Experiência do
divino (MC)
Pastor Manuel Pedro Cardoso
ÍNDICE
Capítulo I - “Provai
e vede”
Capítulo II - “Eis o homem”
Capítulo III – “Recebereis o poder”
Capítulo IV - “Sem fé é impossível...”
Capítulo V – “Enchei-vos do Espírito”
Capítulo VI – “Falarão
novas línguas”
Capítulo VII – “Orarei
no espírito”
Capítulo VIII - “Todas
as coisas lhes eram comuns”
Capítulo IX – “Apresentai
os vossos corpos”
George G. Hunter
III, no seu livro To Spread the
Power, manifesta a sua convicção de que a obra da
missão evangelística só é feita por cristãos e
Igrejas que cumpram estas quatro condições:
1ª - Vejam a sua identidade
na continuidade dos Apóstolos;
2ª - Vejam o lugar onde a
Igreja está como um campo de missão;
3ª - Estejam prontos a
receber o poder do Espírito;
4ª - Desejem acima de tudo o
mais juntar-se ao Senhor da Seara na busca dos perdidos e na construção daquela
Igreja contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.
As páginas que se seguem
foram escritas por um pastor que, ao longo do seu ministério, tem estudado a 3ª
condição.
Capítulo I - PROVAI E VEDE
No seu estilo irónico e
contundente, o falecido professor António José Saraiva dizia um dia nas páginas
do semanário “Expresso” que, para o ideólogo, a realidade concreta da vida só
existe para confundir, e é ela que tem de se adaptar à ideologia e não esta
aquela. Se bem me lembro, esta crítica do autor da “História da Cultura em
Portugal” foi feita antes da queda do Muro de Berlim (1989), que geralmente se
aponta como o prenúncio do desprestígio de todas as ideologias.
O facto é que o homem dos
nossos dias é céptico em relação a tudo que não esteja claramente ancorado na
realidade tangível. O homem de hoje não se contenta com o discurso racional
abstracto, com a doutrina bem elaborada, mas requer a prova da experiência, dos
sentidos, do vivido. Este tipo de cepticismo tem no seu bojo alguns perigos,
dos quais o menor não é o de o homem acabar por se contentar com as pequenas
realidades do quotidiano imediato e desprezar as potencialidades do seu próprio
ser e das utopias, sabendo-se que uma verdadeira utopia, por definição, não é
uma quimera irrealizável nem irracional mas é antes um projecto por realizar. Aliás,
deve mesmo questionar-se, como já o fez Carl-Gustav Jung (1), se podemos circunscrever o real àquilo que é
pressentido pelos sentidos, ou se não devemos, como o homem oriental,
considerar como real tudo o que faz parte da psique.
O Cristianismo não pode
temer esta característica do homem moderno, característica que, aliás, tem
muito a ver com a própria mensagem bíblica e que em especial o Protestantismo
legou ao mundo. Alguns pensam que Jesus requer uma fé cega quando diz a Tomé: “Bem-aventurados aqueles que não viram e creram” João
20:29. É evidente que o dito de Tomé “ver para crer” não é elogiado por
Jesus, mas “ver” é uma coisa e “sentir” é outra. Neste livro, mais adiante,
diremos mais sobre o significado de crer ou ter fé, e perceber-se-á que não tem
de ver com provas visuais, mas com confiar – no entanto, não se confia
cegamente. O Protestantismo justamente combateu a ideia medieval escolástica da
autoridade: uma coisa é verdade porque a Igreja diz que é verdade. A Reforma falou abundantemente da
necessidade de cada cristão, pessoalmente, conhecer, convencer-se da verdade.
Diz-se que passou a religião da esfera do objectivo para o subjectivo: não
basta pertenceres à Igreja, é preciso que tu mesmo estejas convertido a Cristo.
Tem-se falado criticamente da “fé do carvoeiro” aludindo-se a esta situação:
- Em que crês, carvoeiro?
- Creio no que crê a minha
Igreja.
Não é, naturalmente, a fé do
“carvoeiro”, profissional humilde, apenas que se denuncia mas a de todos os
que, universitários incluídos, aceitam viver numa fé
em segunda mão, porque se limitam a repetir as crenças que outros formularam.
“Deus perdoa?” “Claro que perdoa: a minha Igreja assim o diz”. A exortação,
contudo, a fazer é esta : “Provai
e vede que o Senhor é bom; feliz o homem que nele confia” Salmo
34:8. É cada um, cada uma, que deve esforçar-se por ter uma experiência
pessoal de Deus. Ninguém se torna cristão - no
verdadeiro sentido da palavra, que é viver numa relação pessoal com Cristo e
ser aquilo que o Novo Testamento chama “filho de Deus” - apenas por estar
arrolado a uma igreja, mas o evangelista João diz que Deus deu a faculdade de
se tornarem “filhos de Deus” àqueles que “crêem em
Jesus Cristo” João
1:12. Mais para a frente veremos que “crer em Jesus Cristo” não é apenas
acreditar que ele existiu e deixou um ensino. O ponto que agora importa realçar
é que não se é cristão apenas por participar de cerimónias numa igreja, mesmo
que essa cerimónia seja a Profissão de Fé, nem por herança (“sou cristão porque
venho de uma família cristã”, dizem alguns). Um famoso evangelista disse com
alguma graça irreverente: “Deus não tem netos!”. Ser cristão é o fruto de uma relação
eminentemente pessoal entre o crente e Cristo.
Não se pode negar que um
realce nas experiências pessoais (subjectivas) na Fé Cristã tem os seus
perigos. Pensemos, por exemplo, na questão do perdão
dos pecados. Todo o crente, por mais dedicado, está sujeito
a transgredir um dos mandamentos de Deus, num ou noutro momento, principalmente
o Mandamento Novo, que nos manda amar ao próximo. Arrependido, confessa a Deus
o seu pecado. E depois? Será que Deus perdoou mesmo? Como encontrará a paz? Uma
jovem católica disse
uma vez a um amigo protestante: “Nós, católicos, confessamos ao padre os nossos
pecados, ele dá-nos uma penitência e em seguida absolve-nos. Ouvimos claramente
o perdão (objectividade): “Eu te absolvo, minha filha. Vai em paz”. Mas vocês,
protestantes, confessam a Deus, no segredo dos vossos corações, os vossos
pecados. Como podem ter a certeza de serem perdoados?”. No caso protestante tem
de intervir a subjectividade? Outro exemplo: a Ceia do Senhor ou Eucaristia. O
Catolicismo diz que as palavras de consagração do
sacerdote agem e o Pão e o Vinho tornam-se Corpo e Sangue de Cristo,
objectivamente. Os protestantes fazem depender da fé – ou seja da
subjectividade. Se o ministro é um velhaco, se o crente é um patife, tudo está
ameaçado. Quem vive dentro do Protestantismo, como o autor destas linhas, sabe
que muitas vezes as pessoas sofrem situações como estas: andam anos a confessar
pecados e nunca mais se acham perdoadas; participam da Ceia e dizem “não senti nada!”. E no
entanto, paradoxalmente, o Protestantismo tem a chave da resolução do problema:
é a doutrina que afirma ser a Bíblia a única e suficiente regra de fé e prática
(Sola Scriptura). Como é que o pecador arrependido
sabe objectivamente que está perdoado? Atendo-se ao texto bíblico que diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a
injustiça” I
João 1:9. Se o crente ler ele mesmo esta palavra ou a ouvir ler por um
pastor, por um leigo, é nesta palavra que descansará e não nos seus próprios
sentimentos. Quanto ao Pão e ao Vinho da Ceia é também objectivamente que está
escrito: “Este é o meu Corpo; este é o meu Sangue”
I
Coríntios 11:23/26, e é nisso que o crente confia e não nos seus
sentimentos. Conta-se que Lutero, quando se discutiu diante dele se sim ou não
Cristo estava presente na Ceia, tomou um giz e escreveu num quadro com firmeza
as palavras com que Jesus instituiu este sacramento: “Este é o meu corpo!”.
Lutero era fundamentalista? Não: mas sabia haver textos que devem ser tomados
com objectividade.
É certo, porém, que uma
maior expressão de subjectividade religiosa entrou no mundo moderno pelo
Protestantismo e naturalmente reflecte-se em várias áreas da vida. É essa,
entre outras, a razão por que o homem moderno tem tanta necessidade de sentir.
Uma revista de Lisboa publicou recentemente uma entrevista com o professor
americano Todd Gitlin que
tem apontado para esta característica da civilização moderna ocidental e este
estudioso cita um autor do século XIX, Georg Simmel, que começara a ver esse fenómeno: “Simmel ajudou-me a compreender o facto de a vida emocional
preceder a vida intelectual, a relação primordial entre a mãe e o feto, a nossa
sede de emoções” (2). Para Gitlin nem tudo é positivo
nesta atitude moderna, achando que as pessoas hoje, por causa dos “mass media”, vivem obcecadas pelo divertimento – e não é
difícil ver como alguns movimentos religiosos novos são puro divertimento,
“hipermercados da religião”, mas reconhecer esses aspectos doentios não nos
deve impedir de reflectir no facto de, nas Igrejas, as pessoas já não se
contentarem apenas com doutrinas correctas e discursos mas esperarem uma
vivência mais profunda, esperarem que as suas emoções também se possam
expressar ali. Pode mesmo admitir-se a hipótese de que esta necessidade do
homem moderno para sentir seja uma condição excepcional para que as Igrejas,
usando métodos sérios e não os que estão a usar seitas religiosas, possam
protagonizar a primavera espiritual por que muitos têm orado.
A religião, a poesia e a
arte abarcam uma área da vida humana que é essencial e nem sempre o homem,
devido a preconceitos que foi criando, vive plenamente essa área. A religião, a
poesia e a arte são expressões da vida espiritual do ser humano
manifestadas de modos diferentes. É por isso que a leitura de um poema e
a leitura de um texto aceite como sagrado comunicam ao leitor e ao ouvinte
“predestinado” (3) sentimentos que Rudolf Otto na sua obra fundamental (4) , classifica como o
“numinoso”. Há um verdadeiro sentimento religioso num
grande artista, ou grande poeta, mesmo quando ele se afirma ateu, assim como o
há num não-artista ateu que viva intensamente uma
obra de arte ou ame a poesia, não a escrevendo. A verdade é que a arte e a
poesia não estão apenas com quem as produzem, mas estão também com quem as
buscam com amor, como consumidor. Bach é ouvido com
emoção também por aqueles que, não tendo recebido preparação para produzir
composições como as suas, comungam, no entanto, do mesmo sentimento artístico
daquele que as criou. É por isso que os artistas e os poetas precisam de
público: os que no público verdadeiramente os apreciam são a sua família
espiritual. Vem a propósito contar uma história que ouvimos na nossa juventude
referir a Almada Negreiros. Almada, que foi amigo de Fernando Pessoa, e foi
poeta, pintor, romancista, um artista de grande valor, introdutor do futurismo
em Portugal. Um dia, numa exposição de obras suas, um visitante de ar
intrigado, veio dizer-lhe:
Mestre, confesso que não
compreendo a sua obra...
