Fé
(CC)
1. Significado da fé na
linguagem comum
Penso que a palavra fé, na linguagem comum significa, a
confiança em alguma coisa que não se pode provar inteiramente pela lógica do
nosso conhecimento ou raciocínio, mas em que as lacunas que não permitem essa
demonstração puramente racional, são colmatadas por outros meios, como a nossa
experiência pessoal ou de outros, e em que não está alheia a nossa vontade de
aceitar essa confiança.
No ambiente religioso, a palavra fé tem sido muito
maltratada. É muitas vezes utilizada para encobrir toda a nossa desorganização.
Quando há atitudes impensadas e precipitadas, é vulgar ouvirmos dizer, “temos de ter fé”, o que leva muita gente
a identificar a fé com a desorganização, a falta de planificação e de certa
maneira uma atitude contrária à organização e ao raciocínio, ou uma atitude a
rejeitar por pessoas de certa cultura.
Penso que não é possível definir o que é a fé, o que no
entanto, não é impedimento a que se possa meditar sobre a fé.
Por um lado a fé não se pode considerar como uma atitude
tipicamente racional, mas também não é uma atitude simplesmente emocional.
Penso que é uma emoção que não prescinde do nosso intelecto até onde ele nos
possa ajudar e tem também alguma coisa de instintiva, parece que o ser humano
está “programado” para ter fé, embora o raciocínio puro e simples a rejeite.
2. Fé segundo a Bíblia
A palavra fé ou o
verbo crer, aparecem na Bíblia em
muitas dezenas de passagens, a maior parte no Novo Testamento. Não nos foi
possível ler todas as passagens e muito menos mencioná-las, mas seleccionamos
as que nos pareceram mais significativas por apresentarem a fé vista por um
prisma diferente.
2.1. Fé no Antigo Testamento
No Velho Testamento a fé surge como uma resposta do povo de
Israel ao Deus que o escolheu para seu povo.
A palavra fé que
aparece no Antigo Testamento é tradução de duas palavras em hebraico: A palavra
aman que dava ênfase à certeza, à firmeza, e
que deu origem à nossa palavra amem Deuteronómio
27:15/26, e a palavra batah que significava confiança. Como verbo é muitas vezes traduzida por
crer, confiar, esperar: Salmo
4:5 ...confiai no Senhor, Salmo
25:2 ..em ti
confio..., Salmo
55:23 (vr.24 noutras traduções) ...mas eu em ti confiarei. No entanto, o exemplo
máximo de fé no Antigo Testamento pode-se considerar o caso de Abraão Génesis
15:6 E creu
ele no Senhor... Todos conhecemos a história de Abraão e as provas
de fé a que Deus o sujeitou.
Um dos casos que considero dos melhores exemplos de fé do
Antigo Testamento está em Esdras
8:21/22ss quando Esdras recusa a ajuda militar da Babilónia. No entanto,
Esdras não era nenhum ingénuo. Ele programou tudo o melhor possível, estava
consciente dos perigos que corria, fez tudo o que estava ao seu alcance e só
depois de esgotados todos os seus recursos é que pediu ao Senhor que o ajudasse
naquilo que estava para além das suas possibilidades. É bem diferente daquilo a
que nos nossos dias, por vezes, chamamos fé.
2.2. Fé no Novo Testamento
As primeiras referências à fé no Novo Testamento encontram-se
na proclamação por Jesus do Reino de Deus Marcos
1:15 ...Arrependei-vos
e crede no Evangelho. Portanto, a fé seria como que a aceitação do
Reino de Deus.
Uma das características que se notam na fé neotestamentária
é que enquanto no Velho Testamento, Deus era o objecto da fé, no Novo
Testamento a fé em Cristo é identificada com a fé em Deus.
Embora tenhamos optado, por motivos didácticos, em meditar
na fé no Velho e no Novo Testamento, penso que será conveniente afirmar que esta divisão não é rígida. Assim,
vemos em toda a Bíblia como que uma evolução do conceito da fé.
Parece que inicialmente, no tempo de Abraão (1900 anos antes
de Cristo), e principalmente no tempo de Moisés (1200 anos antes de Cristo), a
fé se manifestava no cumprimento dos rituais da Velha Lei. Já no tempo de
Isaías, só cinco séculos antes do nascimento de Jesus Cristo, noto que o
conceito de fé estava mais desenvolvido, principalmente em Isaías
1:11/17, pois o Senhor rejeita os sacrifícios que eram efectuados segundo todas
as normas e rituais veterotestamentários, mostrando assim que não basta o
ritual sem o seu significado espiritual.
