ESPÍRITO DE DEUS NO HOMEM (MC)
1. Introdução
Uma das mais auspiciosas passagens do
Antigo Testamento é este versículo do livro do profeta Ezequiel: Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos
meus estatutos e guardeis os meus juízos e os observeis. Ou numa versão
moderna: Vou pôr o meu Espírito em vocês e farei com
que obedeçam fielmente às minhas leis e aos mandamentos que lhes dei. Ezequiel
36:27
Os crentes israelitas do Antigo
Testamento viviam em constante inquietação, ou, pelo menos, a religião que
praticavam estava longe de os trazer felizes. O facto é que tinham consciência
de transgredirem constantemente os princípios da sua religião. Apesar de toda a
revelação avançada que iam recebendo, e lhes dava uma ideia de Deus superior às
ideias dos outros povos, Deus era ainda um conceito, uma ideia que tinham na
cabeça, mas não uma realidade da sua convivência diária. Era natural que
mantivessem algumas ideias inadequadas trazidas do paganismo e continuassem a
pensar em Deus como uma espécie de Polícia do Universo, um Polícia incorrupto,
é certo, mas ainda o “Deus lá em cima”, a vigiar o homem, a ver todas as suas falhas,
e a castigar os pecadores. Não se via como castigou o povo com o grande
sofrimento nacional que foi a invasão babilónica em 597, seguida do cativeiro?
É durante esse período de dor e humilhação que Ezequiel, sacerdote e profeta,
anuncia a Palavra de Deus. Mas essa fase da compreensão incompleta de Deus era
uma fase inevitável na história do Povo de Deus, que, entretanto, não obstante
o conceito severo que tinha de Deus, mantinha, paralelamente, lugar para a
esperança: a memória da peregrinação do Egipto, a terra do cativeiro, para
Canaã, terra da liberdade, era o símbolo desta caminhada da escravidão para a
liberdade. No meio de todo o sofrimento, o povo israelita encontrava forças
para levantar a cabeça e confiar no futuro que Deus preparava. Ezequiel, como
Isaías, como Jeremias, como Daniel, Joel e os outros profetas, são homens que
têm como missão apresentar ao povo a visão de um tempo
em que a vontade santa e justa de Deus será cumprida.
Entre os estudos que têm sido feitos
sobre o livro do profeta Ezequiel, há acordo no reconhecimento de que não só o
versículo 27 do capítulo 36 mas todo o conjunto dos capítulos 33 a 37 anunciam
a restauração do povo de Deus, depois do sofrimento resultante da
desobediência. O Senhor não estará para sempre irado com o Seu povo mas promete
um futuro em que tirará dos corpos dos Seus filhos o coração de pedra e dará um
coração de carne. É a mudança profunda, interior, do homem que aqui é
prometida. Não se trata de Deus requerer dos homens que mudem o seu comportamento
para merecerem ser povo de Deus, mas, espantosamente, é Deus que promete mudar
o coração do homem para que então ele possa mudar o comportamento, cumprir a
vontade de Deus. Isso acontecerá quando o Espírito de Deus (Ruah
Iahweh) estiver unido ao homem.
É bem claro que o primeiro destinatário
da promessa é o povo de Israel como um todo, como se vê em Ezequiel
36:1. Parte desta profecia não demorou a ser cumprida. Essa parte refere-se
ao regresso do povo israelita, saindo da Babilónia, à sua terra, a reconstrução
do templo e a adoração a Deus em celebrações conjuntas. Mas é óbvio que a
profecia não encontrou o seu cumprimento total e mais exultante no Antigo
Testamento. Não houve nenhuma época antiga em que se pudesse dizer que a religião da Lei fosse substituída pela Religião do Espírito. O povo judeu, que
ainda no nosso tempo continua firme na Aliança que considera única (de Abraão,
retomada depois por diversas vezes), espera ainda o Messias e, supomos,
esperará que então será um tempo em que o Espírito de Deus habitará nos
crentes, como promete a profecia de Ezequiel, aliás igual a Jeremias
31:31/34.
2. Judaísmo e Cristianismo
E é aqui que está a diferença
fundamental entre Judaísmo e Cristianismo. A fé cristã, sem rejeitar Israel,
anuncia que o Messias já veio em Jesus, chamado o Cristo, e que o próprio
Messias proclamou que em breve, relativamente aos dias da sua pregação, iria
ser inaugurado o tempo em que o Espírito habitaria no coração dos crentes. Eu rogarei ao Pai e ele vos enviará outro Consolador, para
que fique convosco para sempre; o Espírito de verdade, que o mundo não pode
receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conhecereis porque habita
convosco e estará em vós. João
14:16/17. A vinda do Espírito, que no ensino de Cristo e dos Apóstolos é
chamado Santo, para tornar bem claro que não é do espírito do homem que se fala
nem de qualquer outro espírito senão o da divindade, pertence à nova época que
será também a época do estabelecimento da Nova Aliança ou Novo Testamento. De
qualquer forma é preciso dizer que as palavras de Ezequiel representam uma
promessa para lembrar em todas as situações em que o crente se sinta a
atravessar o vale da sombra da morte, num mundo
cheio de injustiça e mentira. Até os cristãos que se defrontam com meios
eclesiásticos em desordem encontram força nestas palavras. Então virá o
Consolador. Mas a promessa teve uma realização histórica concreta que foi
precedida pelo ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Na verdade, a
promessa da efusão do Espírito de Deus representa a pregação escatológica de
Ezequiel, mais rigorosamente, de Israel, e começou a cumprir-se nos “últimos
tempos”, que são estes em que vivemos depois da morte, e ressurreição de
Cristo. “Últimos” porque são os tempos entre a Ascensão e a Segunda Vinda de
Cristo.