E Almada Negreiros, mestre
em jogos de palavras, comentou, sério:
Mas isto não é para
compreender, meu caro senhor: é para rezar!
Há nesta resposta um ponto a
reter: é preciso que, diante da arte, tenhamos uma atitude de entrega como na
oração. E então tudo se tornará mais compreensível.
O professor brasileiro Pradelino Rosa, num ensaio sobre Fernando Pessoa escreve
este parágrafo sobre a poesia que poderia permanecer igual se, em lugar da
palavra poesia, ele tivesse posto a palavra religião: “A poesia expressa um
mundo para lá da razão. É por isso a vida no sentido absoluto. Todos os seres
são unificados na experiência apenas existencial, com o desconhecimento das
classificações racionais. Quem melhor encarna esse estado natural é a criança,
no seu sabat eterno. E já o poeta, com todos os outros seres se funde. Na
existência são irmãos e confraternizam; na atitude são irracionais e vivem; na
actividade são lúdicos e brincam; na lucidez são imaginativos e fantasiam; na
expressão são sensitivos e configuram; na vida são efémeros e passam” (5). O
único senão que ousaríamos opor a esta fala seria a de usar o termo
“irracional” para qualificar a atitude poética – e na nossa perspectiva a arte
e a religião. Se é de “um mundo para lá da razão” que a poesia (a arte, a
religião) nos fala, essa expressão não é irracional, porque não é contra a
razão, como a palavra irracional faz supor, mas é meta-racional,
ou extra-racional, como já tem sido chamada. “Para além da razão”, diz Pradelino Rosa e concordamos, mas não é o mesmo dizer
“irracional”. A razão não faz poesia, mas não há poesia contra a razão. Da
mesma maneira diremos que a razão não cria a fé mas não se opõe a ela.
Não é por mera coincidência
que as pessoas das igrejas, aquelas que vivem com grande empenhamento a fé
cristã, são, em geral, pessoas que gostam de música séria, de pintura, de
poesia, mesmo quando essa música, pintura, poesia não trata de temas
religiosos. De qualquer forma, dizer que a religião expressa um mundo
que está para lá da razão, como Pradelino Rosa diz da
poesia, não é dizer que ela está para lá da realidade: porque a razão não pode
abarcar toda a realidade. É por isso que é correcto o crente não ficar pelas
afirmações religiosas abstractas, doutrinárias, mas desejar também uma experiência
interior.
O Cristianismo, isto é, o
conjunto de correntes referenciadas a Jesus Cristo, reconhecido como divino e
humano, e fundamentadas no Novo Testamento, tem sido muitas vezes assumido na
perspectiva ideológica que Saraiva, nos últimos anos da sua vida, denunciava no
Socialismo marxista. Fala-se, por exemplo, em “salvação”, “pecado”, “céu” e
“inferno” sem que estas palavras sejam conotadas com aquilo que no nosso mundo
ocidental é considerado a realidade concreta da experiência dos seres humanos, o
que torna o discurso cristão incompreensível e mesmo imprestável para uma boa
parte dos nossos contemporâneos. Não ignoramos que essas e muitas outras
palavras são apenas afloramentos de símbolos, e os símbolos são sempre
empobrecidos quando procuramos expressá-los por conceitos, mas essa constatação
não recusa legitimidade ao homem moderno de experimentar pelos sentidos a
verdade do que é anunciado. Também poderíamos dizer como Almada que os símbolos
cristãos não são para compreender mas para “rezar”.
Pode dizer-se que esse
desejo do homem moderno de uma experiência sensorial das coisas da fé não
corresponde totalmente ao ensino da Reforma protestante do século XVI. Os
Reformadores protestantes, principalmente João Calvino, sublinharam o papel da
Bíblia como fundamento da Fé Cristã, proclamando com ênfase que é apenas nas
Escrituras que os cristãos têm a fonte da revelação (Sola Scriptura) e isso basta-lhes.
Mas essa ênfase tem de ser entendida no contexto da interpelação que esses
teólogos faziam à Igreja que queriam ver reformada. No decorrer dos séculos,
papas, concílios e a piedade popular tinham introduzido muitas inovações dentro
da Igreja, algumas delas claramente contrárias ao ensino do Cristianismo
primitivo. Como combater essas inovações se elas eram aceites pela hierarquia?
Apenas negando à hierarquia o direito de estabelecer o que é legítimo
Cristianismo e o que o não é. Os Reformadores, assumindo seriamente uma velha
reivindicação da Igreja, defenderam que, abrindo-se a disputa no seio da Igreja,
com uma corrente afirmando doutrinas que outra corrente rejeitava como
legitimamente cristãs, era necessário tomar as Escrituras, registo do
Cristianismo primevo, como árbitro da disputa. Exigência que não era original,
pois já no terceiro século as vozes que se levantavam contra
inovações perigosas era em nome da Escritura também que falavam. Todas
as tentativas de melhoramento da Igreja usaram sempre a Bíblia como autoridade
em nome da qual se pronunciavam. E mesmo nas vésperas da Reforma foi em nome do
ensino do Novo Testamento que o grande humanista e clérigo Erasmo de Roterdão
criticou a situação deplorável da Igreja, embora depois não acompanhasse Lutero
no esforço reformador. A preocupação por “ir às fontes”, isto é, fazer
afirmações doutrinárias a partir dos textos originais (Aristóteles, por
exemplo, requerem os humanistas, deve ser conhecido a partir dos textos gregos,
em lugar de se ficar pelos comentadores) é uma das características do movimento
Humanista, de que Erasmo é um dos mentores, e o nosso Damião de Gois um dos
cultores, entre muitos dos seus contemporâneos
Outra das razões por que os
Reformadores realçaram a importância das Escrituras foi a luta que tiveram de
fazer ao que alguns chamam “a ala radical da Reforma”. Tratava-se de grupos em
geral designados por “anabaptistas” que, no calor das mudanças revolucionárias
surgidas, se diziam iluminados pelo Espírito Santo, com visões e revelações
directas e sem controlo e que, com os seus ensinos e acção, ameaçavam destruir
toda a obra da Reforma. Os mais radicais destes “iluminados”, como Tomás Muntzer, levaram o povo a tomadas de posição
revolucionárias e suicidas, sem terem em conta as limitações concretas da
sociedade em que se encontravam. Em certo sentido, faziam do Cristianismo uma
“ideologia” separada da realidade, como na denúncia de Saraiva que citámos no
início deste livro. Para chamar o povo à razão e à recusa de falsas revelações
havia a necessidade de apelar para a Bíblia, para o que estava escrito. João
Calvino, o teólogo de Genebra, na sua obra-prima, a “Instituição da Religião
Cristã”, dedica um capítulo a argumentar duramente contra “alguns espíritos
fanáticos que pervertem os princípios da religião, não fazendo caso da
Escritura para poderem seguir melhor os seus sonhos, sob a afirmação de
revelação do Espírito Santo” (6). “Não
fazendo caso da Escritura”, denuncia Calvino. O problema para Calvino
não é o crente deixar-se guiar pelo Espírito, mas é não fazer caso da
Escritura.
Essa ênfase na Escritura,
que era e é correctíssima, acabou por criar condições para, em gerações
posteriores, surgir uma ortodoxia protestante fria, um biblicismo perigoso,
preso à letra da Escritura, que fazia do Cristianismo, sob muitos aspectos,
também e paradoxalmente, uma “ideologia” seca, um doutrinarismo
que pouco ou nada tinha a ver com “o coração do ser humano”. Para muitos, a
Bíblia passou a ter o mesmo papel que para os fundamentalistas islâmicos tem o
Alcorão, sem se aperceberem que é na mesma Bíblia que está escrito “A letra mata e o Espírito é que vivifica” II
Coríntios 3:6.