Penso que a revelação do Senhor através das Escrituras e dos
Profetas, tem sido sempre a revelação possível. Não possível para Deus,
evidentemente, mas possível de ser entendida pelo homem. No tempo de Moisés, a
um povo de escravos habituado a viver sob o chicote, não se lhe podia exigir
mais que o cumprimento do ritual, mas já no tempo de Isaías o conceito de fé
era mais importante do que o ritual.
É no entanto no Novo Testamento e nos ensinos de Jesus que a
fé se torna condição principal para a sua actuação.
Segundo podemos concluir por Mateus
9:2 E Jesus,
vendo a fé deles... ou Mateus
9:22 ...Tem
ânimo, filha, a tua fé te salvou., ou Mateus
9:29 ....
Seja-vos feito segundo a vossa fé, os milagres de Jesus exigem fé.
Jesus chegou até a afirmar em Marcos
9:23 ..Se tu
podes crer, tudo é possível ao que crê.
Podemos ver também o contrário em Marcos
6:5/6. Parece que a incredulidade ou a falta de fé impediu ou pelo menos
prejudicou a acção de Jesus.
É no entanto importante afirmar que não é a fé que faz o
milagre, mas o poder e a vontade de Deus, actuando a fé somente como um meio
receptor do poder divino.
Em Marcos
4:10/12 embora não apareça a palavra fé, julgo que esta é a condição para
se compreender os ensinos de Jesus, pois é a fé que faz com que Jesus se revele
a uns e fique encoberto a outros.
Segundo Lucas
8:12 ...para
que se não salvem, crendo, a crença ou a fé é condição necessária
para a salvação.
Em Marcos
16:16 Quem
crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. Vemos
que a fé é condição necessária à salvação.
No pensamento de Paulo a fé tem um lugar central,
principalmente nas cartas aos Romanos e Gálatas. Para Paulo, a fé está intimamente
relacionada com a fidelidade II
Tessalonicenses 1:4 e II
Timóteo 4:7 e a convicção Romanos
14:23
Uma das passagens mais importantes que Paulo nos deixou
encontra-se em Romanos
10:1/17 onde podemos ver que a fé pressupõe a revelação que a antecede num
contexto de arrependimento.
Penso que uma das razões do fracasso de muitas das igrejas
dos nossos dias é que falta a coragem do pregador para falar na condenação do
homem, não havendo pois motivo para arrependimento, e Cristo é apresentado como
uma espécie de Pai Natal para entreter as crianças.
Paulo é bem claro ao anunciar a perdição eterna do homem,
judeu ou gentio, e o único caminho para Deus através da fé no Cristo
crucificado. Como podemos ver no vr.17, a fé não vem pelo nascimento ou pelo
batismo ou outro qualquer ritual, mas vem pelo ouvir (aceitar) a palavra de
Deus, quando se trata da genuína mensagem de Jesus.
Outro aspecto muito importante da fé segundo Paulo é como
meio de justificação, isto é, a justificação pela fé, em oposição à
justificação pelas obras de Lei. Romanos
3:21/28.
Em Hebreus
11:1 encontramos a única passagem que por vezes tem sido apresentada como
uma definição de fé. No entanto, examinando o seu contexto, julgo que não se
trata duma definição tal como hoje a entendemos, mas uma exortação aos leitores
desta carta para uma atitude de firmeza e confiança, pois sem essa atitude não
é possível agradar a Deus.
Na carta de Tiago, se examinarmos os versículos
isoladamente, irá parecer que há um significado de fé oposto à ideia de Paulo, Tiago
2:24. No entanto, Tiago refere-se à “fé teórica” ou “fé de salão de cultos”
que é fruto da superficialidade, ignorância e dum “arrependimento litúrgico”
que nada tem a ver com a genuína conversão a Cristo.
Há ainda outras passagens, em especial em João, em que o
verbo crer é substituído pelo seu significado, como por exemplo crer = ouvir João
5:25 e João
6:60, bem como, crer = ir a Jesus João
5:40.
Camilo
– Marinha Grande
Novembro de 2006.