Durante uma festa dos tabernáculos,
Jesus anunciou ao povo que quem tivesse fé nele beberia a Água da Vida, e o
evangelista João que narra este acontecimento explica: Ele
disse isto do Espírito Santo que haviam de receber os que nele cressem. Porque
o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado.
João
7:38/39. Claramente, fica aí o ensino de que a dádiva do Espírito Santo
seguir-se-ia à morte e ressurreição de Cristo.
3. Uma relação profundamente espiritual
Na Nova Aliança, de que Jesus Cristo é o
promotor e o cordeiro cujo sangue sela os compromissos – tornando-se autor e
consumador da fé I
Coríntios 11:25 e Hebreus
12:2, a marca distintiva é a relação profundamente espiritual que o crente
deve ter com Deus. Não há sinais de que Jesus tenha querido criar uma nova
religião, ensinar novos dogmas ou novas formas de adorar a Deus. Vários
teólogos têm mesmo posto em dúvida a ideia corrente de que Jesus quis fundar
uma Igreja. Evidente é que ele não veio criar um novo “ismo” para substituir o Judaísmo. O que veio foi aprofundar
o que já existia na Aliança com Abraão. O aprofundamento do Judaísmo faz-se com
Cristo e por isso chama-se Cristianismo. Jesus veio mostrar as consequências do
que tinha sido revelado aos pais. Não rejeitou a “Lei e os profetas”, mas veio
dar-lhes cumprimento Mateus
5:17. Pode mesmo dizer-se que foi mais exigente acerca da Lei do que os religiosos judeus seus
contemporâneos. Eles preocupavam-se acima de tudo com as regras exteriores, os
aspectos formais da religião Mateus
23: 27 e rodeavam-se de casuística para cobrar o dízimo nisto e naquilo,
coando um mosquito e engolindo um camelo Mateus
23:24, preocupando-se com a quebra do sábado por causa de uma cura, e não
se alegrando com a mesma cura. Mas Jesus tira consequências mais sublimes da
Lei, como se vê no Sermão da Montanha. A relação fundamental do homem com Deus
há-de ser no Espírito e na Verdade João
4:23. Jesus não repudia a lei religiosa e os costumes ou tradições, mas
repreende que as leis, as tradições, estruturas religiosas e o exibicionismo,
substituam a interioridade da fé. Tu, quando orares,
entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está no oculto.
Mateus
6:6. A Nova Aliança não sepulta a Antiga
Aliança, mas é nova porque a antiga ganhou o impulso decisivo e a revelação
maior. O impulso decisivo é a presença de Deus em Jesus Cristo e no Espírito
Santo. A revelação maior é o próprio Jesus Cristo, Aquele que bate à porta da
nossa vida e quer sentar-se à mesa connosco e cear connosco Apocalipse
3:20.
4. O Espírito sobre toda a carne
No Dia de Pentecostes que se seguiu à
Ascensão de Jesus, os discípulos que estavam reunidos em oração foram, de
súbito, protagonistas de um acontecimento prodigioso: ...ficaram cheios do
Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes
concedia que falassem. Actos
2:4. Deixemos por agora a explicação desse “dom de línguas” e fixemo-nos
nisto: o que aconteceu foi interpretado, logo a seguir, pelo apóstolo Pedro
como sendo o cumprimento da profecia de Joel, que disse: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei
do meu Espírito sobre toda a carne... Joel
2:28/32 ). Note-se que o texto de Joel é aqui
citado com pequenas alterações, e a profecia também com algumas diferenças é a
mesma que acima citamos em Ezequiel
36:27, e também Isaías
44:3 e Jeremias
31:31/34.
Trata-se, portanto, do início da nova
época que fora prometida no Antigo Testamento. O Espírito é derramado sobre
toda a carne, mas esta expressão não significa “toda a humanidade”, como pode
parecer. Como poderia Pedro falar de toda a humanidade, quando diante de si o
que tinha era apenas as cento e vinte pessoas
baptizadas no Espírito que formam então o conjunto dos discípulos? A expressão toda a carne neste caso deve ser lida à luz do
contexto histórico. O que acontecia naquele dia era o Espírito de Deus ser dado
a um conjunto de homens e mulheres, a uma comunidade, e não já apenas a este ou
aquele indivíduo. De facto, o Espírito havia falado já pela boca de David Actos
1:16, falou por Isaías Actos
28:25, e por outros escolhidos – mas agora tratava-se da dádiva do Espírito
a todos os que estavam ali reunidos no nome de Jesus e não apenas a indivíduos.
Outra diferença entre a dádiva pontual do Espírito a David, aos profetas, etc.
é que nesses casos o Espírito vinha, realizava o que estava planeado e voltava
ao seio do Pai; mas com o Pentecostes o Espírito veio habitar os crentes em
Jesus Cristo – “para sempre”, forma de dizer que o Espírito fica no meio de nós
João
14:16. O acontecimento que começou no dia de Pentecostes vai repetir-se por
muitos lugares e pelos séculos fora: onde quer que os homens e as mulheres,
crendo em Jesus Cristo, queiram receber o Espírito Santo, recebê-lo-ão. Como
disse Jesus: Se vós, sendo maus, sabeis dar coisas
boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo
àqueles que lho pedirem? Lucas
11:13. Tiveram razão os crentes que pelo princípio
de 1900 falaram de um Movimento Pentecostal. Pode dizer-se que o primeiro
Pentecostes, há 2.000 anos, ficou entre nós. Em rigor, não se trata de se
desejar um “novo” Pentecostes; é apenas o Pentecostes que perdura, como o Tejo
que desagua em Lisboa não é novo em relação ao Tejo que os lisboetas do século
XV contemplaram, mas sempre o mesmo.