Ora os Reformadores,
especialmente o mesmo João Calvino, não foram de modo algum fundamentalistas;
primeiro, porque sublinharam a necessidade de ler a Bíblia sem ignorar a
leitura que os cristãos dela tinham feito ao longo dos séculos, isto para
evitar o orgulho de se pretender ver nela aquilo que nunca fora visto antes; e
sublinharam também a realidade do testemunho interior do Espírito Santo, que
ajuda a compreender a Escritura. É
este equilíbrio entre a Escritura e a acção do Espírito Santo que salvaguarda a
Igreja e o crente de desvarios. Foi um pastor pentecostal americano,
sobre quem não caiu a mínima suspeita de modernismo, Aidem
Wilson Tozer, o autor destas palavras: “Entre pessoas
religiosas de inquestionável ortodoxia acha-se às vezes uma obtusa dependência
da letra do texto, sem a mais ténue compreensão do seu espírito. É preciso
manter constantemente diante das nossas mentes que em sua essência a verdade é
espiritual, se de facto queremos conhecer a verdade. Jesus Cristo é, ele
próprio, a Verdade, e ele não pode ser confinado a meras palavras, apesar de
que, como cremos ardentemente, ele mesmo inspirou as palavras. O que é
espiritual não pode ser encerrado por tinta nem cercado por tipos de papel. O
melhor que um livro pode fazer é dar-nos a letra da verdade. Se alguma vez
recebermos mais do que isso, há-de ser pelo Espírito Santo que no-lo dá”. (7)
Para os cristãos dos nossos
dias, como para os que depois de nós virão, mantém-se a necessidade de ter a
Bíblia como “pedra de toque” para aquilatar da legitimidade ou não do que se
quer apresentar como Fé Cristã, mas é preciso reconhecer que o homem não é só
intelecto, que não basta que uma afirmação seja reconhecida como ortodoxa e que
o culto da Igreja seja celebrado com “decência e ordem”. Esse tipo de
Cristianismo, doutrinariamente correcto e bem comportado, instalou-se em muitas
Igrejas e fez delas lugares onde se boceja e se toscaneja. Muitas vezes as igrejas são autênticos
cemitérios espirituais. Isso nota-se sobretudo entre
os seus dirigentes (pastores ou leigos) que discutem com acrimónia questões de
categoria pessoal, títulos e outras minudências e tratam os assuntos da Igreja
como se fossem assuntos de uma empresa. Em tais Igrejas observa-se uma grande
falta de interesse até de pastores que quando podem não desempenham o
ministério para que foram ordenados. Reuniões de oração e estudo bíblico são
dirigidas por leigos sem formação, enquanto o pastor sistematicamente está
ausente. No Protestantismo chamado histórico, apesar dos ecos que nele teve no
seu tempo o pensamento de um teólogo como Schleiermacher
(1768-1834), que sublinhou a importância do sentimento na questão da fé e viu
na Bíblia essencialmente narrativas de experiências religiosas, manteve-se uma
linha de grande contenção em relação a elementos místicos, isto é, a tudo o que
não se limitasse à Palavra, mesmo que o conceito de Palavra não se restrinja à
Bíblia. O Protestantismo erradamente dito “liberal”, de camadas sofisticadas da
média burguesia, olha com suspeição tudo o que lhe pareça misticismo e receia
as formas populares de religiosidade. Entretanto, um Protestantismo mais recente, passou por grandes movimentos chamados “despertamentos” (em inglês “revivals”
e em francês “réveils”) que, justamente, se
caracterizaram pela importância dada às emoções, à experiência da conversão, ao
“baptismo do Espírito Santo”, expressão bíblica que indica uma experiência do
divino, ao fenómeno da glossolália, ou do “falar
línguas” (8). É interessante realçar que as chamadas “Igrejas históricas”
portuguesas não-romanas tiveram a sua origem no
século XIX como resultado da missão estrangeira, que se deveu não a teólogos
moderados e muito menos a teólogos liberais, mas a pastores envolvidos no
espírito revivalista. Robert Kalley
(1809-1888), por exemplo, o pai do Presbiterianismo
em Portugal, era um crente com o fervor de um recém-convertido, pois apenas se
tornou cristão convicto em 1835, três anos antes de chegar ao Funchal. Quem lê
a vida do Dr. Kalley
(9) não pode deixar de sentir que
esse admirável cristão não tinha de Deus um conhecimento meramente livresco e
intelectual (conceptual). Um dos hinos da tradição evangélica da nossa língua cuja letra
leva o nome do apaixonado missionário de Portugal e do Brasil tem esta estrofe
dirigida ao Espírito Santo muito significativa:
Maravilhas soberanas
Outros povos vêem;
Oh! Derrama a mesma bênção
Sobre nós também!
As “maravilhas” que outros
povos da época da composição do hino estavam a ver e a que o médico-pastor alude eram os despertamentos
que lançavam as Igrejas da Grã-Bretanha, da Suíça, da França, dos Estados
Unidos, num fervor que fazia lembrar os tempos apostólicos – fervor que teve
ecos, pois, no nosso país, através dessa geração de gigantes da fé que foram o
próprio Robert Kalley, Ellen Roughton, Diogo Cassels, Robert H. Moreton, e na geração seguinte já de portugueses: Joaquim
dos Santos Figueiredo, Eduardo Moreira, Anselmo da Figueira Chaves, José
Augusto dos Santos e Silva, Joaquim Rosa Baptista e outros. Aliás, o hinário de
que faz parte esse hino ao Espírito Santo acima citado, o “Salmos e Hinos” , que foi por mais de cem anos comum às Igrejas nascidas da
acção desses grandes servos de Deus, está cheio de hinos que reflectem o
cristianismo vivo e feliz desses dias.
A grande adesão das pessoas
hoje aos movimentos religiosos que sublinham a experiência da comunhão com Deus
mostra que, se o Protestantismo tradicional tem um discurso ortodoxo muito
respeitável, e suficiente para a
salvação, sublinhe-se, ele corre, no entanto, o perigo de não servir
senão, talvez, para uma minoria que privilegia o discurso intelectual, o que é
louvável, mas não pode atingir a generalidade das pessoas. Os próprios
intelectuais também precisam de ser salvos – e não são os discursos apenas de argumentos conceptuais que
podem atingir o todo da sua personalidade. A experiência pessoal do autor
destas linhas, integrado numa das Igrejas do chamado Protestantismo histórico,
leva-o a questionar-se se um Cristianismo deste tipo prioritariamente
discursivo pode realmente satisfazer o ser humano na sua complexidade. O homem
é uma realidade indivisível de corpo-alma-espírito. O
corpo “soma”, em grego, é a parte física do ser humano; a alma, “psyché” em grego, é a vida psíquica, com o intelecto, as
emoções, a vontade; espírito, “pneuma” em grego, é o “sopro divino”, a imagem
de Deus no homem. As Igrejas tradicionais tendem a dirigir-se quase apenas à
“alma” da pessoa e nem, sequer a todas as faculdades da alma, privilegiando a
razão, através de doutrinas e conceitos – mas a alma é apenas uma parte da
pessoa. “Uma Igreja que não fale ao homem tridimensional não satisfaz
totalmente.”
É excessivamente grande,
proporcionalmente falando, o número de cristãos desta área que manifestamente
têm um Cristianismo que não dá alegria, não mobiliza, não entusiasma. A ida ao
culto para muitos destes cristãos é um fardo que se deixa por cumprir se se encontra um pretexto razoável. E qualquer contrariedade,
qualquer falta de atenção do pastor ou de outro irmão é suficiente, muitas
vezes, para levar a pessoa a abandonar por semanas, meses ou para sempre a sua
congregação. Às vezes a simples mudança de pastor leva ao abandono dos cultos.
“Estava tão habituada à pregação do pastor Fulano que não me diz nada a
pregação do novo pastor” – justificou-se com simplicidade uma senhora, que só
assistiu à pregação do novo pastor num Domingo.
Não se ignora que em muitos
movimentos “entusiastas” (10) há, por vezes, grandes perturbações, desvarios e
excessos perigosos, mas erramos se, para combater excessos, caímos noutro
excesso, igualmente mau, embora de sentido contrário. Não se pode ignorar que
Jesus Cristo combateu os religiosos do seu tempo, em especial os fariseus, que
se caracterizavam justamente pelo seu formalismo, bem intencionado certamente,
racional e bem comportado, mas destituído de calor humano e de compaixão, como
muito bem ilustra a Parábola do Bom Samaritano Lucas
10:25/37. Infelizmente, e paradoxalmente, dentro do Cristianismo, hoje como
sempre, muitos cultivam esse mesmo tipo de religião farisaica. Simão, o
fariseu, que recebeu Jesus em sua casa, como nos conta Lucas
7:36/50, sem alegria e sem ouvir de Jesus a palavra de perdão, é o
protótipo de muitos cristãos que o recebem na sua vida, e vivem igualmente sem
que nele encontrem alegria e perdão.
O propósito deste estudo é
mostrar que o cristão tem, não só o direito, mas mesmo o dever de fazer da sua
fé no Deus manifestado em Jesus Cristo não apenas uma questão de adesão
intelectual ao ensino de Cristo, como também uma questão de experiência
pessoal, de relação interior com o Espírito de Cristo (11). Há uma experiência
real com Deus , experiência profunda e exultante, que
é possível, que tem sido vivida por muitos cristãos e que está ao alcance de
todos os que confessam Cristo como Senhor e Salvador. Ser cristão não é apenas
um tema de aceitação de um credo, de uma Palavra “exterior”, mas de uma experiência
viva, “interior”, do divino. Num livro que tem causado alguma polémica e cuja
tradução em português foi editada em 2001 «A Igreja Católica ainda tem futuro?», diz o padre Herbert Haag, seu autor, que
“Jesus nunca pensou em renunciar ao seu povo judeu, pretendeu, sim,
interiorizar o Judaísmo”. Não concordamos com várias afirmações desta obra, mas
pensamos importante realçar nesta frase a palavra “interiorizar”. De facto, o
grande problema do Judaísmo dos dias de Jesus é o de se concentrar no exterior,
no ritual, na forma, o que levou Jesus a comparar certos chefes religiosos a
sepulcros caiados por fora Mateus
23:27.
Se Cristo combateu esse tipo
de religião formal, legalista e fria, é legítimo acreditar que o seu ensino nos
levará a um tipo de relação com Deus diferente desse; uma ligação tão próxima,
tão agradável e tão tangível que permita ao crente dirigir-se a Deus chamando-lhe
“Querido Pai”, expressão que traduz a palavra aramaica que Jesus e a Igreja
primitiva usavam, falando com Deus: “Abba!” Romanos
8:15.
Este livro nasceu da
insatisfação experimentada por mim ao longo dos anos em relação ao tipo de
Cristianismo em que tenho vivido e que presencio, não apenas na Igreja de que
sou pastor mas também em outras denominações. Inconformista, recusei-me a
aceitar a fatalidade do enfado e tomei como lema esta palavra de Jesus: “Buscai e encontrareis” Mateus
7:7. Do que encontrei fiz estas páginas que partilho com todos aqueles que
não se sentem satisfeitos com a beberagem que frequentemente é oferecida aos
que ouviram o convite de Cristo, que disse: “Se alguém
tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de
água correrão do seu ventre!” João
7:37/38. Mas o que as pessoas recebem muitas vezes para beber como mensagem
de Cristo são discursos moralistas, de um moralismo individualista e
conservador, ou de um moralismo social e pseudo-progressista,
beberagem que não mata a sede do homem. Fazem-nos “gastar dinheiro naquilo que
não é pão”, quando o Senhor proclama com generosidade: “Oh! Vós todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes
dinheiro, vinde comprai e comei; sim vinde comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” Isaías
55:1/2
Capítulo II – EIS O
HOMEM
A expressão com que
titulamos este capítulo costuma ser usada em latim, da versão da Bíblia feita
para essa língua por São Jerónimo, e foi dita pelo hesitante Pilatos ao
apresentar Jesus à multidão: “Ecce homo!” (Eis o homem, Ev.
João
19:5).
A frase é usada em vários
sentidos. Um deles, irreverente e lamentável, usado quando alguém se apresenta
a si ou apresenta outra pessoa. Como se dissesse: “Aqui estou eu!” ou “Eis a
pessoa de quem lhe falei!” Não foi, obviamente, com essa intenção agarotada que
Pilatos se referiu a Jesus naquela vergonhosa Sexta-feira. É mais plausível
que, desejoso como estava de evitar a morte de Jesus, Pilatos tenha querido
despertar a piedade da multidão. Como se dissesse: “Reparem! Este homem é
inofensivo. Será correcto condenar à morte este pobre ?”.
