestar contra qualquer
intenção humana.
As
instruções do apóstolo Paulo são bastante claras e percebemos bem o seu
conceito do “ser apóstolo”: era um trabalho de pura doação, sacrifícios e
voluntariado. Queria a todo custo, manter a Igreja num nível de satisfação
muito acima do seu próprio; em linguagem popular, levava a Igreja às costas.
Algo muito diferente do que vemos agora, com os chamados “apóstolos modernos”,
que são “carregados” pelos bajuladores de plantão como heróis e salvadores da
pátria.
Aos presbíteros,
que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e
testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de
revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe
ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus,
mas servindo de exemplo ao rebanho. I
Pedro 5: 1/3.
4) Procuro uma
“igreja cristã” que não tenha uma pessoa somente na liderança.
E, promovendo-lhes
em cada igreja a eleição de presbíteros,
depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido. Atos 14:23.
No
novo testamento não há menção de que uma pessoa somente liderasse uma igreja.
Como pôde isso se tornar uma regra geral, se não é bíblico? Sempre, quando se
mencionava a liderança em determinado lugar, estava sempre no plural. E mesmo
nos grupos de líderes, não há menção de um “líder dos líderes”. Baseado nisto,
vejo que quanto maior (em número e qualidade) a liderança; melhores serão os
trabalhos realizados, pois haverá mais e melhores conselhos e evitaremos
“polarizações” ou disputas de preferências de líderes.
Olhai, pois, por
vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio
sangue. Atos 20:28.
Devemos
ter cuidados para não ficarmos à mercê de uma pessoa, que aos poucos quer
introduzir suas idiossincrasias e interesses pessoais, com manobras e
manipulações na congregação, visando se “perpetuar no poder” e no seu cargo
remunerado.
Meus irmãos, eu afirmo a vocês que o evangelho
que eu vos anuncio não é uma invenção
humana. Eu não recebi de ninguém, e ninguém o ensinou a mim, mas foi o
próprio Jesus Cristo que o revelou a mim. Gálatas 1:11/12.
Este é o tempo em que
existem muitos mestres “segundo os seus próprios desejos”. Contratam esses
“mestres” para ouvir somente coisas agradáveis ou aquelas que querem ouvir. Não
temos que ir à igreja para ouvir o que eles desejam para si; mas estamos
somente atrás das “palavras de vida” vindas de Cristo.
Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas
agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, não só
desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as
aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu
ministério. II Timóteo 4:3/5.
Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio
de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição
dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. Colossenses 2:8.
Não
devemos esquecer as instruções de Paulo em I
Timóteo 3:2: É
necessário, pois, que o bispo seja... apto
para ensinar. Não adianta muitos líderes, se estes não se
empenharem numa instrução fidedigna da Palavra. Deve-se, na igreja, sempre
incentivar e instituir o costume de estudar e pesquisar a Bíblia, não somente à
liderança, mas principalmente aos incautos, para que estes não fiquem “se
escorando” e dependendo em tudo da liderança e que possam caminhar com as suas
próprias pernas. A responsabilidade das coisas espirituais é pessoal.
Não havendo sábios
conselhos, o povo cai; mas na multidão de conselhos há segurança. Provérbios
11:14.
As pessoas precisam
compartilhar a Palavra. Precisamos externar para alguém o que compreendemos e
se o que entendemos, “bate” com o que os outros aprenderam. Quantos passam
décadas numa igreja, ouvindo somente uma pessoa? Chega-se a um nível tal que no
qüinquagésimo sermão de uma mesma passagem em que ele
vai pregar, já se sabe das suas “palavras de efeito” e de todos os exemplos de
seus amigos e de sua família até a quarta geração! Isso
é perda de tempo!
Numa igreja onde há somente
um líder, quantas vezes ele sobe ao púlpito por pura obrigação, ou
profissionalismo quando é pago? Simplesmente porque somente ele é que prega!