5. Israel no coração
Mas não é a promessa de Ezequiel
36:27 destinada apenas aos israelitas, o povo de Deus? Como se pode ver
então, na dádiva do Espírito aos primeiros cristãos e a muitos cristãos nos
séculos seguintes até hoje o cumprimento dessa promessa? Os judeus que
assistiram ao que se passou em casa do centurião Cornélio, conforme narrativa
de Actos
10:1/48, tinham razão para o seu espanto, pois nesse dia o Espírito estava
a ser dado a gentios, isto é, a não judeus. Pedro pregou o evangelho diante do
centurião romano e da sua família e quando terminou, diz São Lucas,
...caiu o
Espírito Santo sobre todos os que ouviram a palavra (v.
44). Logo a seguir o escritor bíblico acrescenta: E os
fiéis que eram da circuncisão (judeus), todos
os que tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo
se derramasse também sobre os gentios. Estavam maravilhados porque
pensavam em Ezequiel, em Joel, em Isaías e acreditavam que o Espírito havia de
ser derramado apenas sobre judeus, povo de Deus. Entretanto, a mensagem de
Jesus Cristo, que inclui os pagãos ou gentios como igualmente destinatários da salvação, ainda não tinha sido totalmente compreendida.
O próprio apóstolo Pedro não compreendeu isso no início. Mas agora também ele
tira esta conclusão: Pode alguém, porventura, recusar
a água, para que não sejam baptizados estes, que também receberam, como nós, o
Espírito Santo? (v.47). Observe-se que nem sequer o baptismo prévio foi
indispensável para que Cornélio e os seus recebessem o dom do Espírito Santo. E
já agora note-se também que, se em outros lugares do livro de Actos o
recebimento do Espírito Santo foi feito quando outros cristãos impunham as mãos
sobre as cabeças dos que iam receber o dom, mas em casa de Centurião nem isso
foi necessário. Pode não se estar ainda baptizado nas águas e não se ter
recebido a imposição de mãos e, no entanto, receber-se o Espírito. Como se pode
ser salvo sem ter ainda o baptismo das águas. Mas não diz a profecia que é ao
Povo israelita que Deus dará o Espírito? Isto não é subverter a profecia de
Ezequiel, pois, aprendemos que é na fé em Jesus Cristo que somos salvos e logo
feitos “filhos de Abraão”, ou seja, israelitas pelo coração Lucas
19:2/10. É por isso que São Paulo diz que nem todos os que são de Israel
são israelitas, e diz: Não são os filhos da carne que
são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência
Romanos
9:6/8 ). Abraão, aquele que Deus chamou para ser o
pai de um povo incontável Génesis
17:5 , é o modelo do crente João
8:39/40 e é o pai de todos os crentes Romanos
4:16 ). Israel não foi anulada pela Nova Israel, que é a Igreja, tal como a
Antiga Aliança não foi anulada pela Nova, cumprimento da Antiga. Na nova dispensação o que mais conta não é o exterior, a lei, os rituais
e a tradição, mas a fé, a relação com Deus, a
sinceridade do coração João
4:24 e portanto, claro, o bom comportamento numa vida de serviço.
6. Espírito de liberdade
Nem todos perceberam a diferença, e bem
cedo dentro do próprio círculo dos discípulos de Jesus houve correntes que
viram no Cristianismo apenas mais uma religião, que se distinguia das outras
religiões por ter novas cerimónias, novas proibições, novas hierarquias, novos
dogmas. É irónico que os fariseus sejam o grupo mais combatido por Jesus nos
Evangelhos e acabem por ser os mais copiados pela Igreja nascente. Os
judaizantes, alvo da denúncia do Apóstolo Paulo na Epístola aos Gálatas, nunca
deixaram de ter o seu lugar dentro das Igrejas, misturando regras rígidas da
Lei de Moisés com o que chamam a Lei de Cristo. Nas Igrejas ao longo dos
séculos e ainda hoje muitas vezes as regras criadas pelos homens asfixiam a
vida dos crentes. No Catolicismo muitos gemem dizendo que o direito canónico
tem mais força do que tudo. Não é verdade que tem havido correntes em todas as confissões e denominações a
estabelecerem, em nome de Cristo, períodos de jejuns obrigatórios, guarda de
dias, prática do dízimo, e outras leis do Antigo Testamento ou nem daí
oriundas? Edificaram-se templos, quanto mais pomposos melhor, com grande
esforço em dinheiros da parte do povo, e adoptaram-se muitos comportamentos das
religiões, e disso resultou que as Igrejas tendem a tornar-se instituições
dirigidas sem fraternidade, num espírito empresarial, as Igrejas transformadas
em organismos burocráticos, sacrificando, se for necessário indivíduos e
famílias.