Mas a frase tem um outro sentido, pelo menos numa perspectiva cristã. Desse
outro sentido não podia Pilatos ter consciência, mas acontece, por vezes, que
homens totalmente afastados de Deus anunciam, sem o saber, verdades divinas.
Ali, embora frágil e humilhado, estava o Homem, o perfeito Homem, o padrão de
toda a Humanidade. Jesus é “o homem verdadeiro que, no seio dessa mesma
humilhação, inaugura a realeza messiânica” (12).
Dizer que Jesus é o padrão
de toda a Humanidade não deve ser entendido, forçosamente, como se a proposta
dos Evangelhos fosse a de a Humanidade passar a viver imitando Jesus Cristo. É
essa a interpretação de muitos que a si mesmos se consideram “cristãos
progressistas”. Nessa perspectiva, o Cristianismo é apenas mais um humanismo.
Não se nega que haja mérito no esforço por imitar Jesus, e muito menos se nega
a existência de exortações nesse sentido no Novo Testamento, mas não é esse o
caminho mais excelente. Há um famoso livro devocional que vem da Idade Média e
é atribuído ao frade Tomás de Kempis, com o título “A
Imitação de Cristo”, que propõe o progresso espiritual e moral colocando Cristo
como modelo. Esse livro ainda hoje merece a nossa atenção, como merece ser lida
a novela evangélica de Charles Shelton “Em Seus Passos que Faria Jesus?” com
a mesma proposta. Os que chamamos pseudo-progressistas
põem Jesus como modelo revolucionário que ele é em parte mas é muito mais do
que isso também. A imitação subentende que o modelo é exterior ao imitador, e
essa não é a proposta principal do Novo Testamento. Muitos actores no teatro e
no cinema têm interpretado a figura de Jesus Cristo, dando a aparência de um
homem de quem se disse que andou neste mundo fazendo o bem. Mas o esforço por
actuar perante o público ou as câmaras imitando Jesus não trouxe
necessariamente mudanças profundas e definitivas sobre tais actores. A imitação
pode ficar-se apenas pelo exterior – e acaba por se tornar, ironicamente,
farisaísmo (13). Não temos encontrado membros de Igrejas, incluindo pastores,
com expressões angélicas à força de imitarem Cristo exteriormente, mas cujo
convívio os revela como pessoas desleais? A imitação da figura central dos
Evangelhos é, em parte benéfica, se feita com sinceridade, mas a expectativa do
Novo Testamento é muito mais ambiciosa do que o aperfeiçoamento moral que a imitação
de Cristo proporciona. Na verdade, a colocação de Jesus como ponto de
referência ética e moral tem essencialmente este objectivo: levar o crente, na
comparação, a perceber como é pecador. Ao cotejarmos a nossa vida com a de
Jesus, perdemos todas as ilusões acerca de nós e dizemos, parafraseando um
famoso anúncio antigo: “Eu julgava que a minha vida era branca, antes de ver a
tua!” Mas o Novo Testamento vai mais longe. «Ele anuncia, nada
mais nada menos, que quem aceita Jesus Cristo como Senhor e Salvador da
sua vida nascerá para a Vida Nova, isto é, para a vida do Homem Novo, que é
Cristo». Mais ainda: Jesus anuncia aos seus discípulos, perto da hora da sua
crucificação - “Um pouco e
não me vereis e mais um pouco e ver-me-eis, porque eu vou para o Pai” João
16:16. Assim, este “ir para o Pai”, não é ir para além das nuvens, ficando
afastado dos discípulos. Pelo contrário significa ficar mais perto, porque é
ficar “habitando” neles. E é quando os discípulos recebem o Espírito da Vida
que eles se tornam pessoas realmente com vida, porque quem não encontrou a
verdadeira Vida, que é Cristo, ainda que esteja biologicamente vivo está morto
(Mateus
7:13; Lucas
15:32; Efésios
2:1; Colossenses
2:13). O homem natural, “na carne”, isto é, sem Cristo, é um ser incompleto
e incapaz de ser aquilo que de mais elevado e nobre deseja ser. Não tem ainda a
“Vida Abundante” que Cristo prometeu aos que nele crêem João
10:10. É um ser decaído, com capacidade para sonhar e desejar fazer o bem,
mas sem capacidade de pôr em prática tais sonhos e desejos. Uma das expressões
mais dramáticas dessa situação encontra-se na Epístola aos Romanos quando
Paulo, falando na perspectiva do homem natural, o homem sem Cristo, afirma: “Vejo nos meus membros uma lei que batalha contra a lei do
meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus
membros. Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”
Romanos
7:23/24. Antes tinha dito: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não
quero, esse faço” (v. 19).
Alguns têm visto nesta frase
de Paulo a descrição da situação em que o próprio Paulo, apesar de crente e
apesar de apóstolo, se encontrava, mas o contexto mostra que é do homem na
carne em geral que o apóstolo fala, obviamente valendo-se da sua própria
experiência.
Olhando para Jesus como o
Homem, aquele que viveu autenticamente a vida integral de um
ser humano, e comparando a sua maneira de viver com a nossa, percebemos que há
em nós potencialidades enormes que não estão a ser vividas, justamente
porque algo em nós nos impede de viver integralmente. A história de Adão e Eva
e do pecado original fala-nos dessa incapacidade do ser humano de viver
integralmente. Quando se diz que o homem é pecador, não é por ele fazer isto ou
aquilo considerado pecado, mas é pecador no sentido de ser “incapaz” de viver plenamente, de
“acertar no alvo” (14). Não é pecador por praticar pecados; é-o naturalmente.
Jesus é em tudo semelhante
ao homem, menos no pecado, e a Bíblia diz que, assim como os israelitas, na sua
travessia do deserto, ao serem mordidos pelas serpentes, quando olhavam com fé
para a serpente de metal empunhada por Moisés, não morriam, também na travessia
da vida todo o que olhar para Jesus com fé se salvará (Evangelho de João
3:14/15). Para os propósitos deste livro, olhamos para Jesus para que
possamos perceber as potencialidades da nossa vivência que nos são oferecidas
na mensagem do Novo Testamento. A promessa aí registada é a de que “quando ele se manifestar, nós seremos semelhantes a ele” I
João 3:2. É verdade que se trata de uma promessa escatológica (ou seja,
para os últimos tempos), mas houve já na primeira manifestação ou vinda de
Cristo (parusia) expressões importantes que é
necessário ter em conta para o enriquecimento da nossa vida cristã agora.
Muitos vêem no Cristianismo apenas “um caminho para o céu”, mas podemos ou
devemos olhá-lo desde já como «o método de Deus para vivermos aqui na terra com
tanta intensidade e felicidade que possamos ver o céu já aqui».
Vemos em Jesus uma relação
de intensa comunhão com o Pai. Deus não é para ele, de modo algum, um Ser
distante e um Juiz impassível, mas Alguém pleno de compaixão, extremamente próximo
de todo aquele que O busca. E essa experiência que tem do Pai não é apontada
como uma possibilidade apenas sua, como se fosse um privilégio de quem é o
Filho Unigénito de Deus. Faz parte da própria natureza de Deus e é, portanto,
uma possibilidade para todo o que Lhe abrir as portas da sua vida. O passo
enorme em frente na compreensão de Deus é essa Sua natureza amorosa que é
revelada por Jesus Cristo. Não foi Deus que mudou, nem é o “velho Deus severo
do Antigo Testamento”, como alguns deduziram, que deu lugar ao Deus de Amor de
Jesus Cristo. É o mesmo e único Deus, mal compreendido pelos homens, que Jesus
revela.
Mas como abrir as portas da
nossa vida e fazer Deus entrar nela, não apenas como uma palavra, como ideia,
como doutrina, mas como “Presença”? O Evangelho de João reporta-nos estas
palavras atribuídas a Jesus: “Se alguém me ama,
guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele
morada” João
14:23. Permitam-me que diga esta frase com destaque: «Ser habitado pela
divindade é uma possibilidade claramente admitida neste lugar da Escritura,
como noutros». E significa que qualquer cristão tem a oportunidade de uma
experiência real, concreta, do divino, pois não se poderia compreender que essa
“Presença” se fizesse sem que
os elementos sensoriais do cristão não a percebessem. Essa habitação da
divindade no cristão, que faz dele um templo, é, nos versículos 16 e 26 desse
capítulo, referida em termos de vinda do Paráclito, o Espírito Santo, sem que
haja contradição, pois a Fé Cristã não fala de três deuses mas de um só Deus,
que se manifesta em três Pessoas. O próprio Espírito Santo é, noutras passagens,
também chamado o Espírito de Deus ou Espírito de Cristo Romanos
8:9 ou Espírito do Senhor II
Coríntios 3:18. O que a doutrina da Trindade pretende é dizer que Deus,
habitando os Altos Céus, onde é o Pai, encarnou em Jesus Cristo e está presente
como Espírito na vida daquele que O recebe.
Esta situação de o Espírito
Santo vir habitar o crente é designada por incarnação (“in”,
latim, envolve a ideia de “entrada”: a entrada de Deus na carne). São João diz
que quando Jesus veio ao mundo “O Verbo fez-se carne”. Os cristãos continuam
este mistério da incarnação de Deus.
O dom do Espírito Santo
feito por Deus à humanidade é a satisfação de uma velha aspiração do povo
israelita. Esse povo que tinha uma Aliança (15) com Deus feita na Lei, esperava o tempo de uma Nova Aliança em que já não teria
de obedecer a uma Lei exterior, gravada na pedra, a Lei de Moisés, mas uma “Lei
gravada no coração do homem”, interior, portanto, em que o próprio Deus falasse
a cada homem. O profeta Jeremias, que viveu seiscentos anos antes de Cristo, foi o grande
divulgador dessa promessa, dizendo em nome de Deus: “Este
é o concerto que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o
Senhor: porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu
serei o seu Deus e eles serão o meu povo. E não ensinará alguém mais a seu
irmão, dizendo: conhecei ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o mais
pequeno até ao maior, diz o Senhor. Porque lhes perdoarei a sua maldade, e
nunca mais me lembrarei dos seus pecados” Jeremias
31:33/34. Vê-se que o acima citado Herbert Haag tem razão quando fala da intenção de Jesus de
“interiorizar o Judaísmo”. Para Jeremias, os sacrifícios no templo e os rituais
mecânicos são de pouco ou nenhum valor, porque o importante quando o Messias
aparecer é viver a interioridade que se anuncia nessa aliança nova. Diz-se, e
com razão, que Jeremias é um profeta profundamente interessado na questão
social, nos problemas da justiça e da defesa dos pobres. Mas essa vertente nele
é acompanhada por um forte sublinhar da relação íntima, pessoal, com Deus. A
relação dita vertical (do homem com Deus) só é verdadeira quando em simultâneo
com a relação horizontal (com o próximo). Um profeta que vivera dois séculos
antes, Joel, pregara já sobre um tempo novo que viria em que o Espírito de Deus
seria derramado sobre toda a humanidade Joel
2:28/32. Falar do “derramamento do Espírito”
é falar da experiência do divino.