Sendo o líder, um ser
humano, logicamente haverá muitas ocasiões, em que não estará preparado para
proferir nenhum sermão ou qualquer tipo de aconselhamento. Será ele quem
precisará de uma palavra de ânimo, orientação, conselho, admoestação etc. Ninguém
é infalível! Quantos exemplos escandalosos de líderes! Por quê? Porque estão
sozinhos. Colocam-no num pedestal imaginário de infalibilidade em que não recebem
nenhum conselho ou suporte psicológico; são pagos somente para ajudar os outros
e quando erra, o povo cai matando em cima dele! Já vi muitos pastores caírem em
suas tentações, justamente porque estavam num pseudo nível espiritual que não
podiam suportar mais.
Instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a
sabedoria. Colossenses
3:16.
5) Procuro uma
“igreja cristã” que não
haja ninguém que tenha qualquer privilégio.
Segundo
a grande analogia de Paulo em I
Coríntios 12:12/27, sobre a diversidade dos dons espirituais, somos todos
membros do corpo de Cristo. Não há um membro mais importante que o outro; todos
têm as suas importâncias dentro deste corpo. É todos por um e um por todos;
todos os membros trabalham e nenhum fica parado ou não
há nenhum membro que trabalhe por todos ou mais que os
outros. Em Cristo, temos de ser uma unidade perfeita ou então não somos corpo
de Cristo!
Pelo contrário, os
membros do corpo que parecem ser mais fracos, são necessários, e os que parecem
ser menos dignos no corpo, a estes damos muito maior honra; também os que em
nós não são decorosos; revestimos de especial honra. Mas os nossos membros
nobres não têm necessidade disso (...) I
Coríntios 12:22/24.
Pois todos nós
fomos batizados em um Espírito, formando um corpo; quer judeus, quer gregos,
quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito. I
Coríntios 12:13.
É
comum ouvirmos dizer que em determinada igreja, quem viaja para participar de
conferências, principalmente no exterior ou no litoral onde existem bonitas
praias, são os da família da liderança. A melhor oportunidade de fazer um curso
promovido pela igreja; adivinha que vai? O filho do pastor fundador. Se a
igreja “precisa” de um jovem para se candidatar a um cargo político; quem vai?
Os melhores horários de apresentação de cânticos no culto, quem domina? As
famílias de melhor poder aquisitivo da igreja! Quem é mencionado mais vezes ao
microfone pelo pastor? Serão aqueles que têm os menores “dízimos”?
Se em
uma igreja existe alguém ou uma família, principalmente a liderança, que está
obtendo qualquer vantagem, posso dizer sem medo de errar que este corpo não é o
de Cristo; não quero participar dele, nem ser um membro seu!
6) Procuro uma “igreja Cristã” que “não pague”
ninguém para pregar.
“Ninguém, em nenhum lugar da Acaia, tirará de mim
este orgulho de anunciar o evangelho sem cobrar nada” (Paulo de Tarso).
Genericamente, o novo
testamento nos diz que não é conveniente uma pessoa fazer do evangelho, uma
“fonte de renda” para si e sua família. Isso, a meu ver, mudaria aquele
conceito do corpo de Cristo, em que todos os órgãos são importantes em suas
funções; não ficando as tarefas concentradas somente numa pessoa, que na
obrigação profissional, desempenha as funções que deveriam ser feitas por
todos. Terão os pastores, pastoras, bispos, bispas,
apóstolos e apóstolas modernos, mais galardões para
apresentar naquele dia? Porque realmente trabalham muito! Todos nós, teremos de prestar contas individualmente perante Cristo.
Será que alguém desses estará lá para nos defender?
Quando anunciei a vocês a boa notícia de Deus, fiz isso completamente de
graça. Eu me humilhei para engrandecer vocês. Será que houve algum mal nisso?