Nessa errada compreensão do Cristianismo,
obviamente, não querem que entre a ideia da presença do Espírito de Deus nos
crentes. É mesmo combatida essa compreensão da mensagem bíblica, pois o
Espírito de Deus não poderia ser domesticado pela instituição. São Paulo
escreve: Onde está o Espírito do Senhor, aí há
liberdade. II
Coríntios 3:17. Liberdade é justamente aquilo de que a instituição mais
receia. Onde surgiram movimentos cristãos realçando a proclamação
neotestamentária de que o crente é habitado pelo Espírito Santo, seguiu-se
invariavelmente a perseguição e a difamação, pois tal ensino desagrada aos que,
por interesse mesquinho ou por orgulho, preferem ver no Cristianismo apenas uma
religião. Assim foi perseguido o frade italiano Joaquim de Fiore,
e o culto do Espírito Santo por ele defendido foi reduzido a religiosidade
popular supersticiosa. Assim foi combatido George Fox e o Quakerismo. O
próprio Pentecostalismo, que começou muito bem como
movimento renovador que queria estar presente dentro das denominações, acabou
por ser, sob muitos aspectos, institucionalizado e deu origem a mais
denominações, algumas muito autoritárias. O Movimento Carismático mais recente,
em alguns lugares foi objecto de manipulação para ser controlado pela Igreja-instituição. Na década de 1970, surgiu em várias
Igrejas (Baptista, Presbiteriana, Anglicana, Metodista, e em seguida Católico-Romana) esse movimento parecido com o Pentecostalismo que falava de uma maior atenção à acção do
Espírito Santo e aos carismas (dons espirituais), a que se deu o nome de
Movimento Carismático. As hierarquias ou tentaram proibir o movimento ou
procuraram “discipliná-lo”, integrando-o no sistema, nomeando dirigentes
superiores para os controlar. E o Carismatismo tão
auspicioso quase desapareceu. Hoje, quem desejar a renovação terá de ter a
máxima preocupação em não criar estruturas, não se tornar instituição,
manter-se rigorosamente movimento sem chefes.
7. Receber o Espírito
A expressão que é usada desde o
Pentecostes que começou há 2.000 anos, “receber o Espírito”, induz muita gente
em erro, embora, como veremos, seja a expressão que devemos manter. Mas se se fala em receber é porque, deduz-se,
há muitos cristãos que ainda não têm o Espírito. Mas com rigor deve dizer-se
que todo aquele que recebeu Cristo na sua vida, que se tornou filho de Deus
pela fé em Jesus Cristo João
1:12, recebeu também o Espírito. E se recebeu mantém-no, porque Ele fica
connosco para sempre João
14:16. Para a mentalidade do povo da Bíblia não há contradição nisto de
falar em “receber” se o Espírito está no crente, como não há contradição que na
oração do “Pai Nosso” os crentes sejam ensinados a
pedir: Venha o Teu Reino, embora Jesus tenha
também dito aos discípulos: O Reino de Deus já está no
meio de vós. Mateus
6:10 e Lucas
17:21. E não diz a Escritura que o cristão já está sentado
nos lugares celestiais Efésios
2:6, quando é evidente que anda aqui pela terra?
Na verdade, ninguém pode confessar Jesus
Cristo como o Senhor se não for pelo Espírito Santo I
Coríntios 12:3. A pessoa ouve a Palavra, crê em Jesus Cristo, e ao crer
torna-se imediatamente parte do povo de Deus, filho de Abraão. Simultaneamente
(não é a seguir ou num depois distante, mas imediatamente), recebe o Espírito
Santo como o Consolador. Na verdade, o Espírito é também chamado “Espírito de
Deus” e “Espírito de Cristo” Romanos
8:9. O mesmo e único Deus é a bem-aventurada
Trindade que está com o cristão. Pode ser, e infelizmente é, na maioria dos
cristãos, uma Presença muito ténue, como a luz de uma vela que o menor sopro
ameaça apagar, mas já nessa vida começou a ser cumprida a profecia que diz porei dentro de vós o meu Espírito. Jesus disse: Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva
correrão do seu ventre. João
7:38. E dizia isso falando da presença do Santo Espírito na vida do crente.
Não há cristão que não seja habitado
pelo Espírito, pois Ele é o hóspede que entrou em nossa casa quando ouvimos a
Voz e abrimos a porta da nossa vida a Cristo Apocalipse
3:20 – mas muitos receberam o hóspede de honra, deram-Lhe
o melhor quarto, confortável e belo, mas depois deixaram-no (Reverentemente?
Desleixadamente?) sozinho no seu quarto. Não Lhe disseram: “Vem, Senhor, a casa
é toda tua!”. Ele sabe muito bem que é Senhor de tudo – mas a leitura da Bíblia
mostra-nos constantemente que Deus não quer impor-se, não quer forçar-nos a
aceitá-lo. Tudo o que fizermos para Ele tem de ser com fé, com amor,
livremente. “Receber o Espírito” é o momento de colocar a casa que somos na
inteira disponibilidade do Espírito. O Espírito é dado no momento da aceitação
da Palavra: o recebimento verdadeiro, consciente, é aquele que, por vezes,
falta fazer.
Infelizmente, muitas vezes o que
acontece é isto: o homem que ouviu a Palavra de Deus abre-lhe apenas um pouco
do seu coração, da sua vida e por isso recebe timidamente. Como se o caminhante
encontrasse uma fonte de água e apenas molhasse os lábios, em lugar de beber
com fartura.
8. Crer para receber
No livro dos Actos dos Apóstolos, quando
Jesus faz aos seus discípulos a promessa de que dentro de pouco tempo
receberiam o Espírito, disse: Recebereis o poder do
Espírito Santo que virá sobre vós. Actos
1:8. Poder, no grego do Novo Testamento é dynamis, de onde formámos as
nossas palavras dinamite e dinamismo. Mas muitos cristãos vivem uma vida sem
dinamismo algum, sem alegria, sem entusiasmo. E muitos são cristãos muito
sinceros, muito zelosos. Como se explica esta situação? Se crêem em Cristo não
deviam ter na sua vida reflexos da presença do Espírito? Deviam, mas o problema
é que, por não terem estudado o assunto ou por terem aceitado ensino errado,
falta-lhes crer na mensagem total do Evangelho. Por vezes a culpa é de Igrejas
que pregam o baptismo (experiência, derrame) com tantos erros e excentricidades
que pessoas tímidas rejeitam ou aceitam erradamente. Muitos homens e mulheres
crêem sinceramente em Cristo, aceitam que Jesus é o Salvador, aceitam o seu
perdão, admiram os seus ensinos – mas duvidam de uma coisa. Duvidam que tudo o
que ele prometeu, ele cumpre. Usar o verbo duvidar em relação a Jesus já mostra
a gravidade da situação. Afinal, cremos mesmo que ele é o Senhor, que ele fala
só a verdade ou não? Se houver algo em que duvidamos, tudo o resto da nossa fé
está periclitante. Ele disse que os crentes receberiam o Espírito Santo; disse
que o Pai daria o Espírito Santo; disse que era preciso nascer da água e do
Espírito João
3:1/16, e nós o que fazemos? Achamos que é bom de mais para ser verdade.
Achamos que só haverá alguns privilegiados que recebem o Espírito e
contentamo-nos em ser baptizados nas águas. Ou seja, cremos nele mas não cremos
totalmente. Cremos uma coisa (Jesus fala verdade) e cremos o seu contrário
(neste aspecto do Espírito ele não falou verdade). Uma crença
contrariando outra crença anulam-se mutuamente. Não podemos ter na nossa
cabeça duas crenças contraditórias uma da outra. É preciso ir até ao fundo do
desafio de Jesus: se o aceitas como Senhor e Salvador, tens de o aceitar também
como o Mestre que te dá todo o ensino correcto. Crer é crer com segurança na
Palavra que foi anunciada. Não se pode crer e duvidar ao mesmo tempo.
9. Problema de linguagem
Uma das dificuldades para crer na
recepção do Espírito está na linguagem usada. Já vimos isso na própria
expressão “receber o Espírito”. Aliás, os verdadeiros problemas do homem são
quase sempre problemas de linguagem, pois a língua é que nos faz compreender e
integrarmo-nos no mundo em que vivemos, e a língua é feita de convenções,
símbolos, metáforas. Se não tivermos cuidado, se não analisarmos as palavras
com cuidado, não conseguimos viver a realidade. Por exemplo: como é isto de o
Espírito de Deus vir sobre nós e vir viver dentro de nós (Porei o meu Espírito dentro de vós)? Por onde é que
entra o Espírito? Se ao menos tivéssemos um buraco na cabeça… E entrando, onde
é que fica o Espírito? Na cabeça, junto da massa encefálica? No coração? Havia
um coro antigo que dizia: “No meu coração, no meu coração/ Ó Cristo, vem hoje
entrar”: mas como é que o Espírito de Cristo, habita
em nós?
Há um aspecto que deve desde logo ficar
claro: o Espírito Santo não é uma coisa, é uma Pessoa. Dizemos isto para
mostrar a reverência que nos merece e também para lembrar que, como Pessoa, tal
como quando falamos de Deus Pai, não tem um corpo, mesmo que seja invisível. O
facto de na narrativa do baptismo de Jesus os evangelistas dizerem que o
Espírito estava presente como uma pomba, não quer dizer que o Espírito seja uma
pomba, ou algo que vai ocupar um espaço. Nem vem como línguas de fogo, embora
seja dessa maneira que o autor de Actos descreva a vinda do Espírito no dia de
Pentecostes. O Espírito envolve o crente na sua totalidade: não fica apenas no
cérebro ou no coração, mas em todo o ser, na essência do nosso ser, que na
verdade não sabemos onde está. O homem tem o seu ser integral mesmo quando
perdeu uma perna, um braço. Quando morre fica cadáver. Ninguém diria diante de
um cadáver: “Aqui está o ser do nosso amigo”. O ser está associado a vida. Não
devemos levar à letra a expressão “Porei o meu Espírito em vós”, como se Deus a
cada momento tivesse de pegar no Seu Espírito e instalá-lo dentro do crente,
como nós pomos uma lâmpada num candeeiro. Se com fé aceitamos a promessa de
Deus, o milagre simplesmente acontece: O Espírito passa a estar presente no
nosso ser e com tanto maior intensidade quanto mais intensa é a nossa fé. Pensamos
na expressão Porei dentro de vós, ou na
expressão de Joel Derramarei sobre toda a carne
e acabamos por ficar limitados pela linguagem metafórica. Mas nós vivemos no
tempo do computador e sabemos que há existência presente em formas que os
nossos olhos não vêem e as nossas mãos não podem palpar. Dentro do computador
em que estou a escrever está este artigo; mas se eu, com escopro e martelo)
abrir o computador (abrir o monitor? A cabeça?) não vou encontrar nem uma
palavra escrita. Falam-me em impulsos eléctricos e não sei mais quê, mas uma
coisa é certa: o maravilhoso anda perto de nós.
Compreenderemos melhor a ideia da
entrada do Espírito em nós se nos lembrarmos que no Novo Testamento fala-se da experiência como sendo o “Baptismo do Espírito
Santo”
10. Baptismo do Espírito Santo
A palavra baptismo e seus derivados vêm
do verbo grego baptizô, com a raiz baptô que tem vários sentidos: molhar, imergir, limpar ou
purificar lavando, aspergir Lucas
16:24; João
13:26; Apocalipse
19:13; Marcos
7:4; Lucas
11:38. É por causa desta variedade de sentidos que nas Igrejas se praticam
quer um quer outro tipo de baptismo com água: o baptismo de imersão e o
baptismo de aspersão, não havendo nos textos bíblicos explicação clara se no
princípio da Igreja se usava um ou outro, ou mesmo os dois (diga-se a propósito
que é lamentável que haja discussão entre denominações por causa disso). Com
simbolismo mais evidente (imergir como sepultar, para ressuscitar), alguns
defendem o baptismo da imersão, mas quando o livro de Actos dos Apóstolos diz
que num só dia foram baptizadas 3.000 pessoas é correcto admitir que a aspersão
é a melhor hipótese. Quando se fala em “lavar um prato ou um copo”, como em Marcos
7:4 e se usa o verbo baptizar também, o simbolismo do baptismo por aspersão
como lavagem dos pecados pela aspersão de água tem peso.