A Igreja Cristã identificou
a Nova Aliança (Novo Testamento) com a obra realizada por Jesus Cristo Lucas
22:20 e
I
Coríntios 11:25, que inaugura o tempo da salvação; e o Pentecostes com a
profecia de Joel, quando o Espírito Santo começou a ser derramado sobre os
cristãos Actos
2:1/21. Ou seja: «a Fé Cristã é o cumprimento da promessa de um
relacionamento com Deus, que não se limita a cerimónias e a doutrinas mas passa
pela Presença de Deus na vida do crente». O Cristianismo não é, como alguns
gostam de dizer, “uma religião do Livro”, mas Presença de Deus na vida do
crente. Se é fácil de perceber que, ao longo da história do Cristianismo e nos
nossos dias a vida de muitos cristãos não dá sinais claros dessa presença, a
conclusão a tirar é que esses mesmos cristãos não têm reunido as condições normais para que a
promessa se cumpra. Veremos adiante que não se trata de uma questão de a
experiência do divino ser uma espécie de galardão oferecido por um Deus
caprichoso a quem se comportou bem, mas sim de sabermos sair das nossas
próprias inibições e receber com simplicidade o que Deus antecipadamente nos
quer oferecer. Muitos são cristãos sinceros, de cuja salvação não se pode
duvidar, possivelmente dando uma boa contribuição para melhorar o mundo, mas
ignoram que há “mais qualquer coisa” que Deus lhes quer dar com a salvação. Se
morressem hoje, não há que duvidar, seriam recebidos pelo Pai, mas o problema é
que antes de morrerem não gozam todos os benefícios da salvação. É como se
alguém fosse a uma livraria comprar um livro, pagasse e se preparasse para sair
sem ter verificado um aviso posto na loja: “Pela compra de um livro, oferecemos
uma caneta graciosamente!”. Leve o livro e não despreze a caneta; aceite a
salvação e a experiência do baptismo ou da recepção do Espírito Santo, aqui
chamados “experiência do divino”.
O ser humano foi criado com
tanta dignidade, como um pequeno deus (Salmo 8, 5), e nem o próprio Deus nos
forçará a aceitar o que, por decisão pessoal ou mesmo por ignorância, não nos
dispomos a aceitar. A experiência do divino faz parte da oferta de Deus, mas
Ele não nos obrigará a aceitá-la.
Uma advogada francesa,
autora de um excelente livro com o título “L’évangelisation des profondeurs”, escreve este período: “Demasiado
ligados à terra, tornamo-nos matéria. Acreditando-nos apenas espírito,
instalamo-nos numa forma de fuga ou de rebelião contra a nossa condição. Num
caso e noutro não estamos inteiros. Vai ser necessário viver estes dois polos e de os ajustar, unificá-los. Viver o infinito no
finito, permitir ao Espírito que habite a nossa carne. É o sentido da
incarnação.” (16).
Veremos que é simples o modo
de viver a experiência do divino prometida aos cristãos, mas a tendência humana
é tornar complexo o que é simples. Estamos sempre a repetir o erro de Naamã, o
general sírio que, atingido pela lepra, foi a Israel pedir ao profeta Eliseu
que orasse a Deus para sua cura. Enquanto viaja para Israel, Naamã deve ter
imaginado que o profeta iria fazer algo de espectacular para alcançar a sua
cura, mas o servo de Deus nem sequer lhe apareceu e mandou dizer pelo seu
auxiliar que Naamã mergulhasse sete vezes nas águas do rio Jordão. Zangado,
Naamã dispôs-se a retirar-se sem cumprir o que Eliseu dissera, mas os seus
servos sabiamente observaram-lhe: “Se o profeta te
tivesse dito alguma grande coisa, tu não a farias? Quanto mais dizendo-te ele:
lava-te e ficarás purificado (curado)”. Ou
seja: “Estarias disposto a fazer algo complicado que o profeta mandasse. Porque
não fazer o que ele mandou, sendo tão simples?”. Convencido por este argumento,
Naamã mergulhou sete vezes no Jordão e ficou são II
Reis 5:1/19. Muitas vezes o que nos parece singelo e banal esconde em si a
solução do nosso problema. E o problema de muitos que frequentam as igrejas, são baptizados e professos é que para eles a fé evoca
apenas enfado e rotina. Um autor que já citámos, Carl-Gustav
Jung, observou que nenhum sistema religioso
inteiramente racional consegue satisfazer o homem. Não defendeu, nem nós
defendemos, a adopção de vias irracionais, como o mostraremos adiante, mas
sublinhamos as limitações da simples racionalidade. Uma estudiosa de Jung descreve numa frase o pensamento desse autor sobre
esta questão: “Quando uma religião procura evitar o paradoxo está simplesmente
a enfraquecer-se” (17). O facto de Jung não ter sido
um cristão formal não retira autoridade científica à sua observação que é feita
a partir dos factos.
Entretanto, antes de
encerrarmos este capítulo, impõe-se uma precisão. O leitor poderá deduzir de
várias afirmações que faço nas páginas precedentes, que na minha concepção do
Cristianismo não há lugar para as cerimónias, rituais e mesmo doutrinas, e que
tudo na Fé Cristã tem de ser interioridade e intimismo. Mas o que pretendi foi
apenas realçar a necessidade também da
interioridade e intimismo, de uma experiência que passa igualmente pelos
sentidos, aspecto que me parece não ser suficientemente tido em conta por
muitas correntes cristãs, mas não penso ser possível a exclusividade desses
elementos. Tendo desempenhado por muitos anos a função de professor de Teologia
Prática, sempre procurei mostrar aos meus estudantes a importância das
cerimónias e dos rituais. Até num casal isto é verdade. O casal que simplifica
demasiadamente as coisas e no dia marcado para se casarem vai em roupa de
passeio a um registo civil assinar um protocolo diante de um funcionário, está,
à partida, mais fragilizado na sua união do que o casal que fez desse dia um
dia especial, vestiu-se da forma mais pomposa que os seus rendimentos
permitiram, juntou os seus amigos e avançou, comovida e solenemente, com o som
da marcha nupcial, ao longo de um templo engalanado, para receber com
reverência a Bênção de Deus para o seu matrimónio. Mas é fácil de perceber que
apenas cerimónias e rituais não alimentam a alma humana. É gastar o nosso
dinheiro naquilo que não é pão. O Pão da Vida, que alimenta verdadeiramente, é
Jesus Cristo João
6:35. Ele disse que veio para que as suas ovelhas tenham vida e a tenham
com abundância João
10:10. Essa Vida Abundante é produzida pela presença de Cristo na vida do
discípulo. Façam-se as cerimónias que se acharem mais bonitas e significativas,
mas sem negligenciar no mais importante: o Espírito vivificador.
Do que falamos, quando
falamos da viver a vida em plenitude? Falamos de viver a vida na comunhão com
Deus. Esses momentos caracterizam-se pela maneira intensa como a vida é então
sentida. Podem ser momentos que passam rapidamente, deixando, no entanto, uma
forte recordação, ou momentos mais demorados, mas neles sentimo-nos
inteiramente presentes, concentrados na vida. E podem acontecer estando a
pessoa sozinha, numa igreja, em sua casa, numa montanha, à beira-mar, ou a
pessoa está rodeada de outras, num grupo pequeno ou numa multidão, a conduzir
um carro, no meio de grande tráfego. Pode ser num momento de acção religiosa
(cultuando, orando, falando de Deus), mas também pode ser numa situação
“secular”, olhando uma criança, falando com uma pessoa amiga, ouvindo música,
contemplando uma obra de arte – mas produz sempre um sentimento de alegria, de
gosto de viver. De comunhão com a Vida, com Deus.
Não é originalidade minha
usar a imagem do copo de água para falar do problema da exterioridade e da
interioridade na relação com Deus, ou, por outras palavras, do problema da
religião e da fé. É a fé que é importante para se chegar à plenitude da vida e
não a religião, mas ver-se-á que é um tanto artificial separar fé da religião.
Diz-se e bem: a fé é que salva e não a religião, mas pensai: considero, olhando
um copo de água, que a água é a fé na sua pureza, mas para a bebermos
precisamos do copo que a contém. É pelo copo que consumimos a água que nos sacia
a sede. Seria loucura destruir o copo com o argumento de que a água é que nos
mata a sede, porque destruindo-o perderíamos a água nele contido, assim como
seria errado dispensar a água para privilegiar o copo. Admiramos o menos
litúrgico e mais interiorizante dos movimentos
cristãos que conhecemos – o Quaquerismo – que adora a
Deus numa simplicidade total – mas não o apresentaríamos como modelo a seguir
por toda a Igreja, pois vemos na secura da sua adoração, quase apenas
apropriada a místicos, a explicação do processo da contínua redução numérica em
que se encontram os Quakers
e que parece encaminhá-lo para o desaparecimento total. Deve, sem dúvida, como
Jeremias, alertar-se para a falsa segurança do culto pomposo, onde a
preocupação única parece ser agradar aos olhos do homem, e deve acentuar-se a
necessidade de o culto ser celebrado “em Espírito e em
verdade”, como o Senhor requer João
4:24, mas isso não significa a rejeição de uma liturgia, nem exclui o
cuidado pela beleza e mesmo pela arte no culto cristão. Como oficiante, tenho
experimentado profundo júbilo na celebração da Ceia do Senhor com liturgias nem
sempre muito simples, onde não faltam os elementos tradicionais como o “Sursum Corda”, o Prefácio, o “Sanctus”,
a Anamnésis, a Epiclesis, o
Pai Nosso e o “Agnus Dei”. Pelo contrário, a Ceia celebrada com demasiada
simplicidade, como já vi fazer, por vezes com explicações escusadas, deixam-me
espiritualmente frio e vazio. E a experiência tem-me mostrado que quando não há
ordem e reverência nos lugares de culto e se desprezam posturas tradicionais de
respeito (discrição, levantar-se para orar, escutar de pé a leitura do Evangelho,
etc.), a qualidade da fé/testemunho é muito afectada. Mesmo na adoração
privada, pode ajudar o uso de elementos exteriores. A questão, então, não está
em querer apenas a exterioridade ou apenas a interioridade da fé, mas em haver
um relacionamento pessoal profundo com Deus tão real que dê sentido ao que se
faz e se diz como cristão. É evidente que o Cristianismo tem também doutrinas,
princípios, declarações de fé – e é indispensável conhecê-los e estudá-los,
usando a razão consciente, mas sem esquecer que o principal não é isso. O
principal é uma Pessoa: Jesus Cristo, que disse: “Não
vos deixarei órfãos” João
14:18
Capítulo III –
RECEBEREIS O PODER
Quando lemos o livro dos
Actos dos Apóstolos, ficamos forçosamente impressionados com o dinamismo da
Igreja nascente. Dinamismo é, aliás, a palavra justa para definir a situação,
porque o étimo de dinamismo é o grego “dynamis”, que significa “poder” e essa é a palavra
que aparece na boca de Jesus quando, depois da Ressurreição, disse aos seus
discípulos que iriam receber “o poder (dynamis) do Espírito Santo” que viria sobre eles e
os capacitaria a serem testemunhas de Cristo, “tanto em Jerusalém como em toda
a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” Actos
1:8. É da experiência desse poder que estamos a falar quando falamos da
“experiência do divino”.