Enquanto estive trabalhando entre vocês, fui pago (recebi ajuda) por outras
igrejas. Por assim dizer, eu estava roubando delas para ajudar vocês. E,
durante o tempo em que estive com vocês, quando precisava de alguma coisa, não
incomodava ninguém; pois os irmãos que vieram da Macedônia
me trouxeram tudo o que eu precisava. O
que aconteceu no passado e acontecerá no futuro é isto: eu nunca exigirei que
vocês me ajudem. Pela verdade de Cristo, a qual está em mim, eu garanto que
ninguém, em nenhum lugar da Acaia, tirará de mim este orgulho de anunciar o
evangelho sem cobrar nada. II Coríntios 11:7/10. (nova tradução da linguagem de
hoje)
Aparecem: regalias,
mordomias, disputas internas e, claro, a busca sempre, por uma melhor (no
sentido econômico) igreja; um maior salário; uma
melhor cidade; uma melhor escola para os filhos; uma melhor faculdade para a
esposa terminar o seu curso etc. A “teologia” dessas igrejas é uma série de
“adaptações” feitas pelo líder, durante todo o tempo de seu contrato. Outra
preocupação, é que esse “líder único”, sendo um empregado da igreja, estará
sempre preocupado em “mostrar serviço” para os “homens” da congregação,
distanciando-se cada vez mais de Deus em favor de seu ganha
pão e qualidade de vida de sua família, o que em outros contextos seria
muito normal. É o capitalismo exercido pelo clérigo, misturado à busca das
necessidades espirituais da congregação. Depois de cada reeleição do líder
(geralmente são reeleitos), existem os descontentes; aqueles que o queriam bem
longe da igreja; agora terão de aturá-lo por mais um longo mandato. O evangelho
do reino fica “laivado” pelo evangelho de atitudes
sociais e profissionais; não tem nada a ver; é uma anomalia na igreja! A mensagem do evangelho torna-se apenas
“boas receitas do bem viver”, com uma frivolidade espiritual total. Desculpem
aqueles que, no sentido moderno, “vivem do evangelho”; vocês sabem do que estou
falando.
O conceito de “salário”,
para o apóstolo Paulo, estava voltado para o sustento; mantimento; e ajudas de
envio de primeiras necessidades às pessoas que estavam fora de seu domicilio
(viagens), o que eu acho muito justo. Nem
sempre Paulo recebia doações e às
vezes passava necessidades; isso indica que não havia um “contrato de trabalho”
com aquelas igrejas. Afirmava sempre, que trabalhava duro para se sustentar e a
seus colaboradores. Tinha uma profissão certa, como todos os homens devem ter.
E (Paulo) acabou ficando ali para trabalhar com eles, porque a profissão
de Paulo e a deles era a mesma, isto é, fazer barracas. E todos os sábados ele falava na sinagoga e procurava convencer os judeus e os não-judeus. Atos 18:3/4.
Não digo que uma pessoa
seja “proibida” de receber salários da igreja; se uma igreja quer e pode pagar,
que pague, mas afirmo que é muito inconveniente e procuro uma que não tenha
esses privilégios e anomalias; acho que temos esse direito, para o nosso bem
espiritual.
Então, quem é que
capaz de realizar um trabalho como esse? Nós não somos como muitas pessoas que entregam a mensagem de Deus como se estivessem fazendo um negócio
qualquer. Pelo contrário, foi Deus quem nos enviou, e por isso anunciamos a
sua mensagem com sinceridade na presença dele, como mensageiros de Cristo. II
Coríntios 2:17. (nova tradução na linguagem de hoje).
7) Procuro uma
“igreja Cristã” que não “engarrafe” a Palavra.
Cristo, em sua humanidade,
era de diálogos abertos; sempre estava pronto para responder às perguntas de
qualquer pessoa e quase todas as suas explanações eram originárias de perguntas
que lhe faziam. Não há uma melhor maneira de saber o nível de aproveitamento do
ouvinte, senão pelos seus questionamentos. Ficar calado, nem sempre significa
consentir com tudo o que se ouve. Quantas igrejas existem, em que o questionar
é algo tão assustador como pedir aumento de salário a um chefe bravo!
Ainda existe um pouco de
medo da “fogueira da inquisição” da idade média! Por incrível que pareça, ser
chamado de incrédulo, endemoninhado, possesso, carnal, excomungado etc são as
grandes fobias dos crentes ainda hoje! E muitos daqueles que estão com o
microfone e debaixo dos holofotes, gostam de humilhar alguns mais corajosos,
quando estes fazem perguntas que vão de encontro aos seus interesses
pessoais!