João Baptista, foi assim chamado por
ministrar o baptismo do arrependimento às pessoas que, ouvindo a sua pregação e
arrependendo-se, eram baptizadas (certamente mergulhadas) no rio Jordão. Ele é
o último dos profetas e percursor do Messias, Jesus. O próprio João Baptista
sabia que o baptismo do arrependimento que praticava não era senão um estágio.
O Messias que viria depois dele traria consigo um baptismo muito mais
importante. Eis as suas palavras segundo São Mateus: Eu
na verdade baptizo-vos com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após
mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos
baptizará com o Espírito Santo e com fogo. Mateus
3:11 ). O fogo que vem com o Espírito foi
simbolizado no dia de Pentecostes pelas línguas sobre as cabeças dos cristãos.
É o fogo que purifica e purificar vem do grego pur.
As línguas de fogo do dia de Pentecostes sobre a cabeça dos que recebiam o
Espírito têm esse sentido.
Infelizmente, mais tarde, as Igrejas,
quando a religião institucional se impôs, passaram a dar maior importância ao
baptismo das águas, que Jesus também veio a estabelecer Mateus
28:19, do que ao baptismo do Espírito Santo,
nome com que os primeiros cristãos designaram a experiência com a recepção do
Espírito Santo. Compreende-se a preferência dos dirigentes religiosos:
sobrevalorizar o baptismo das águas é dar maior domínio a quem o ministra, ao
celebrante, à Igreja; enquanto que isso não pode fazer-se com o Espírito que sopra onde quer João
3:8 ). O crente comum prefere também muitas vezes
essa sobrevalorização do baptismo das águas em detrimento do baptismo do
Espírito. Afinal, o baptismo das águas é tão fácil e tão evidente: é só
papaguear as doutrinas, marcar a data e comparecer para ser baptizado por um
celebrante devidamente credenciado. Até nos dão um diploma, um certificado
comprovativo! Cinicamente podemos acrescentar: o baptismo das águas tem a
vantagem a dar-nos direito a voto nas assembleias deliberativas…É mais fácil
uma religião pautada por coisas materiais: água, cerimónia, celebrante,
diploma, acta. Vá lá agora marcar-se data e hora para o Bendito Espírito Santo
vir entrar na vida de um homem!
É verdade que o apóstolo Pedro, quando
prega no começo do Pentecostes cristão, não esquece a necessidade de os que
aceitaram a Palavra pregada serem baptizados com água: Arrependei-vos
e que cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos
pecados. Actos
2:38. Mas note-se bem o que o apóstolo acrescenta: Recebereis
o dom do Espírito Santo. A recepção do Espírito é o alvo supremo da fé,
do arrependimento e do baptismo das águas.
11. Como árvore sob a chuva
A imaginação tem um papel decisivo na
nossa vida. Por estranho que pareça é ainda mais importante do que a realidade
em si mesma. Tu tens diante de ti, lançada pelo chão, uma tábua de três metros
de comprimento, suficientemente grossa para suportar o peso de 100 quilogramas
e com a largura de vinte centímetros. És capaz de andar sobre ela sem te
agarrares a nada? Sim, se estiver no chão, fazes isso facilmente. Agora leva a
tábua para o quinto andar onde moras. Põe a tábua entre a tua janela e a de um
vizinho à mesma altura. Não há vento, e o teu vizinho pede-te que vás sobre a
tábua da tua janela para a janela dele. Vais? A menos que sejas artista de
circo, o mais certo é que te recuses, vendo os carros a passarem lá em baixo ou
calculando os metros que vão das janelas até ao chão da rua. A realidade é
esta: se tu podes andar lá em baixo, podes andar aqui em cima. Mas algo
intervém para impedir a ousadia: a tua imaginação. A imaginação ajuda ou
prejudica, mas tem um papel importante. No campo da medicina e da farmacopeia
chegou-se à conclusão que uma boa parte de muitas curas é alcançada com “placebos”, falsos medicamentos que a imaginação dos doentes
recebe como medicamentos.
Não tenhamos receio de usar a imaginação
nas coisas espirituais. O famoso místico Irmão Lourenço praticava com mestria a
imaginação da Presença de Jesus e o “quaker” Thomas Kelly aconselhou vivamente
esse exercício, que ele também praticava.
Por nós, achámos que nos ajudou muito a
compreender o que é receber o Espírito imaginando o acontecimento como um
baptismo com água. Pedimos a Deus que nos dê do Seu Espírito e imaginamos a
Água da Vida descendo sobre nós, molhando-nos inteiramente, envolvendo-nos
graciosamente, como quando éramos garotos e no verão nos banhávamos num ribeiro
que corria num campo de margaridas e boninas. Nessa altura compreendemos que
desde logo se associe Espírito Santo e gozo ou alegria.
Outra imagem estimulante é pensarmos o
que acontece quando chove depois de a água ter faltado, para susto dos
camponeses. Então vem a chuva bendita do céu e os campos renascem. Toda a
natureza parece sorridente e a cantar louvores ao
Criador. O crente que recebe o Espírito Santo na conversão e se vai enchendo do
Espírito pela vida fora, não o recebe por um buraco que exista na cabeça: ...é como uma árvore, plantada junto a ribeiros de águas.. Salmo
1, que recebe a chuva na estação própria e fica então, se o sol brilha
depois da chuva, toda ela resplandecente, cada folha molhada, o tronco e os
ramos molhados – a árvore baptizada! – é a alegria do
camponês que temia a seca. Há um poema do poeta brasileiro Jorge de Lima, que
viveu no século XX, que pode ser associado à alegria de quem se sente regado
pela Água da Vida que é o Espírito Santo. Citamos apenas alguns versos:
Zefa, chegou o Inverno!
Formigas
de asa e tanajuras!
Chegou
o Inverno!
Lama
e mais lama
Chuva
e mais chuva, Zefa!
Vai
nascer tudo, Zefa!
Vai
nascer verde,
Verde
do bom:
Verde
nos galhos,
Verde
na terra,
Verde
em ti, Zefa,
Que
eu quero bem!
Há um velho hino que fala das “chuvas de
bênçãos”, referindo-se às manifestações do Espírito que ocorrem na Igreja. Isso
explica por que se fala do Baptismo do Espírito Santo. É o que tem de acontecer
para a terra dar fruto.
12. “Não sinto nada”
Outra dificuldade para muitos é a
tendência que há em associar a experiência do Espírito Santo a sentimentos.
Isso tem um bocado de ver com a outra tendência de fazer do Espírito uma coisa
ou uma força, tipo electricidade. Se um cirurgião me colocar um “pacemaker”, eu forçosamente hei-de senti-lo, por mais
ajustado que o “pacemaker” esteja. Se um corpo
estranho entra no meu corpo, eu sinto-o. É a velha lei da física que fala da
“impenetrabilidade da matéria”: nenhum corpo pode ocupar o mesmo espaço que
outro. Mas já o lembrámos: o Espírito não é uma coisa e não ocupa um espaço.
Como é que sei então se o Espírito me veio habitar? De duas maneiras. Primeira:
pela fé. Se Deus diz uma coisa deves aceitá-la. É isso que é fé. Também a fé
não é um sentimento, mas uma aceitação. Chegas à fé pela razão. Tal e tal é
apresentado como factos a aceitar. Podes aceitar se as contas, as experiências
feitas provarem que deve ser aceite. É assim que a ciência trabalha. Outro modo
de chegar à aceitação é convencer-se a nossa razão que os dados apresentados
são dignos de toda a aceitação, mesmo que ainda se não possa experimentar. No
que diz respeito à mensagem cristã é assim que falamos de fé. Alguém falou
(neste caso Deus), e só encontrámos razões para aceitar o que foi dito. Esta é a palavra fiel e digna de toda a aceitação, que
Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores... I
Timóteo 1:15. A razão conduz à fé, embora a fé não seja apenas assentimento
racional, porque implica entrega, implica compromisso com aquilo em que se crê.
Então se, por exemplo, a leitura do que ficou para trás neste estudo te leva a
achar que a vinda do Espírito Santo à vida do cristão te parece uma premissa
razoável ficas apto para te abrires tu próprio a essa experiência. Aceita
apenas na fé que o Espírito te veio habitar. Como fazes com a salvação.
Imaginemos que contigo aconteceu isto: não eras cristão mas foste ouvir pregar
o Evangelho. Ficaste convencido que Cristo é o Salvador que morreu por ti e te
quer salvar. Suponhamos que nessa igreja é habito o pregador convidar os
arrependidos a virem à frente. Estás tão feliz por teres ouvido a Palavra da
salvação! Mas depois de teres no mais fundo do coração pedido perdão pelos teus
pecados, depois de teres aceitado o perdão de Deus, voltas para o teu lugar.
Vais triste. Dizes a um irmão: “Eu queria sentir algo que me desse a certeza
absoluta de que estou salvo”. Esse irmão lê-te João
3:16 e pergunta-te: “O irmão crê em Jesus Cristo?” “Claro! Sem a menor
dúvida!” “Então está salvo!” O Pai e o Filho cumpriram a Sua parte: o
sacrifício de Cristo foi eficaz. Da parte do homem só há uma coisa a fazer:
aceitar e crer nesse sacrifício. “Quem crê está salvo”. Crer não é só
assentimento intelectual, é também compromisso com aquilo em que se crê. Se
compreendes isto, se aceitas isto (fé), ficas feliz, já não precisas mais
provas. Os sentimentos vêm depois e são de alegria pela segurança da salvação.
O mesmo com a presença do Espírito Santo em ti. Ajuda-me pensar nesta metáfora:
um homem, José, deve uma importância elevada a outro, António. Amanhã tem de
pagar a dívida, mas esta noite está angustiado porque não tem como pagar.
Recebe a visita de Luís que, sabendo do caso lhe diz:”Aqui tens o cheque da
importância a pagar”. Quando Luís sai, José vai deitar-se e dorme tranquilo e
grato. Não é loucura? Quem sabe se Luís o está a enganar, não tendo no banco
dinheiro que cubra o cheque? José dorme tranquilo porque sabe que Luís é um
grande amigo, é honesto e tem aquela importância no banco. Podemos descansar no
que diz João
3:16 (Quem crê em Cristo está salvo)? E em Lucas
11:13 (O Pai dará o Espírito a quem lho pedir)? Cristo foi crucificado e
até ao fim manteve as suas promessas.
13. O segundo sinal
Dissemos que são duas as maneiras ou
dois os sinais que nos asseguram se o Espírito Santo habita em nós. Falámos
acima da fé como o primeiro sinal. O segundo é o fruto do Espírito Santo de que
fala São Paulo em Gálatas
5:22. Pode usar-se este texto para desmascarar falsos “cristãos cheios do
Espírito”, mas o melhor é que cada cristão o use intimamente, para se examinar
a si mesmo. Desmascaram-se os falsos “cristãos cheios do Espírito” quando estes
fazem muito alarde das suas experiências espirituais, procurando apresentar-se
como superiores aos outros, falando de alto do dia em que receberam o Espírito
Santo e das vezes em falaram línguas, e no entanto as suas vidas, à luz desse
fruto do Espírito Santo mostram grandes deficiências. Ninguém tem o direito de
julgá-los, mas a diferença entre a reivindicação de terem o Espírito e o modo
de viver deve servir para ninguém os seguir nem proporcionar-lhes nas Igrejas
lugares de liderança. Quando a Igreja primitiva elegeu os sete para o serviço das mesas (Actos
6:1/7), o critério da escolha foi que fossem crentes de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria.
Como é que a assembleia soube que Filipe e os outros estavam cheios do
Espírito? Sem dúvida nenhuma pelo fruto do Espírito
que os crentes viam neles. Que podemos esperar de uma Igreja se escolher para
os seus ministérios pessoas sem amor, arrogantes, mentirosas, irascíveis, sem
espírito de amizade e de simpatia!
Mas o que São Paulo diz na carta aos
Gálatas mostra-nos, acima de tudo, o que temos de sentir em nós próprios se
desejamos viver um Cristianismo autêntico. Não é pelo tipo de baptismo das
águas, ou pelo tipo de Igreja a que pertencemos, ou por sermos repetidores sem
erro de Declarações de Fé, ou pelas cerimónias que fizemos que podemos ficar
seguros na nossa caminhada, mas se em nós se produzir naturalmente, sempre em
crescendo, o fruto do Espírito Santo. Note-se: não falamos de ter em plenitude
as qualidades que aí estão descritas – amor, alegria, paz, paciência,
amabilidade, bondade, fidelidade, modéstia, domínio de si mesmo – mas de o
crente buscar ter o máximo de cada uma delas. Combater com o Espírito Santo em
si mesmo aquilo que Paulo chama as obras da carne:
prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias,
emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias (espírito de seita), invejas,
homicídios, bebedíces, glutonerias.
Gálatas
5:17/21.
14. Uma realidade escatológica
Dissemos no princípio deste estudo que a
habitação de Deus pelo Espírito em nós é uma realidade escatológica. Diz-se
assim de uma realidade que faz parte das últimas coisas, do futuro absoluto que
esperamos. A profecia é posta no futuro: Porei dentro
de vós o meu Espírito. Ou Derramarei sobre toda
a carne o meu Espírito. Esse futuro já começou, neste caso com o
Pentecostes, mas a realidade continua a ser escatológica, isto é, “ainda não somos
o que devemos ser”. Também neste caso agora vemos como por espelho em enigma I
Coríntios 13:12. Se tivéssemos o Espírito de Deus já na sua plenitude
futura, seríamos perfeitos, já não pecaríamos. Mas continuamos a pecar. Alguns
apontam cristãos que parecem muito sinceros e devotados e dizem: “Aquele não
tem o Espírito Santo, porque já o vimos irar-se, mas a paciência é do fruto do
Espírito”. Não lembrámos acima que nenhum cristão, mesmo cheio do Espírito,
consegue viver sempre na máxima intensidade cada um dos valores do fruto? Mas
um dia conseguirá, no tempo da plenitude do Reino de Deus. Saber que não
podemos ser perfeitos hoje não é pensamento que nos deva levar a
condescendência cínica com os nossos pecados de hoje, mas é motivo para,
corrigindo o erro cometido, arrependendo-nos do pecado de hoje, levantarmo-nos
seguros e confiantes de que um dia seremos “mais alvos do que a neve”, como diz
um velho hino. Saber que a plenitude do Espírito Santo é uma realidade dos
“últimos tempos” (escatológica), torna-nos mais capazes de suportar as falhas
alheias e caminhar com os outros. Eduardo Moreira, um grande cristão que foi
professor do autor destas linhas, num sermão comparava um dia a vida de uma
comunidade cristã com a subida de alpinistas a uma montanha. Lembrava que os
alpinistas vão presos uns aos outros por uma corda. O que vai à frente espeta
os seus grampos e, subindo, vai tirando os grampos e pondo-os mais acima, e os
que o seguem vão beneficiando da sua subida, vindo todos uns atrás dos outros.
Nisto, há um dos homens que perde o pé, fica preso pelas cordas dos amigos, no
ar. O que farão os outros? Não cortam com a sua faca a corda que prende o
companheiro que perdeu o pé, mas ficam serenos e puxam o seu companheiro até
ficar com os pés de novo sobre rocha firme. Um dia o autor destas linhas teve
um desgosto na vida e sentiu que lhe faltou onde opor os pés. O que mais o
mortificou foi pensar como o salmista: Olhei para a
minha direita e vi; mas não havia quem me conhecesse. Refúgio me faltou.
Ninguém cuidou da minha alma. Salmo
142:4. Enfim, o Senhor deu-nos uma experiência que permitiu clamar depois: Tu és o meu refúgio na terra dos viventes. A vida do
cristão, mesmo quando pedimos que o Espírito seja o nosso guia, não está isenta
de problemas, mas tenhamos bom ânimo, porque Cristo já venceu todos os
obstáculos João
16:33.
Figueira da Foz – Portugal
Abril de 2006