O que se constata em toda a
actividade da Igreja nascente é que ela actua, realmente, com poder “dynamis”,
não, obviamente um poder compreendido como capacidade para mandar sobre as
pessoas, uma autoridade para forçar alguém a obedecer, mas um poder no sentido
de que a sua acção tinha resultados concretos na transformação da realidade.
Depois do “acontecimento” prometido em Actos
1:8, a pregação causava conversões, havia uma grande reverência, os crentes
viviam em grande comunhão e partilhavam os seus bens, “e
muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos” Actos
2:42/47.
Esse acontecimento, a
“descida do Espírito Santo” que, como já vimos, era esperado desde a pregação
de Joel, muitos séculos antes, fez-se no dia de Pentecostes, uma das principais
festas do calendário judaico. Nesse dia, estando os cristãos reunidos num mesmo
lugar, veio, de repente, sobre eles um ruído semelhante ao soprar de um vento
forte. Apareceram, lê-se nesse livro, umas como que línguas de fogo sobre as
cabeças dos que estavam reunidos, e todos ficaram cheios do Espírito Santo e “começaram a falar em línguas estranhas, conforme o espírito
os impelia a que falassem” Actos
2:1/14. O narrador diz que esses homens e mulheres que receberam o Espírito
começaram a falar com as pessoas que iam aparecendo, pessoas de diversas
origens que teriam vindo a Jerusalém em peregrinação e tinham sido atraídas
pelo que acontecera ao grupo cristão. E quando falavam da sua fé a esses
espectadores espantados, falavam-lhes nas línguas dos próprios ouvintes! Além
disso, o comportamento dos cristãos, como resultado do fenómeno que se
observara, era tão pouco moderado que alguns dos que os viam disseram: “Estão bêbados!”.
Essa foi a primeira e
principal “efusão do Espírito Santo” sobre os cristãos, mas em todo o livro de
Actos há muitos outros momentos em que esse fenómeno se produz. De facto, é tal
a quantidade de vezes em que o autor de Actos se refere à acção do Espírito
Santo através dos apóstolos e de outros discípulos e discípulas que se tem dito
que o verdadeiro nome do livro devia ser “Livro dos Actos do Espírito Santo”,
título que bem poderia ser dado ainda hoje, visto em nenhum lugar dele se
indicar um título.
De acordo com as palavras
introdutórias desse livro, percebe-se que o seu autor é Lucas, companheiro de
Paulo, e também autor do Evangelho com esse nome, crendo-se que a sua intenção
foi dar com esta obra continuação ao Evangelho. No Evangelho contara o que
Jesus «começou» a fazer e a
ensinar, e nos Actos como o mesmo Jesus «continuou»
a fazer e a ensinar, depois da Ascensão, incarnado na Sua Igreja.
Lucas não era um historiador
mas uma testemunha de Jesus Cristo e, por isso, não podemos usar o livro de
Actos, ou qualquer outro documento da revelação bíblica, como usamos um
trabalho de história, mas os melhores especialistas observam que este livro é
de extrema utilidade para conhecermos a vida da Igreja primitiva. Martin Dibelius (1883-1947),
notável especialista alemão do Novo Testamento, considerou Lucas, por causa do
Evangelho e deste Livro de Actos, o primeiro historiador da Igreja, mas
historiador no sentido teológico (18). O que isto quer dizer é que Lucas não se
contenta com descrever os acontecimentos, mas interpreta-os também a partir da
sua fé. Historiador-teólogo como, por exemplo, parece
ter sido a atitude do padre jesuíta Gabriel Malagrida
que viveu nos dias do marquês de Pombal e interpretou o terramoto de Lisboa de
1755 como castigo de Deus feito aos portugueses. O todo
poderoso primeiro-ministro do rei José I não apreciou essa interpretação e
levou a Inquisição a condená-lo e executá-lo como herege. Damos este exemplo
apenas para que se perceba que por detrás de uma interpretação há factos reais
que não podem ser negados. E os factos reais do Livro de Actos indicam que a
Igreja ali descrita é uma Igreja pluralista na organização e nos ministérios e
também uma Igreja que está longe do clima legalista, ritualista e formal da
maioria das Igrejas dos nossos dias, onde muitas vezes há quem tenha “poder”,
mas apenas um poder baseado nos papeis, nos acordos humanos, em habilidades de
gabinete, no dinheiro ou até graças a verdadeiros crimes, como aconteceu na
Roma papal em tempos
tenebrosos.
O Livro de Actos é, dizem
alguns, o retrato idealista da Igreja. Não se trata, argumentam, da Igreja que
existiu mas da Igreja que se deseja. É uma opinião, mas dela podemos, pelo
menos, aceitar, este aspecto: nas páginas deste Livro encontramos, de facto, o
estilo de Igreja que devemos desejar ser.
Quando, por razões
históricas compreensíveis, a partir do século IV, a Igreja adoptou estruturas
fixas do ministério e começou a formular os seus dogmas, ao mesmo tempo que
privilegiava a vertente sacerdotalista da sua missão,
em detrimento da função profética, entrou-se no período mais formal do
Cristianismo e tornaram-se raras as manifestações de tipo carismático descritas
no Livro de Actos e nas epístolas do Novo Testamento. Àqueles que perguntavam a
razão desse empobrecimento da vida da Igreja, passou a dar-se esta resposta:
Deixou de haver manifestações do Espírito Santo porque esses tempos descritos
no Novo Testamento foram tempos especiais, postos no plano de Deus para a
introdução da fé no mundo. Quando morreu o último dos apóstolos, acabaram-se
esses tempos de prodígios e sinais e a Igreja passou a viver na normalidade. Em
certos meios do Protestantismo diz-se que neste período pós-apostólico em que
vivemos a missão da Igreja é anunciar a Palavra e ser fiel ao ensino dos mesmos
apóstolos. Alguém observou há anos que os grandes movimentos apresentam-se
sucessivamente por três estados, como a água: o estado gasoso (nos seus
inícios); o estado líquido em seguida, quando começa a estabilizar-se – e
finalmente o estado sólido quando a temperatura baixou bastante. Seria essa a
situação da Igreja Cristã, que no livro de Actos apresenta um Cristianismo no
estado gasoso (Espírito), em seguida, até ao século IV, entra na institucionalidade – e depois solidifica-se (ou
petrifica-se!), tornando-se essa religião seca e burocrática das Igrejas. Mas a
História mostra-nos que tem havido períodos de grande secura, de doutrinarismo frio e sem paixão, que são, subitamente,
abanados por correntes de vivacidade e alegria no Espírito.
Não há nenhum lugar das
Escrituras que justifique a afirmação de que com a morte dos apóstolos
terminava o período da direcção do Espírito Santo, chegava ao fim a
manifestação de dons, acabavam-se os “prodígios e sinais”. Não há razão para
não se poder esperar que o ambiente descrito no Livro de Actos e em algumas
cartas paulinas não possa repetir-se em qualquer época, ou não possa justamente
ser o ambiente “normal” de qualquer Igreja. A História do Cristianismo mostra
que, de facto, sempre houve manifestações que chamamos carismáticas, ou de
“experiência do divino”, ao longo dos séculos. Êxtases, glossolália,
curas, visões mesmo, têm sido verificados na vida de vários cristãos e cristãs.
Houve sempre ao longo dos dois mil anos depois de Cristo um “Cristianismo pneumocêntrico” (19). Creio que foi prejudicial ao
Cristianismo tomado globalmente ter-se chegado a identificar essa atitude com o
misticismo e o misticismo como uma característica rara e limitada a um escol de
predestinados. Na verdade, a “experiência do divino” não tem de ser vista como
um privilégio raro, de alguns “santos” (quase sempre clérigos), mas deve ser
considerada uma oportunidade para todos os cristãos, sejam eles operários,
patrões, donas de casa, lavradores, médicos, pastores ou de qualquer outra
actividade. Não é necessário ser uma Teresa de Ávila, um João da Cruz, um George Fox, ou um Lutero para se
ter uma experiência tangível de Deus. Prova disso é o primitivo movimento
metodista, o despertamento do País de Gales e o movimento pentecostal do
princípio do século XX. O próprio papa João XXIII, que convocou o Concílio
Vaticano II para o “aggiornamiento” da sua Igreja,
orou a Deus pedindo que, com esse Concílio, houvesse “um novo Pentecostes”. Não
se pode dizer que o papa Roncali pedisse a “pentecostalização” da Igreja romana, mas essa oração mostra
a sua convicção de que um verdadeiro renovamento só é possível quando os
cristãos se deixam encher pelo Espírito que veio no primeiro Pentecostes.
Há um número enorme de
relatos de experiências do divino, escritos pelos seus protagonistas ou por
quem os ouviram dos próprios protagonistas, que mostram à saciedade a
importância que tais experiências têm na qualidade do testemunho cristão. Um
dos relatos mais conhecidos é aquele que teve como protagonista o matemático e
filósofo cristão francês Blaise Pascal, um católico
oposto à linha oficial da sua Igreja. O texto dessa narrativa só foi encontrado
oito anos depois de Pascal ter morrido, quando o homem que fora seu criado,
mexendo num gibão que o sábio usara, notou haver dentro do forro algo espesso.