Semelhantemente à cultura
do Islão, existe uma cultura do “não questionar” na igreja cristã. Segundo o escritor
sociólogo, Moisés Espírito Santo em seu livro “Os Mouros Fatimidas”,
página 107: “as divergências das minorias só poderão exprimir-se sob a forma de
heresia. Toda a divergência política ou cultural assume a forma de heresia.
Todos os sectários têm isto em comum: aderem ao princípio segundo o qual a religião não é mais do que a
obediência a um chefe e em função disso encontram uma interpretação
alegórica para toda a prescrição da lei religiosa”.
É
comum observarmos em quase todas as igrejas, redutos de doutrinas, regras de
fé, teologias e costumes fabricados lá dentro, para serem enclausurados em seus
templos, à semelhança dos mosteiros. Forma-se verdadeiros
mestres dessas “escolas particulares de interpretações”. A verdade do
Evangelho se fragmenta em inúmeras verdades. A partir do momento em que se
“invente” uma novidade doutrinal, todos se dispõem a defendê-la, como a
partidos políticos e times de futebol. Cada qual se
diz dono da sua verdade e aí daquele que se atreve a contestá-la!
Pelo qual estou
sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está
algemada. II
Timóteo 2:9.
8) Procuro uma
“igreja cristã” que “Viva” somente no segundo sacerdócio.
O
cristianismo nasceu com os judeus. Os primeiros cristãos eram judaizantes; uma
casta de profundas influências, costumes e tradições que trouxe muitos atrasos
à disseminação do evangelho após o pentecostes. Prova
disso, é a grande luta do apóstolo Paulo com os gálatas, por volta do ano 55
AD: Recebestes o
Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? Gálatas
3:2. A tradição judaica estava falando mais alto que a pregação da fé. O
escritor aos Hebreus gasta todo o seu tempo para convencê-los de que a
revelação cristã é superior à velha aliança; e isso se deu por volta do ano 68
AD.
“Ora,
o primeiríssimo cristianismo se congrega em boa parte da fala aramaica e a
Igreja primitiva permaneceu por muito tempo seriamente comprometida com a
sociedade judaica.” (História da Igreja, por Zakeu A.
Zengo).
O
velho testamento é muito atraente! Todos os homens “abençoados” eram bastante
ricos e respeitados. A punição era imediata para quem ousasse contra os
“ungidos”. Não ser judeu naquela época, era o mesmo que ser índio em filmes americanos.
Riquezas eram sinônimos de bênçãos, que eram
mensuradas pelas cabeças de jumentos, ovelhas, bois, camelos, escravos,
mulheres e concubinas. Tudo isso constitui aquilo que o homem sempre procurou:
riquezas; egoísmo; orgulho; poder; influências; autoridade; reconhecimentos; suntuosidades e tudo que pertencente ao mundo e à carne.
No
novo testamento não há nada disso; Cristo foi passiva e covardemente
assassinado porque ameaçava “os esquemas” dos religiosos da época, pregando
somente a vitória pelo amor e os desprendimentos desta vida terrena. Como prova
de ab-rogação e mudança total da antiga lei, Ele
dizia: Ouvistes
que foi dito (na velha lei), eu porém vos digo.
Os
apóstolos foram anti-heróis e viraram mártires. A maioria dos
crentes eram pessoas pobres, humildes, cegos, coxos e leprosos. Mateus
11:3/5. Há coisa mais repulsiva que amar os nossos inimigos? E o
ensinamento do “não acumular riquezas”, em regime capitalista?
Porque nada temos
trazido para o mundo, nem cousa alguma podemos levar dele; tendo sustento e com que nos vestir,
estejamos contentes. I
Timóteo 6:7/8. Há atração em todos esses
paradoxos do evangelho?
Procuro
uma igreja que viva justa e somente no segundo sacerdócio (de Cristo). Que não
faça do velho testamento um verdadeiro “canivete suíço” de utilidades para
aplicação na igreja, de fatos e exemplos que muitas vezes são totalmente
estranhos, e de parcos conteúdos históricos.