Descoseu o forro e foi encontrar lá um pergaminho com um texto na letra do seu
falecido amo. Era a descrição em estilo resumido escrita por Pascal na noite de 23 de
Novembro de 1654 e começava assim:
«Ano
da graça de 1654. Segunda-Feira 23 de Novembro... Desde aproximadamente as dez
horas e meia da noite até perto da meia-noite e meia hora». Referia-se ao tempo que
durara a sua experiência do divino. Depois aparece uma palavra misteriosa:
«Fogo». É impressionante que use esta palavra, se nos lembrarmos que nos
Evangelhos, João Baptista, o Precursor de Cristo, dirigindo-se à multidão,
afirma: “Eu baptizo-vos com água, para arrependimento;
mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não
sou digno de levar, ele vos baptizará com o Espírito Santo e com fogo” Mateus
3:11.
Entretanto, o enigmático
pergaminho de Pascal continua:
«Deus
de Abraão, de Isaque e de Jacob, não dos filósofos e dos sábios.
Certeza.
Certeza. Sentimento. Alegria. Paz.
Deus
de Jesus Cristo.
...
Esquecimento do mundo e de tudo, menos de Deus.
Ele
não é encontrado senão pelos caminhos indicados no Evangelho.
Grandeza
da alma humana. “Pai Justo, o mundo não Te conheceu, mas eu conheci-Te”.
Alegria,
alegria, alegria. Lágrimas de alegria.»
Trata-se, sem dúvida, de um
texto estranho, onde Pascal quis registar imediatamente os sentimentos que
viveu naquela noite memorável, um texto que não tinha certamente por objectivo
ser divulgado, pois era a expressão natural, espontânea de uma experiência que
marcou profundamente esse homem. Se séculos depois o nosso Fernando Pessoa diz
que toda a carta de amor é ridícula, referindo-se ao amor humano, perceber-se-á
que um texto íntimo que fala do amor divino não poderia ser uma elaboração
artística. Mas o que Blaise Pascal escreveu da sua
experiência com Deus serve para nos mostrar a forte impressão que ela teve no
sábio.
É importante sublinhar uma
das primeiras frases deste testemunho de Pascal: “Deus de Abraão, de Isaque e
de Jacob, não dos filósofos e dos sábios”. A experiência mostrava-lhe que Deus
é o Deus próximo, que fala aos homens, que entra na experiência viva de homens,
como Abraão, como Isaque, como Jacob. O intelectual desgostado diante de uma
vida sem horizontes, que não conseguira da Filosofia e da Razão respostas para
a sua sede da Verdade, descobriu nessa noite de 1654 que o Deus Transcendente é
também o Deus presente, Aquele que se torna íntimo do homem. É também nos “Pensamentos” deste homem notável que existe o célebre aforismo – O coração tem
razões que a razão não conhece – e que devemos ter bem presente enquanto
estudamos o tema deste livro.
Capítulo IV – SEM FÉ É IMPOSSÍVEL...
A tendência é pensar-se que,
se alguém quer fazer a experiência cristã do divino, deve preparar-se,
cumprindo certos requisitos prévios. Aponta-se a oração, o jejum, uma maior
santificação. Faz-se isso tudo como que num período de espera, pois fica claro
que os discípulos e discípulas que receberam a efusão do Espírito Santo no
primeiro Pentecostes tiveram de “esperar” e quando o Espírito veio sobre eles
encontrou-os reunidos em oração. Mas a verdade é que não há nenhuma passagem
das Escrituras que estabeleça quaisquer preparativos para essa experiência, nem
mesmo, por mais que isso possa estranhar, a oração. Sabemos que há grupos
cristãos que falam da oração como via indispensável para esta experiência que
chamam, como o Novo Testamento, de “ser cheio do Espírito Santo”. Entre eles
realizam-se reuniões de oração, precedidas de jejuns, que se prolongam às vezes
pela noite fora e em que os clamores se resumem no pedido: “Envia, Senhor, o
teu Espírito!”. E deve dizer-se que muitas vezes é depois de muitas horas que,
efectivamente, há manifestações da acção do Espírito. Pode parecer que, afinal,
sempre há uma preparação para se ter a experiência do divino, mas a verdade é
que, sem negar a importância da oração e do jejum, o que levou à experiência
não foram esses elementos mas a fé daquele ou daquela que queria ser “cheio do
Espírito Santo”. A sua igreja ensinou que se impunha muita oração e era
necessário o jejum e o crente seguiu essa via. Jejuou, orou, chorou, clamou – e
nada acontecia ao fim de muitas horas. Veio então, subitamente, um momento em
que duvidou do valor da «sua» oração e do «seu» jejum e percebeu que, afinal,
tudo dependia exclusivamente de Deus - e esse foi
justamente o momento da fé: porque «ter fé é abandonar-se totalmente em Deus
por Jesus Cristo». O fervor da oração não é um «caminho» para a fé: quando é
verdadeiro, ele é antes «produto» da fé. O jejum também não é caminho para a
fé, mas pode ser a decisão natural da fé. Há quem passe por experiências
psicológicas profundas depois de prolongados jejuns voluntários ou não, mas
essas experiências não são do divino, e os médicos dão delas fácil explicação.
Mas não teremos que ser
dignos de receber a experiência do divino? Não teremos de melhorar a nossa vida
(santificação)? É certo que nunca seremos puros para podermos receber a visita
do Deus Santo, mas não teremos, pelo menos, de afastar de nós os pecados mais
grosseiros, como a idolatria, o adultério, o roubo, o crime? São perguntas
pertinentes, mas que se confrontam sempre com a questão essencial, que é esta:
se acreditarmos que, por «não» sermos idólatras, «não» sermos adúlteros, «não» sermos ladrões, «não» sermos criminosos, já podemos
entrar na área do divino, já Lhe agradamos, estamos a ter uma concepção muito
moralista e infantil de Deus. Não estou a subestimar a moral, nem a dizer que é
o mesmo ser um cidadão de bom comportamento, com pecados menos chocantes do que
os acima referidos, ou ser um celerado. Mas é um facto que se um adúltero, por
hipótese, chegasse ao momento da fé estaria nesse momento na condição de pôr
fim ao seu pecado: se recebesse o dom do Espírito Santo não era o adúltero que
o receberia mas agora já o crente justificado por Cristo. O seu adultério
terminaria ali. Se esse homem voltasse ao seu adultério isso significaria que,
na verdade, não fora uma experiência do divino a que tivera, mas demoníaca.
Pela fé, o homem torna-se “filho de Deus” João
1:12 e o filho de Deus não vive cometendo pecado I
João 3:9. Quer isto dizer que os cristãos são pessoas perfeitas? Não,
porque em cada cristão continuará a haver o “velho homem”, que o levará a errar
até ao fim da vida. Como disse Martinho Lutero, o cristão é ao mesmo tempo
justo e pecador. A diferença que fará do homem que se não converte é que esse
peca e ri-se do seu pecado, repetindo-o sempre; e aquele que se converteu a
Cristo sente o peso do seu pecado, arrepende-se, e abandona-o. Vai voltar a
pecar, não forçosamente fazendo males excessivos, mas voltará a levantar-se e a
sua vida irá progressivamente aproximando-se da estatura do homem perfeito,
Jesus Cristo. É esse aproximar-se progressivamente do modelo que se chama
santificação. Perguntaram a um escultor na televisão portuguesa: “Está
satisfeito com a sua obra?” e ele respondeu: “Não: um artista que fique
satisfeito com o que faz, perde a capacidade de
criar”. O cristão, mesmo cheio do Espírito Santo, nunca ficará satisfeito com a
“sua obra”, com o modo como vive, pois o seu alvo é Cristo, mas dirá como
Paulo: “Eu não me julgo a mim mesmo. Ainda que eu não
me sinta culpado de nada, não é por isso que me considero justificado. Quem me
julga é o Senhor” I
Coríntios 4:3/4.
Chegados aqui devemos
reconhecer que a vida de alguns cristãos pode ser até mais infeliz do que a
vida do homem sem Cristo, porque, como acabamos de dizer o homem sem Cristo
“peca e ri-se do seu pecado”, não tem, em princípio, problemas de consciência,
e segue em frente, alegre e folgazão. Enquanto muitos cristãos, visto que
falham aqui e ali, sentem a dor de pecar, lamentam-se, confessam o seu pecado a
Deus, batem com a mão no peito: “Minha culpa, minha culpa, minha máxima
culpa!”. A culpabilidade, temos de reconhecer, torna dura a vida de muitos
cristãos...
Mas é justamente a esse tipo
de Cristianismo sem alegria, esmagado pelo sentimento de culpa, que é preciso
lembrar a necessidade da “experiência do divino”. Porque essa consciência
atormentada, e esses fracassos constantes na caminhada da fé são o resultado de
o cristão não se “encher do Espírito Santo”, e viver um Cristianismo de
palavras, de regras, de rituais, mas sem o “poder” que Jesus prometeu aos seus
fiéis. As suas vidas, sendo vidas honestas de pessoas salvas, não são “vidas
vitoriosas” e estão sempre cheias de altos e baixos. São vidas a que falta o “fruto do Espírito Santo”, a que se refere Gálatas
5:22. Olhando para a vida dos que são por vezes chamados “gigantes da fé”,
o que vemos é tudo menos contínuo desgosto de si, de amargura, de peso do seu
pecado. Houve um tempo, no século XIX, em que em certos meios intelectuais
esteve na moda comparar o modo de viver dos antigos pagãos com a vida dos cristãos, para
gabar os primeiros, pois viviam as suas grandes bacanais com alegria e para apontar o estilo doloroso da vida
cristã. Esqueciam-se de falar da ausência de piedade entre os pagãos, dos
sacrifícios humanos, da prática generalizada do infanticídio, da pedofilia, do
desregramento das orgias que acabava muitas vezes em tragédias, do terror dos
pagãos diante da morte; mas tinham alguma razão na denúncia que faziam de um
certo Cristianismo, mais entre católicos mas também entre protestantes, que
vestia de negro,
cultivava a dor (o dolorismo) e
considerava pecado tudo o que desse prazer ou tornasse feliz. Mas ao lado desse
Cristianismo triste, havia, sempre houve, muitos cristãos que viviam espalhando
amor ao próximo, sendo sal da terra e luz do mundo com vidas em que, mesmo com
doenças, pobreza ou outros problemas, a nota principal era a da serena alegria.
É importante sublinhar que no reduzido texto de Pascal citado no capítulo
anterior a palavra “alegria” (joie, em francês) é a que mais se repete.