Procuro
uma igreja que não tenha costume de “ir buscar” nenhuma lei do velho testamento
ou costume proveniente dela, para aplicá-la como solução de algum problema para
os indivíduos e para a igreja. Devemos saber que se tentarmos guardar um só
ponto do livro da lei, involuntariamente declaramos que Cristo não morreu por
nós e desta forma lançamos fora a obra de Cristo.
Eis que eu, Paulo,
vos digo que, se vos deixardes circuncidar (etc.), Cristo de nada vos
aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar
(etc.), que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós
os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído. Gálatas
5:2/4. (guarda-se todas as leis ou não se guarda nenhuma).
A
igreja deve ter consciência do tempo bíblico em que está vivendo e isso é
tarefa de seus líderes. Se estes colocarem-na em um
tempo que não é o dela; suas intenções serão meramente humanas. Não sejamos tão
ingênuos!
É
vontade de Deus Pai, que nos contentemos somente com o segundo sacerdócio de
Seu filho.
Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus,
a tua vontade. Tira o primeiro, para
estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação
do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez. Hebreus
10:9/10.
9) Por que procuro
uma igreja melhor?
Não
saio fisicamente a procurar nenhuma igreja melhor; isso está em meu
inconsciente há muito tempo. Não sou inimigo de nenhum líder religioso, nem
briguei com nenhuma denominação. Todos estamos a procura de coisas melhores
para nós; isso é algo salutar e necessário. Temos de progredir em todas as
áreas de nossa vida. Na área espiritual, temos de nos mover também em direção progressiva, para frente e para o alvo que é
Cristo.
Quanto
mais examino Cristo e seu evangelho, mais me distancio destes conceitos
modernos e ultra-retrógrados veterotestamentaristas
de igreja cristã. Não sou melhor que ninguém e todos aqueles que se dispõem, a
aprender mais e mais a Palavra, sem querer “terceiriza-la”,
estão do meu lado, tenho certeza disso.
Quero
ressaltar que existem algumas organizações próximas do ideal, porém ainda com
algumas falhas do homem, que precisam ser concertadas. Espero que avancem ainda
mais.
Conferir
na bíblia, se o que estão dizendo é verdade; e não há nenhuma segunda intenção;
é uma questão de sobriedade, prudência e inteligência.
Enquanto
não compreendermos que a responsabilidade é individual e pessoal, não mudaremos
o que estão fazendo com a Igreja de Cristo e os detentores dos poderes
religiosos dançam de alegrias às custas dos incautos da Palavra. Isso é
discernimento espiritual; então é coisa do Espírito. Busquemo-lo.
10) O movimento dos
“sem igrejas” rumo à palavra original.
Há no
Brasil, não sei se no mundo, o fenômeno dos “sem
igrejas”. Não são pessoas incrédulas, desviadas ou em pecado. São pessoas
inconformadas com os rumos tomados por suas igrejas; decidiram desligar-se ou
foram praticamente excomungados de suas instituições, por discordarem das
intenções humanas no corpo de Cristo. Como o homem é gregário por natureza,
inevitavelmente este grupo está se juntando, não para fazer surgir mais uma
igreja (igreja dos sem igreja, ou igreja sem placa), mas querem voltar ao
Pentecostes e à pregação de Cristo e dos apóstolos. Espero que saibam como
recomeçar tudo de novo. Diálogos fechados, centralizações egoísticas, sectarismos e tantos outros vícios comentados acima, devem
ser evitados. A principal intenção é identificar os erros através da história
da Igreja e voltar à Palavra original, sem que para isso haja os Esdras e os Neemias modernos.
Espero que seja realmente uma verdadeira restauração e avivamento espiritual,
talvez como preparação para a volta de Cristo e não o começo de mais um novo
ciclo, em que a mão do homem vá prevalecendo progressivamente. Que Cristo
cresça e o homem desapareça!
David de Oliveira
– outubro de 2005.