O ponto a realçar é este: a experiência do divino é possível
a todo aquele ou aquela que tenha fé. Jesus não mandou aos seus discípulos,
segundo Actos l,8, que se recolhessem em prolongada
oração e jejum, nem que se esforçassem para melhorar o seu comportamento, a fim
de estarem aptos a receber o poder que viria sobre eles. O Espírito é que veio
melhorar muito a vida deles e delas. Se o Espírito veio quando estavam em
oração foi apenas, certamente, porque o Senhor quis que o primeiro Pentecostes
se desse a todos no mesmo momento – e eles só estariam reunidos todos num mesmo
momento para orarem. Depois disso, o dom do Espírito foi dado em reuniões de
oração ou não, a grupos mas também a pessoas que estavam isoladas. Dwight Lyman Moody
(1837-1899), famoso evangelista americano, contou que, tinha já muitos anos de
actividade como pregador com êxito, quando teve a experiência da “plenitude do
Espírito Santo” em Nova Iorque, ao meio-dia, «quando caminhava numa rua» –
destaco eu, para que o importante pormenor não passe despercebido. Foi um gozo
tão grande que gemeu, feliz,
pedindo a Deus que parasse o que estava a acontecer e as suas
pernas fracassaram, como um homem embriagado. Lembram-se? Os observadores do
comportamento dos cristãos no primeiro Pentecostes disseram: “Estão bêbados!”.
O autor da carta aos Hebreus
escreve assim no capítulo 11, versículo 6: “Sem fé é
impossível agradar a Deus: porque é necessário que aquele que se aproxima de
Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que
o buscam”. Hebreus
11:6
Não há aqui uma definição da
fé, mas o primeiro versículo desse mesmo capítulo dá uma a que nos referiremos
adiante; no entanto, diz-nos algo que é necessário ter em conta na reflexão que
vimos fazendo. Aquele que duvida da existência de Deus, em princípio não terá a
possibilidade de ter uma experiência de Deus. É claro que, por definição, Deus,
sendo o Todo-Poderoso, até a esses pode comunicar-se (longe de nós estabelecer
regras para o Altíssimo!), mas a lógica da própria revelação leva a pensar que,
por escolha d’Ele, é impossível que isso aconteça.
Deus criou o homem livre e quere-o livre. Se, por
hipótese, um ateu que fosse a caminhar pela rua como Moody
recebesse, de súbito, o dom do Espírito Santo, numa experiência igual à de Moody acima referida, das duas uma:
ou o ateu se convertia e isso seria conversão coagida (o que seria contrário à
natureza de Deus), ou o ateu achava que tinha enlouquecido – e isso poderia
ser-lhe muito prejudicial. Pelo menos, nesta segunda hipótese, teria sido uma
experiência em vão. Se um intelectual sem fé tivesse uma experiência igual à de Pascal,
ficaria por certo tão negativamente
perturbado que nada de bom a experiência juntaria à sua vida. Provavelmente,
consultaria um psiquiatra e este, se fosse ateu, receitar-lhe-ia drogas que lhe
adormeceriam a consciência. Ao fim de alguns anos de “tratamento”, é possível
que fosse mesmo um psicopata...
Há um outro aspecto que é
preciso ter presente para compreendermos a importância da fé para se passar
pela experiência do baptismo do Espírito Santo. Já vimos que uma pessoa pode
ser cristã há muitos
anos, isto é, crer em Cristo há muitos anos (tendo fé) e não ter
a experiência da plenitude ou baptismo do Espírito. Não é dúvida que está
salva, pois a Bíblia diz: “pela graça sois salvos, por
meio da fé” Efésios
2:8. Mas quanto mais feliz seria na terra e quanto mais desejo de servir,
se tivesse também as experiências! O obstáculo é o tal outro aspecto da palavra
“fé” a que
acabei de aludir: a certeza de que o baptismo e o falar línguas são
experiências possíveis também hoje para «todos»
os cristãos. Se eu tenho a certeza de que tenho na minha biblioteca o
livro “Jesus”, de Leonardo Coimbra, embora a minha biblioteca esteja
muito mal arrumada e o livro seja pouco espesso, terei do o encontrar, mais
cedo ou mais tarde. Mas se eu não me lembrar que comprei esse livro, nem de o
ter lido, então nem sequer o procurarei. Se eu, lendo noutro livro uma citação
daquele ensaio do estudioso português e pensar que gostaria de ter essa obra, mas que me é inacessível, é
evidente que não procurarei o livro na minha biblioteca, nem o lerei. Se o
leitor, que conhece bem a Bíblia, se convencer de que as experiências
espirituais de que o Novo Testamento fala continuam acessíveis, o leitor está
com muitíssimas mais probabilidades de as viver do que se pensar, como tantos
cristãos, sinceros e salvos sem dúvida, mas sem fundamento bíblico neste ponto,
de que o tempo dessas experiências já passou. Moody foi
cristão e até grande pregador antes de ter a experiência da plenitude do
Espírito Santo muito provavelmente porque só tardiamente passou a admitir a
possibilidade dessa experiência.
Para falar de algumas
experiências espirituais, especialmente de místicos como Teresa de Ávila,
fala-se, por vezes, em “casamento místico”: a alma do crente é como a noiva que
se une ao seu amado, Deus. Essa metáfora ajuda-nos a compreender melhor a razão
por que, no plano de Deus, sem fé é impossível ter uma experiência do divino.
Porque a característica da fé é a aceitação, a adesão feliz a Deus. Não é só
acreditar que Deus existe: é também acreditar que d’Ele
vem todo o bem, que Ele te ama, que Ele é “galardoador”,
como diz o versículo em questão na versão tradicional da Bíblia, ou que Ele
recompensa. Num verdadeiro casamento humano é indispensável que ambos se
aceitem, sem coacção de espécie alguma. Um casamento não “se consumará” se um
dos nubentes se recusar à união. Fé é o sim do crente a Deus. Fé e amor são
conceitos que devem caminhar juntos na perspectiva bíblica: “A fé opera pelo amor”, escreve São Paulo Gálatas
5:6. É por isso que dizemos que é impossível receber a plenitude do
Espírito sem fé, mas podíamos dizer também é impossível receber o Espírito “sem
amor”. E isso permite-nos compreender que Jesus tenha dito aos apóstolos: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o
amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” João
14:23.
A definição que a carta aos
Hebreus dá da fé é esclarecedora no contexto do nosso tema: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a
prova das coisas que se não vêem” Hebreus
11:1. Se um membro da Igreja não espera receber a “experiência do divino”,
não a receberá. É como se alguém tiver sede mas se recusar a beber a água que lhe oferecem. Não é
correcto obrigar uma pessoa a beber, se ela tem relutância em fazê-lo.
Para ajudar a compreender o
sentido bíblico da fé, gosto de apresentar uma comparação vulgar. Imagine-se um
homem, António, que tem de pagar amanhã uma importância que ultrapassa as suas
posses. Está inquieto, mas recebe um telefonema do seu amigo José que, sabedor
da situação, lhe diz: “Amanhã de manhã estarei aí para te entregar o dinheiro
de que precisas”. Pode António agora dormir descansado? Pode: porque ele
conhece José, sabe que tem a possibilidade de lhe emprestar aquele dinheiro e
sabe que José é um homem sempre cumpridor da sua palavra. Se ele diz que estará
lá na manhã seguinte,
estará de certeza. É claro que estamos a
falar em termos simplificados, pois a vida está cheia de imponderáveis e esta
noite José pode morrer. A “parábola” serve apenas para mostrar que António, em
princípio, pode dormir descansado por ter “fé” na palavra de José. Se prometeu,
cumpre. Infelizmente, tratando-se de seres humanos, esta “fé” é fraca.
Na Bíblia, a fé é a
tranquila aceitação da Palavra que Deus nos dirige. Se Deus me diz que me
perdoa em Jesus Cristo, porquê continuar amargurado com o meu pecado de que
estou arrependido e corrigi na medida do possível? Se Deus me diz que sou salvo
pela graça, justificado em Jesus Cristo, como duvidar da minha salvação? José,
amigo de António, costuma ser fiel à sua palavra, mas é humano e está ainda
assim condicionado por muitas dificuldades – mas Deus é o Deus soberano, o
Todo-Poderoso, e nada nos deve limitar na aceitação do que Ele promete na Sua
Palavra. Ora, a promessa exultante de Jesus Cristo em relação ao tema que
estamos a tratar é esta: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai
e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque qualquer que pede recebe; e quem
busca acha; e quem bate abrir-se-lhe-á. E qual é o pai de entre vós que, se o
seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou também, se lhe pedir peixe, lhe
dará por peixe uma serpente? Ou também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um
escorpião? Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto
mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” Lucas
11:9/13.
Um pastor aceitou
tranquilamente este ensino de Cristo. Foi para a sua congregação e fez um
estudo sério do assunto com os seus irmãos. Depois convidou todos a ficarem de
pé e a pedirem a Deus o Espírito Santo. Quando o culto terminou era evidente a
transformação operada em todos, sentindo uma comunhão com Deus até ali não
experimentada. Simples de mais? Lembrem-se do general Naamã...
Quando pedimos perdão a Deus
por algo que fizemos errado, em seguida não temos de ficar à espera de ouvir
uma voz ecoar nos altos céus a dizer: “Estás perdoado. Vai em paz!”.
Simplesmente aceitamos, com fé, o que a Palavra nos diz: “se
confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados,
e nos purificar de toda a injustiça” I
João 1:9. Do mesmo modo, se pedimos o Espírito Santo, aceitamos
simplesmente com fé que Deus cumpre também essa Palavra. E a partir desse dia o
crente sente uma comunhão com Deus como nunca sentiu antes. Esse pastor
confessou a um íntimo: “Quando ando na rua por vezes tenho de ter cuidado, pois
sinto os passos alterados, cambaleantes, como se tivesse bebido bebida
alcoólica”.
No capítulo VI falarei do
dom das “línguas estranhas”, mas por agora lembrarei que o cristão ou a cristã
que faz a experiência do divino, a recepção do Espírito, não se torna melhor
nem pior do que era, e pode falar desse assunto com simplicidade porque nem
sequer, infelizmente,
fica isento de continuar a falhar. Não lembrei já que o cristão é
até à morte “ao mesmo tempo justo e pecador” (Lutero)? Só pela morte
alcançaremos a perfeição, na vida vindoura. Na experiência do divino, apenas, e
não é nada pouco!,
realizamos melhor a vocação do nosso eu. Por isso é que gosto de
associar o dia em que um cristão recebe a plenitude do Espírito Santo a um
poema de Sebastião da Gama sobre o dia do seu nascimento natural: