Experiência do divino (MC)

Pastor Manuel Pedro Cardoso

 

 

ÍNDICE

Capítulo I -         “Provai e vede”          

Capítulo II -        “Eis o homem”          

Capítulo III      “Recebereis o poder”        

Capítulo IV -      “Sem fé é impossível...”     

Capítulo V       “Enchei-vos do Espírito”          

Capítulo VI –     “Falarão novas línguas”          

Capítulo VII –    “Orarei no espírito”           

Capítulo VIII -    “Todas as coisas lhes eram comuns”  

Capítulo IX     “Apresentai os vossos corpos”   

 

George G. Hunter III, no seu livro To Spread the Power, manifesta a sua convicção de que a obra da missão evangelística só é feita por cristãos e Igrejas que cumpram estas quatro condições:

1ª - Vejam a sua identidade na continuidade dos Apóstolos;

2ª - Vejam o lugar onde a Igreja está como um campo de missão;

3ª - Estejam prontos a receber o poder do Espírito;

4ª - Desejem acima de tudo o mais juntar-se ao Senhor da Seara na busca dos perdidos e na construção daquela Igreja contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.

As páginas que se seguem foram escritas por um pastor que, ao longo do seu ministério, tem estudado  a 3ª condição.

 

 

Capítulo I - PROVAI E VEDE

 

No seu estilo irónico e contundente, o falecido professor António José Saraiva dizia um dia nas páginas do semanário “Expresso” que, para o ideólogo, a realidade concreta da vida só existe para confundir, e é ela que tem de se adaptar à ideologia e não esta aquela. Se bem me lembro, esta crítica do autor da “História da Cultura em Portugal” foi feita antes da queda do Muro de Berlim (1989), que geralmente se aponta como o prenúncio do desprestígio de todas as ideologias.

O facto é que o homem dos nossos dias é céptico em relação a tudo que não esteja claramente ancorado na realidade tangível. O homem de hoje não se contenta com o discurso racional abstracto, com a doutrina bem elaborada, mas requer a prova da experiência, dos sentidos, do vivido. Este tipo de cepticismo tem no seu bojo alguns perigos, dos quais o menor não é o de o homem acabar por se contentar com as pequenas realidades do quotidiano imediato e desprezar as potencialidades do seu próprio ser e das utopias, sabendo-se que uma verdadeira utopia, por definição, não é uma quimera irrealizável nem irracional mas é antes um projecto por realizar. Aliás, deve mesmo questionar-se, como já o fez Carl-Gustav Jung (1), se podemos circunscrever o real àquilo que é pressentido pelos sentidos, ou se não devemos, como o homem oriental, considerar como real tudo o que faz parte da psique.

O Cristianismo não pode temer esta característica do homem moderno, característica que, aliás, tem muito a ver com a própria mensagem bíblica e que em especial o Protestantismo legou ao mundo. Alguns pensam que Jesus requer uma fé cega quando diz a Tomé: “Bem-aventurados aqueles que não viram e creramJoão 20:29. É evidente que o dito de Tomé “ver para crer” não é elogiado por Jesus, mas “ver” é uma coisa e “sentir” é outra. Neste livro, mais adiante, diremos mais sobre o significado de crer ou ter fé, e perceber-se-á que não tem de ver com provas visuais, mas com confiar – no entanto, não se confia cegamente. O Protestantismo justamente combateu a ideia medieval escolástica da autoridade: uma coisa é verdade porque a Igreja diz que é verdade.  A Reforma falou abundantemente da necessidade de cada cristão, pessoalmente, conhecer, convencer-se da verdade. Diz-se que passou a religião da esfera do objectivo para o subjectivo: não basta pertenceres à Igreja, é preciso que tu  mesmo estejas convertido a Cristo. Tem-se falado criticamente da “fé do carvoeiro” aludindo-se a esta situação:

- Em que crês, carvoeiro?

- Creio no que crê a minha Igreja.

Não é, naturalmente, a fé do “carvoeiro”, profissional humilde, apenas que se denuncia mas a de todos os que, universitários incluídos, aceitam viver numa fé em segunda mão, porque se limitam a repetir as crenças que outros formularam. “Deus perdoa?” “Claro que perdoa: a minha Igreja assim o diz”. A exortação, contudo, a fazer é esta : “Provai e vede que o Senhor é bom; feliz o homem que nele confiaSalmo 34:8. É cada um, cada uma, que deve esforçar-se por ter uma experiência pessoal de Deus. Ninguém se torna cristão - no verdadeiro sentido da palavra, que é viver numa relação pessoal com Cristo e ser aquilo que o Novo Testamento chama “filho de Deus” - apenas por estar arrolado a uma igreja, mas o evangelista João diz que Deus deu a faculdade de se tornarem “filhos de Deus” àqueles que “crêem em Jesus CristoJoão 1:12. Mais para a frente veremos que “crer em Jesus Cristo” não é apenas acreditar que ele existiu e deixou um ensino. O ponto que agora importa realçar é que não se é cristão apenas por participar de cerimónias numa igreja, mesmo que essa cerimónia seja a Profissão de Fé, nem por herança (“sou cristão porque venho de uma família cristã”, dizem alguns). Um famoso evangelista disse com alguma graça irreverente: “Deus não tem netos!”. Ser cristão é o fruto de uma relação eminentemente pessoal entre o crente e Cristo.

Não se pode negar que um realce nas experiências pessoais (subjectivas) na Fé Cristã tem os seus perigos. Pensemos, por exemplo, na questão do perdão dos pecados. Todo o crente, por mais dedicado, está sujeito a transgredir um dos mandamentos de Deus, num ou noutro momento, principalmente o Mandamento Novo, que nos manda amar ao próximo. Arrependido, confessa a Deus o seu pecado. E depois? Será que Deus perdoou mesmo? Como encontrará a paz? Uma jovem católica  disse uma vez a um amigo protestante: “Nós, católicos, confessamos ao padre os nossos pecados, ele dá-nos uma penitência e em seguida absolve-nos. Ouvimos claramente o perdão (objectividade): “Eu te absolvo, minha filha. Vai em paz”. Mas vocês, protestantes, confessam a Deus, no segredo dos vossos corações, os vossos pecados. Como podem ter a certeza de serem perdoados?”. No caso protestante tem de intervir a subjectividade? Outro exemplo: a Ceia do Senhor ou Eucaristia. O Catolicismo diz que as palavras de consagração do sacerdote agem e o Pão e o Vinho tornam-se Corpo e Sangue de Cristo, objectivamente. Os protestantes fazem depender da fé – ou seja da subjectividade. Se o ministro é um velhaco, se o crente é um patife, tudo está ameaçado. Quem vive dentro do Protestantismo, como o autor destas linhas, sabe que muitas vezes as pessoas sofrem situações como estas: andam anos a confessar pecados e nunca mais se acham perdoadas; participam da Ceia e dizem “não senti nada!”. E no entanto, paradoxalmente, o Protestantismo tem a chave da resolução do problema: é a doutrina que afirma ser a Bíblia a única e suficiente regra de fé e prática (Sola Scriptura). Como é que o pecador arrependido sabe objectivamente que está perdoado? Atendo-se ao texto bíblico que diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiçaI João 1:9. Se o crente ler ele mesmo esta palavra ou a ouvir ler por um pastor, por um leigo, é nesta palavra que descansará e não nos seus próprios sentimentos. Quanto ao Pão e ao Vinho da Ceia é também objectivamente que está escrito: “Este é o meu Corpo; este é o meu SangueI Coríntios 11:23/26, e é nisso que o crente confia e não nos seus sentimentos. Conta-se que Lutero, quando se discutiu diante dele se sim ou não Cristo estava presente na Ceia, tomou um giz e escreveu num quadro com firmeza as palavras com que Jesus instituiu este sacramento: “Este é o meu corpo!”. Lutero era fundamentalista? Não: mas sabia haver textos que devem ser tomados com objectividade.

É certo, porém, que uma maior expressão de subjectividade religiosa entrou no mundo moderno pelo Protestantismo e naturalmente reflecte-se em várias áreas da vida. É essa, entre outras, a razão por que o homem moderno tem tanta necessidade de sentir. Uma revista de Lisboa publicou recentemente uma entrevista com o professor americano Todd Gitlin que tem apontado para esta característica da civilização moderna ocidental e este estudioso cita um autor do século XIX, Georg Simmel, que começara a ver esse fenómeno: “Simmel ajudou-me a compreender o facto de a vida emocional preceder a vida intelectual, a relação primordial entre a mãe e o feto, a nossa sede de emoções” (2). Para Gitlin nem tudo é positivo nesta atitude moderna, achando que as pessoas hoje, por causa dos “mass media”, vivem obcecadas pelo divertimento – e não é difícil ver como alguns movimentos religiosos novos são puro divertimento, “hipermercados da religião”, mas reconhecer esses aspectos doentios não nos deve impedir de reflectir no facto de, nas Igrejas, as pessoas já não se contentarem apenas com doutrinas correctas e discursos mas esperarem uma vivência mais profunda, esperarem que as suas emoções também se possam expressar ali. Pode mesmo admitir-se a hipótese de que esta necessidade do homem moderno para sentir seja uma condição excepcional para que as Igrejas, usando métodos sérios e não os que estão a usar seitas religiosas, possam protagonizar a primavera espiritual por que muitos têm orado.

A religião, a poesia e a arte abarcam uma área da vida humana que é essencial e nem sempre o homem, devido a preconceitos que foi criando, vive plenamente essa área. A religião, a poesia e a arte são expressões da vida espiritual do ser humano manifestadas de modos diferentes. É por isso que a leitura de um poema e a leitura de um texto aceite como sagrado comunicam ao leitor e ao ouvinte “predestinado” (3) sentimentos que Rudolf Otto na sua obra fundamental (4) , classifica como o “numinoso”. Há um verdadeiro sentimento religioso num grande artista, ou grande poeta, mesmo quando ele se afirma ateu, assim como o há num não-artista ateu que viva intensamente uma obra de arte ou ame a poesia, não a escrevendo. A verdade é que a arte e a poesia não estão apenas com quem as produzem, mas estão também com quem as buscam com amor, como consumidor. Bach é ouvido com emoção também por aqueles que, não tendo recebido preparação para produzir composições como as suas, comungam, no entanto, do mesmo sentimento artístico daquele que as criou. É por isso que os artistas e os poetas precisam de público: os que no público verdadeiramente os apreciam são a sua família espiritual. Vem a propósito contar uma história que ouvimos na nossa juventude referir a Almada Negreiros. Almada, que foi amigo de Fernando Pessoa, e foi poeta, pintor, romancista, um artista de grande valor, introdutor do futurismo em Portugal. Um dia, numa exposição de obras suas, um visitante de ar intrigado, veio dizer-lhe:

Mestre, confesso que não compreendo a sua obra...

E Almada Negreiros, mestre em jogos de palavras, comentou, sério:

Mas isto não é para compreender, meu caro senhor: é para rezar!

Há nesta resposta um ponto a reter: é preciso que, diante da arte, tenhamos uma atitude de entrega como na oração. E então tudo se tornará mais compreensível.

O professor brasileiro Pradelino Rosa, num ensaio sobre Fernando Pessoa escreve este parágrafo sobre a poesia que poderia permanecer igual se, em lugar da palavra poesia, ele tivesse posto a palavra religião: “A poesia expressa um mundo para lá da razão. É por isso a vida no sentido absoluto. Todos os seres são unificados na experiência apenas existencial, com o desconhecimento das classificações racionais. Quem melhor encarna esse estado natural é a criança, no seu sabat eterno. E já o poeta, com todos os outros seres se funde. Na existência são irmãos e confraternizam; na atitude são irracionais e vivem; na actividade são lúdicos e brincam; na lucidez são imaginativos e fantasiam; na expressão são sensitivos e configuram; na vida são efémeros e passam” (5). O único senão que ousaríamos opor a esta fala seria a de usar o termo “irracional” para qualificar a atitude poética – e na nossa perspectiva a arte e a religião. Se é de “um mundo para lá da razão” que a poesia (a arte, a religião) nos fala, essa expressão não é irracional, porque não é contra a razão, como a palavra irracional faz supor, mas é meta-racional, ou extra-racional, como já tem sido chamada. “Para além da razão”, diz Pradelino Rosa e concordamos, mas não é o mesmo dizer “irracional”. A razão não faz poesia, mas não há poesia contra a razão. Da mesma maneira diremos que a razão não cria a fé mas não se opõe a ela.

Não é por mera coincidência que as pessoas das igrejas, aquelas que vivem com grande empenhamento a fé cristã, são, em geral, pessoas que gostam de música séria, de pintura, de poesia, mesmo quando essa música, pintura, poesia não trata de temas religiosos. De qualquer forma,  dizer que a religião expressa um mundo que está para lá da razão, como Pradelino Rosa diz da poesia, não é dizer que ela está para lá da realidade: porque a razão não pode abarcar toda a realidade. É por isso que é correcto o crente não ficar pelas afirmações religiosas abstractas, doutrinárias, mas desejar também uma experiência interior.

O Cristianismo, isto é, o conjunto de correntes referenciadas a Jesus Cristo, reconhecido como divino e humano, e fundamentadas no Novo Testamento, tem sido muitas vezes assumido na perspectiva ideológica que Saraiva, nos últimos anos da sua vida, denunciava no Socialismo marxista. Fala-se, por exemplo, em “salvação”, “pecado”, “céu” e “inferno” sem que estas palavras sejam conotadas com aquilo que no nosso mundo ocidental é considerado a realidade concreta da experiência dos seres humanos, o que torna o discurso cristão incompreensível e mesmo imprestável para uma boa parte dos nossos contemporâneos. Não ignoramos que essas e muitas outras palavras são apenas afloramentos de símbolos, e os símbolos são sempre empobrecidos quando procuramos expressá-los por conceitos, mas essa constatação não recusa legitimidade ao homem moderno de experimentar pelos sentidos a verdade do que é anunciado. Também poderíamos dizer como Almada que os símbolos cristãos não são para compreender mas para “rezar”.

Pode dizer-se que esse desejo do homem moderno de uma experiência sensorial das coisas da fé não corresponde totalmente ao ensino da Reforma protestante do século XVI. Os Reformadores protestantes, principalmente João Calvino, sublinharam o papel da Bíblia como fundamento da Fé Cristã, proclamando com ênfase que é apenas nas Escrituras que os cristãos têm a fonte da revelação (Sola Scriptura) e isso basta-lhes. Mas essa ênfase tem de ser entendida no contexto da interpelação que esses teólogos faziam à Igreja que queriam ver reformada. No decorrer dos séculos, papas, concílios e a piedade popular tinham introduzido muitas inovações dentro da Igreja, algumas delas claramente contrárias ao ensino do Cristianismo primitivo. Como combater essas inovações se elas eram aceites pela hierarquia? Apenas negando à hierarquia o direito de estabelecer o que é legítimo Cristianismo e o que o não é. Os Reformadores, assumindo seriamente uma velha reivindicação da Igreja, defenderam que, abrindo-se a disputa no seio da Igreja, com uma corrente afirmando doutrinas que outra corrente rejeitava como legitimamente cristãs, era necessário tomar as Escrituras, registo do Cristianismo primevo, como árbitro da disputa. Exigência que não era original, pois já no terceiro século as vozes que se levantavam contra inovações perigosas era em nome da Escritura também que falavam. Todas as tentativas de melhoramento da Igreja usaram sempre a Bíblia como autoridade em nome da qual se pronunciavam. E mesmo nas vésperas da Reforma foi em nome do ensino do Novo Testamento que o grande humanista e clérigo Erasmo de Roterdão criticou a situação deplorável da Igreja, embora depois não acompanhasse Lutero no esforço reformador. A preocupação por “ir às fontes”, isto é, fazer afirmações doutrinárias a partir dos textos originais (Aristóteles, por exemplo, requerem os humanistas, deve ser conhecido a partir dos textos gregos, em lugar de se ficar pelos comentadores) é uma das características do movimento Humanista, de que Erasmo é um dos mentores, e o nosso Damião de Gois um dos cultores, entre muitos dos seus contemporâneos

Outra das razões por que os Reformadores realçaram a importância das Escrituras foi a luta que tiveram de fazer ao que alguns chamam “a ala radical da Reforma”. Tratava-se de grupos em geral designados por “anabaptistas” que, no calor das mudanças revolucionárias surgidas, se diziam iluminados pelo Espírito Santo, com visões e revelações directas e sem controlo e que, com os seus ensinos e acção, ameaçavam destruir toda a obra da Reforma. Os mais radicais destes “iluminados”, como Tomás Muntzer, levaram o povo a tomadas de posição revolucionárias e suicidas, sem terem em conta as limitações concretas da sociedade em que se encontravam. Em certo sentido, faziam do Cristianismo uma “ideologia” separada da realidade, como na denúncia de Saraiva que citámos no início deste livro. Para chamar o povo à razão e à recusa de falsas revelações havia a necessidade de apelar para a Bíblia, para o que estava escrito. João Calvino, o teólogo de Genebra, na sua obra-prima, a “Instituição da Religião Cristã”, dedica um capítulo a argumentar duramente contra “alguns espíritos fanáticos que pervertem os princípios da religião, não fazendo caso da Escritura para poderem seguir melhor os seus sonhos, sob a afirmação de revelação do Espírito Santo” (6). “Não fazendo caso da Escritura”, denuncia Calvino. O problema para Calvino não é o crente deixar-se guiar pelo Espírito, mas é não fazer caso da Escritura.

Essa ênfase na Escritura, que era e é correctíssima, acabou por criar condições para, em gerações posteriores, surgir uma ortodoxia protestante fria, um biblicismo perigoso, preso à letra da Escritura, que fazia do Cristianismo, sob muitos aspectos, também e paradoxalmente, uma “ideologia” seca, um doutrinarismo que pouco ou nada tinha a ver com “o coração do ser humano”. Para muitos, a Bíblia passou a ter o mesmo papel que para os fundamentalistas islâmicos tem o Alcorão, sem se aperceberem que é na mesma Bíblia que está escrito “A letra mata e o Espírito é que vivificaII Coríntios 3:6.

Ora os Reformadores, especialmente o mesmo João Calvino, não foram de modo algum fundamentalistas; primeiro, porque sublinharam a necessidade de ler a Bíblia sem ignorar a leitura que os cristãos dela tinham feito ao longo dos séculos, isto para evitar o orgulho de se pretender ver nela aquilo que nunca fora visto antes; e sublinharam também a realidade do testemunho interior do Espírito Santo, que ajuda a compreender a Escritura. É este equilíbrio entre a Escritura e a acção do Espírito Santo que salvaguarda a Igreja e o crente de desvarios. Foi um pastor pentecostal americano, sobre quem não caiu a mínima suspeita de modernismo, Aidem Wilson Tozer, o autor destas palavras: “Entre pessoas religiosas de inquestionável ortodoxia acha-se às vezes uma obtusa dependência da letra do texto, sem a mais ténue compreensão do seu espírito. É preciso manter constantemente diante das nossas mentes que em sua essência a verdade é espiritual, se de facto queremos conhecer a verdade. Jesus Cristo é, ele próprio, a Verdade, e ele não pode ser confinado a meras palavras, apesar de que, como cremos ardentemente, ele mesmo inspirou as palavras. O que é espiritual não pode ser encerrado por tinta nem cercado por tipos de papel. O melhor que um livro pode fazer é dar-nos a letra da verdade. Se alguma vez recebermos mais do que isso, há-de ser pelo Espírito Santo que no-lo dá”. (7)

Para os cristãos dos nossos dias, como para os que depois de nós virão, mantém-se a necessidade de ter a Bíblia como “pedra de toque” para aquilatar da legitimidade ou não do que se quer apresentar como Fé Cristã, mas é preciso reconhecer que o homem não é só intelecto, que não basta que uma afirmação seja reconhecida como ortodoxa e que o culto da Igreja seja celebrado com “decência e ordem”. Esse tipo de Cristianismo, doutrinariamente correcto e bem comportado, instalou-se em muitas Igrejas e fez delas lugares onde se boceja e se toscaneja. Muitas vezes as igrejas são autênticos cemitérios espirituais. Isso nota-se sobretudo entre os seus dirigentes (pastores ou leigos) que discutem com acrimónia questões de categoria pessoal, títulos e outras minudências e tratam os assuntos da Igreja como se fossem assuntos de uma empresa. Em tais Igrejas observa-se uma grande falta de interesse até de pastores que quando podem não desempenham o ministério para que foram ordenados. Reuniões de oração e estudo bíblico são dirigidas por leigos sem formação, enquanto o pastor sistematicamente está ausente. No Protestantismo chamado histórico, apesar dos ecos que nele teve no seu tempo o pensamento de um teólogo como Schleiermacher (1768-1834), que sublinhou a importância do sentimento na questão da fé e viu na Bíblia essencialmente narrativas de experiências religiosas, manteve-se uma linha de grande contenção em relação a elementos místicos, isto é, a tudo o que não se limitasse à Palavra, mesmo que o conceito de Palavra não se restrinja à Bíblia. O Protestantismo erradamente dito “liberal”, de camadas sofisticadas da média burguesia, olha com suspeição tudo o que lhe pareça misticismo e receia as formas populares de religiosidade. Entretanto, um Protestantismo mais recente, passou por grandes movimentos chamados “despertamentos” (em inglês “revivals” e em francês “réveils”) que, justamente, se caracterizaram pela importância dada às emoções, à experiência da conversão, ao “baptismo do Espírito Santo”, expressão bíblica que indica uma experiência do divino, ao fenómeno da glossolália, ou do “falar línguas” (8). É interessante realçar que as chamadas “Igrejas históricas” portuguesas não-romanas tiveram a sua origem no século XIX como resultado da missão estrangeira, que se deveu não a teólogos moderados e muito menos a teólogos liberais, mas a pastores envolvidos no espírito revivalista. Robert Kalley (1809-1888), por exemplo, o pai do Presbiterianismo em Portugal, era um crente com o fervor de um recém-convertido, pois apenas se tornou cristão convicto em 1835, três anos antes de chegar ao Funchal. Quem lê a vida do Dr. Kalley  (9) não pode deixar de sentir que esse admirável cristão não tinha de Deus um conhecimento meramente livresco e intelectual (conceptual). Um dos hinos da tradição evangélica da nossa língua  cuja letra leva o nome do apaixonado missionário de Portugal e do Brasil tem esta estrofe dirigida ao Espírito Santo muito significativa:

 

Maravilhas soberanas

Outros povos vêem;

Oh! Derrama a mesma bênção

Sobre nós também!

 

As “maravilhas” que outros povos da época da composição do hino estavam a ver e a que o médico-pastor alude eram os despertamentos que lançavam as Igrejas da Grã-Bretanha, da Suíça, da França, dos Estados Unidos, num fervor que fazia lembrar os tempos apostólicos – fervor que teve ecos, pois, no nosso país, através dessa geração de gigantes da fé que foram o próprio Robert Kalley, Ellen Roughton, Diogo Cassels, Robert H. Moreton, e na geração seguinte já de portugueses: Joaquim dos Santos Figueiredo, Eduardo Moreira, Anselmo da Figueira Chaves, José Augusto dos Santos e Silva, Joaquim Rosa Baptista e outros. Aliás, o hinário de que faz parte esse hino ao Espírito Santo acima citado, o “Salmos e Hinos” , que foi por mais de cem anos comum às Igrejas nascidas da acção desses grandes servos de Deus, está cheio de hinos que reflectem o cristianismo vivo e feliz desses dias.

A grande adesão das pessoas hoje aos movimentos religiosos que sublinham a experiência da comunhão com Deus mostra que, se o Protestantismo tradicional tem um discurso ortodoxo muito respeitável, e suficiente para a salvação, sublinhe-se, ele corre, no entanto, o perigo de não servir senão, talvez, para uma minoria que privilegia o discurso intelectual, o que é louvável, mas não pode atingir a generalidade das pessoas. Os próprios intelectuais também precisam de ser salvos – e não são os discursos apenas de argumentos conceptuais que podem atingir o todo da sua personalidade. A experiência pessoal do autor destas linhas, integrado numa das Igrejas do chamado Protestantismo histórico, leva-o a questionar-se se um Cristianismo deste tipo prioritariamente discursivo pode realmente satisfazer o ser humano na sua complexidade. O homem é uma realidade indivisível de corpo-alma-espírito. O corpo “soma”, em grego, é a parte física do ser humano; a alma, “psyché” em grego, é a vida psíquica, com o intelecto, as emoções, a vontade; espírito, “pneuma em grego, é o “sopro divino”, a imagem de Deus no homem. As Igrejas tradicionais tendem a dirigir-se quase apenas à “alma” da pessoa e nem, sequer a todas as faculdades da alma, privilegiando a razão, através de doutrinas e conceitos – mas a alma é apenas uma parte da pessoa. “Uma Igreja que não fale ao homem tridimensional não satisfaz totalmente.”

É excessivamente grande, proporcionalmente falando, o número de cristãos desta área que manifestamente têm um Cristianismo que não dá alegria, não mobiliza, não entusiasma. A ida ao culto para muitos destes cristãos é um fardo que se deixa por cumprir se se encontra um pretexto razoável. E qualquer contrariedade, qualquer falta de atenção do pastor ou de outro irmão é suficiente, muitas vezes, para levar a pessoa a abandonar por semanas, meses ou para sempre a sua congregação. Às vezes a simples mudança de pastor leva ao abandono dos cultos. “Estava tão habituada à pregação do pastor Fulano que não me diz nada a pregação do novo pastor” – justificou-se com simplicidade uma senhora, que só assistiu à pregação do novo pastor num Domingo.

Não se ignora que em muitos movimentos “entusiastas” (10) há, por vezes, grandes perturbações, desvarios e excessos perigosos, mas erramos se, para combater excessos, caímos noutro excesso, igualmente mau, embora de sentido contrário. Não se pode ignorar que Jesus Cristo combateu os religiosos do seu tempo, em especial os fariseus, que se caracterizavam justamente pelo seu formalismo, bem intencionado certamente, racional e bem comportado, mas destituído de calor humano e de compaixão, como muito bem ilustra a Parábola do Bom Samaritano Lucas 10:25/37. Infelizmente, e paradoxalmente, dentro do Cristianismo, hoje como sempre, muitos cultivam esse mesmo tipo de religião farisaica. Simão, o fariseu, que recebeu Jesus em sua casa, como nos conta Lucas 7:36/50, sem alegria e sem ouvir de Jesus a palavra de perdão, é o protótipo de muitos cristãos que o recebem na sua vida, e vivem igualmente sem que nele encontrem alegria e perdão.

O propósito deste estudo é mostrar que o cristão tem, não só o direito, mas mesmo o dever de fazer da sua fé no Deus manifestado em Jesus Cristo não apenas uma questão de adesão intelectual ao ensino de Cristo, como também uma questão de experiência pessoal, de relação interior com o Espírito de Cristo (11). Há uma experiência real com Deus , experiência profunda e exultante, que é possível, que tem sido vivida por muitos cristãos e que está ao alcance de todos os que confessam Cristo como Senhor e Salvador. Ser cristão não é apenas um tema de aceitação de um credo, de uma Palavra “exterior”, mas de uma experiência viva, “interior”, do divino. Num livro que tem causado alguma polémica e cuja tradução em português foi editada em 2001 «A Igreja Católica ainda tem futuro?»,  diz o padre Herbert Haag, seu autor, que “Jesus nunca pensou em renunciar ao seu povo judeu, pretendeu, sim, interiorizar o Judaísmo”. Não concordamos com várias afirmações desta obra, mas pensamos importante realçar nesta frase a palavra “interiorizar”. De facto, o grande problema do Judaísmo dos dias de Jesus é o de se concentrar no exterior, no ritual, na forma, o que levou Jesus a comparar certos chefes religiosos a sepulcros caiados por fora Mateus 23:27.

Se Cristo combateu esse tipo de religião formal, legalista e fria, é legítimo acreditar que o seu ensino nos levará a um tipo de relação com Deus diferente desse; uma ligação tão próxima, tão agradável e tão tangível que permita ao crente dirigir-se a Deus chamando-lhe “Querido Pai”, expressão que traduz a palavra aramaica que Jesus e a Igreja primitiva usavam, falando com Deus: “Abba!” Romanos 8:15.

Este livro nasceu da insatisfação experimentada por mim ao longo dos anos em relação ao tipo de Cristianismo em que tenho vivido e que presencio, não apenas na Igreja de que sou pastor mas também em outras denominações. Inconformista, recusei-me a aceitar a fatalidade do enfado e tomei como lema esta palavra de Jesus: “Buscai e encontrareisMateus 7:7. Do que encontrei fiz estas páginas que partilho com todos aqueles que não se sentem satisfeitos com a beberagem que frequentemente é oferecida aos que ouviram o convite de Cristo, que disse: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água correrão do seu ventre!” João 7:37/38. Mas o que as pessoas recebem muitas vezes para beber como mensagem de Cristo são discursos moralistas, de um moralismo individualista e conservador, ou de um moralismo social e pseudo-progressista, beberagem que não mata a sede do homem. Fazem-nos “gastar dinheiro naquilo que não é pão”, quando o Senhor proclama com generosidade: “Oh! Vós todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde comprai e comei; sim vinde comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leiteIsaías 55:1/2

 

  Capítulo II EIS O HOMEM

 

A expressão com que titulamos este capítulo costuma ser usada em latim, da versão da Bíblia feita para essa língua por São Jerónimo, e foi dita pelo hesitante Pilatos ao apresentar Jesus à multidão: “Ecce homo!” (Eis o homem, Ev. João 19:5).

A frase é usada em vários sentidos. Um deles, irreverente e lamentável, usado quando alguém se apresenta a si ou apresenta outra pessoa. Como se dissesse: “Aqui estou eu!” ou “Eis a pessoa de quem lhe falei!” Não foi, obviamente, com essa intenção agarotada que Pilatos se referiu a Jesus naquela vergonhosa Sexta-feira. É mais plausível que, desejoso como estava de evitar a morte de Jesus, Pilatos tenha querido despertar a piedade da multidão. Como se dissesse: “Reparem! Este homem é inofensivo. Será correcto condenar à morte este pobre ?”. Mas a frase tem um outro sentido, pelo menos numa perspectiva cristã. Desse outro sentido não podia Pilatos ter consciência, mas acontece, por vezes, que homens totalmente afastados de Deus anunciam, sem o saber, verdades divinas. Ali, embora frágil e humilhado, estava o Homem, o perfeito Homem, o padrão de toda a Humanidade. Jesus é “o homem verdadeiro que, no seio dessa mesma humilhação, inaugura a realeza messiânica” (12).

Dizer que Jesus é o padrão de toda a Humanidade não deve ser entendido, forçosamente, como se a proposta dos Evangelhos fosse a de a Humanidade passar a viver imitando Jesus Cristo. É essa a interpretação de muitos que a si mesmos se consideram “cristãos progressistas”. Nessa perspectiva, o Cristianismo é apenas mais um humanismo. Não se nega que haja mérito no esforço por imitar Jesus, e muito menos se nega a existência de exortações nesse sentido no Novo Testamento, mas não é esse o caminho mais excelente. Há um famoso livro devocional que vem da Idade Média e é atribuído ao frade Tomás de Kempis, com o título “A Imitação de Cristo”, que propõe o progresso espiritual e moral colocando Cristo como modelo. Esse livro ainda hoje merece a nossa atenção, como merece ser lida a novela evangélica de Charles SheltonEm Seus Passos que Faria Jesus?” com a mesma proposta. Os que chamamos pseudo-progressistas põem Jesus como modelo revolucionário que ele é em parte mas é muito mais do que isso também. A imitação subentende que o modelo é exterior ao imitador, e essa não é a proposta principal do Novo Testamento. Muitos actores no teatro e no cinema têm interpretado a figura de Jesus Cristo, dando a aparência de um homem de quem se disse que andou neste mundo fazendo o bem. Mas o esforço por actuar perante o público ou as câmaras imitando Jesus não trouxe necessariamente mudanças profundas e definitivas sobre tais actores. A imitação pode ficar-se apenas pelo exterior – e acaba por se tornar, ironicamente, farisaísmo (13). Não temos encontrado membros de Igrejas, incluindo pastores, com expressões angélicas à força de imitarem Cristo exteriormente, mas cujo convívio os revela como pessoas desleais? A imitação da figura central dos Evangelhos é, em parte benéfica, se feita com sinceridade, mas a expectativa do Novo Testamento é muito mais ambiciosa do que o aperfeiçoamento moral que a imitação de Cristo proporciona. Na verdade, a colocação de Jesus como ponto de referência ética e moral tem essencialmente este objectivo: levar o crente, na comparação, a perceber como é pecador. Ao cotejarmos a nossa vida com a de Jesus, perdemos todas as ilusões acerca de nós e dizemos, parafraseando um famoso anúncio antigo: “Eu julgava que a minha vida era branca, antes de ver a tua!” Mas o Novo Testamento vai mais longe. «Ele anuncia, nada mais nada menos, que quem aceita Jesus Cristo como Senhor e Salvador da sua vida nascerá para a Vida Nova, isto é, para a vida do Homem Novo, que é Cristo». Mais ainda: Jesus anuncia aos seus discípulos, perto da hora da sua crucificação -Um pouco e não me vereis e mais um pouco e ver-me-eis, porque eu vou para o PaiJoão 16:16. Assim, este “ir para o Pai”, não é ir para além das nuvens, ficando afastado dos discípulos. Pelo contrário significa ficar mais perto, porque é ficar “habitando” neles. E é quando os discípulos recebem o Espírito da Vida que eles se tornam pessoas realmente com vida, porque quem não encontrou a verdadeira Vida, que é Cristo, ainda que esteja biologicamente vivo está morto (Mateus 7:13; Lucas 15:32; Efésios 2:1; Colossenses 2:13). O homem natural, “na carne”, isto é, sem Cristo, é um ser incompleto e incapaz de ser aquilo que de mais elevado e nobre deseja ser. Não tem ainda a “Vida Abundante” que Cristo prometeu aos que nele crêem João 10:10. É um ser decaído, com capacidade para sonhar e desejar fazer o bem, mas sem capacidade de pôr em prática tais sonhos e desejos. Uma das expressões mais dramáticas dessa situação encontra-se na Epístola aos Romanos quando Paulo, falando na perspectiva do homem natural, o homem sem Cristo, afirma: “Vejo nos meus membros uma lei que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?Romanos 7:23/24. Antes tinha dito: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (v. 19).

Alguns têm visto nesta frase de Paulo a descrição da situação em que o próprio Paulo, apesar de crente e apesar de apóstolo, se encontrava, mas o contexto mostra que é do homem na carne em geral que o apóstolo fala, obviamente valendo-se da sua própria experiência.

Olhando para Jesus como o Homem, aquele que viveu autenticamente a vida integral de um ser humano, e comparando a sua maneira de viver com a nossa, percebemos que há em nós potencialidades enormes que não estão a ser vividas, justamente porque algo em nós nos impede de viver integralmente. A história de Adão e Eva e do pecado original fala-nos dessa incapacidade do ser humano de viver integralmente. Quando se diz que o homem é pecador, não é por ele fazer isto ou aquilo considerado pecado, mas é pecador no sentido de ser “incapaz” de viver plenamente, de “acertar no alvo” (14). Não é pecador por praticar pecados; é-o naturalmente.

Jesus é em tudo semelhante ao homem, menos no pecado, e a Bíblia diz que, assim como os israelitas, na sua travessia do deserto, ao serem mordidos pelas serpentes, quando olhavam com fé para a serpente de metal empunhada por Moisés, não morriam, também na travessia da vida todo o que olhar para Jesus com fé se salvará (Evangelho de João 3:14/15). Para os propósitos deste livro, olhamos para Jesus para que possamos perceber as potencialidades da nossa vivência que nos são oferecidas na mensagem do Novo Testamento. A promessa aí registada é a de que “quando ele se manifestar, nós seremos semelhantes a eleI João 3:2. É verdade que se trata de uma promessa escatológica (ou seja, para os últimos tempos), mas houve já na primeira manifestação ou vinda de Cristo (parusia) expressões importantes que é necessário ter em conta para o enriquecimento da nossa vida cristã agora. Muitos vêem no Cristianismo apenas “um caminho para o céu”, mas podemos ou devemos olhá-lo desde já como «o método de Deus para vivermos aqui na terra com tanta intensidade e felicidade que possamos ver o céu já aqui».

Vemos em Jesus uma relação de intensa comunhão com o Pai. Deus não é para ele, de modo algum, um Ser distante e um Juiz impassível, mas Alguém pleno de compaixão, extremamente próximo de todo aquele que O busca. E essa experiência que tem do Pai não é apontada como uma possibilidade apenas sua, como se fosse um privilégio de quem é o Filho Unigénito de Deus. Faz parte da própria natureza de Deus e é, portanto, uma possibilidade para todo o que Lhe abrir as portas da sua vida. O passo enorme em frente na compreensão de Deus é essa Sua natureza amorosa que é revelada por Jesus Cristo. Não foi Deus que mudou, nem é o “velho Deus severo do Antigo Testamento”, como alguns deduziram, que deu lugar ao Deus de Amor de Jesus Cristo. É o mesmo e único Deus, mal compreendido pelos homens, que Jesus revela.

Mas como abrir as portas da nossa vida e fazer Deus entrar nela, não apenas como uma palavra, como ideia, como doutrina, mas como “Presença”? O Evangelho de João reporta-nos estas palavras atribuídas a Jesus: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada  João 14:23. Permitam-me que diga esta frase com destaque: «Ser habitado pela divindade é uma possibilidade claramente admitida neste lugar da Escritura, como noutros». E significa que qualquer cristão tem a oportunidade de uma experiência real, concreta, do divino, pois não se poderia compreender que essa “Presença” se fizesse sem que os elementos sensoriais do cristão não a percebessem. Essa habitação da divindade no cristão, que faz dele um templo, é, nos versículos 16 e 26 desse capítulo, referida em termos de vinda do Paráclito, o Espírito Santo, sem que haja contradição, pois a Fé Cristã não fala de três deuses mas de um só Deus, que se manifesta em três Pessoas. O próprio Espírito Santo é, noutras passagens, também chamado o Espírito de Deus ou Espírito de Cristo Romanos 8:9 ou Espírito do Senhor II Coríntios 3:18. O que a doutrina da Trindade pretende é dizer que Deus, habitando os Altos Céus, onde é o Pai, encarnou em Jesus Cristo e está presente como Espírito na vida daquele que O recebe.

Esta situação de o Espírito Santo vir habitar o crente é designada por incarnação (“in”, latim, envolve a ideia de “entrada”: a entrada de Deus na carne). São João diz que quando Jesus veio ao mundo “O Verbo fez-se carne”. Os cristãos continuam este mistério da incarnação de Deus.

O dom do Espírito Santo feito por Deus à humanidade é a satisfação de uma velha aspiração do povo israelita. Esse povo que tinha uma Aliança (15) com Deus feita na Lei, esperava o tempo de uma Nova Aliança em que já não teria de obedecer a uma Lei exterior, gravada na pedra, a Lei de Moisés, mas uma “Lei gravada no coração do homem”, interior, portanto, em que o próprio Deus falasse a cada homem. O profeta Jeremias, que viveu seiscentos anos antes de Cristo,  foi o grande divulgador dessa promessa, dizendo em nome de Deus: “Este é o concerto que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. E não ensinará alguém mais a seu irmão, dizendo: conhecei ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o mais pequeno até ao maior, diz o Senhor. Porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecadosJeremias 31:33/34. Vê-se que o acima citado Herbert Haag tem razão quando fala da intenção de Jesus de “interiorizar o Judaísmo”. Para Jeremias, os sacrifícios no templo e os rituais mecânicos são de pouco ou nenhum valor, porque o importante quando o Messias aparecer é viver a interioridade que se anuncia nessa aliança nova. Diz-se, e com razão, que Jeremias é um profeta profundamente interessado na questão social, nos problemas da justiça e da defesa dos pobres. Mas essa vertente nele é acompanhada por um forte sublinhar da relação íntima, pessoal, com Deus. A relação dita vertical (do homem com Deus) só é verdadeira quando em simultâneo com a relação horizontal (com o próximo). Um profeta que vivera dois séculos antes, Joel, pregara já sobre um tempo novo que viria em que o Espírito de Deus seria derramado sobre toda a humanidade Joel 2:28/32. Falar do “derramamento do Espírito” é falar da experiência do divino.

A Igreja Cristã identificou a Nova Aliança (Novo Testamento) com a obra realizada por Jesus Cristo Lucas 22:20 e

 I Coríntios 11:25, que inaugura o tempo da salvação; e o Pentecostes com a profecia de Joel, quando o Espírito Santo começou a ser derramado sobre os cristãos Actos 2:1/21. Ou seja: «a Fé Cristã é o cumprimento da promessa de um relacionamento com Deus, que não se limita a cerimónias e a doutrinas mas passa pela Presença de Deus na vida do crente». O Cristianismo não é, como alguns gostam de dizer, “uma religião do Livro”, mas Presença de Deus na vida do crente. Se é fácil de perceber que, ao longo da história do Cristianismo e nos nossos dias a vida de muitos cristãos não dá sinais claros dessa presença, a conclusão a tirar é que esses mesmos cristãos não têm reunido  as condições normais para que a promessa se cumpra. Veremos adiante que não se trata de uma questão de a experiência do divino ser uma espécie de galardão oferecido por um Deus caprichoso a quem se comportou bem, mas sim de sabermos sair das nossas próprias inibições e receber com simplicidade o que Deus antecipadamente nos quer oferecer. Muitos são cristãos sinceros, de cuja salvação não se pode duvidar, possivelmente dando uma boa contribuição para melhorar o mundo, mas ignoram que há “mais qualquer coisa” que Deus lhes quer dar com a salvação. Se morressem hoje, não há que duvidar, seriam recebidos pelo Pai, mas o problema é que antes de morrerem não gozam todos os benefícios da salvação. É como se alguém fosse a uma livraria comprar um livro, pagasse e se preparasse para sair sem ter verificado um aviso posto na loja: “Pela compra de um livro, oferecemos uma caneta graciosamente!”. Leve o livro e não despreze a caneta; aceite a salvação e a experiência do baptismo ou da recepção do Espírito Santo, aqui chamados “experiência do divino”.

O ser humano foi criado com tanta dignidade, como um pequeno deus (Salmo 8, 5), e nem o próprio Deus nos forçará a aceitar o que, por decisão pessoal ou mesmo por ignorância, não nos dispomos a aceitar. A experiência do divino faz parte da oferta de Deus, mas Ele não nos obrigará a aceitá-la.

Uma advogada francesa, autora de um excelente livro com o título “L’évangelisation des profondeurs, escreve este período: “Demasiado ligados à terra, tornamo-nos matéria. Acreditando-nos apenas espírito, instalamo-nos numa forma de fuga ou de rebelião contra a nossa condição. Num caso e noutro não estamos inteiros. Vai ser necessário viver estes dois polos e de os ajustar, unificá-los. Viver o infinito no finito, permitir ao Espírito que habite a nossa carne. É o sentido da incarnação.” (16).

Veremos que é simples o modo de viver a experiência do divino prometida aos cristãos, mas a tendência humana é tornar complexo o que é simples. Estamos sempre a repetir o erro de Naamã, o general sírio que, atingido pela lepra, foi a Israel pedir ao profeta Eliseu que orasse a Deus para sua cura. Enquanto viaja para Israel, Naamã deve ter imaginado que o profeta iria fazer algo de espectacular para alcançar a sua cura, mas o servo de Deus nem sequer lhe apareceu e mandou dizer pelo seu auxiliar que Naamã mergulhasse sete vezes nas águas do rio Jordão. Zangado, Naamã dispôs-se a retirar-se sem cumprir o que Eliseu dissera, mas os seus servos sabiamente observaram-lhe: “Se o profeta te tivesse dito alguma grande coisa, tu não a farias? Quanto mais dizendo-te ele: lava-te e ficarás purificado (curado)”. Ou seja: “Estarias disposto a fazer algo complicado que o profeta mandasse. Porque não fazer o que ele mandou, sendo tão simples?”. Convencido por este argumento, Naamã mergulhou sete vezes no Jordão e ficou são II Reis 5:1/19. Muitas vezes o que nos parece singelo e banal esconde em si a solução do nosso problema. E o problema de muitos que frequentam as igrejas, são baptizados e professos é que para eles a fé evoca apenas enfado e rotina. Um autor que já citámos, Carl-Gustav Jung, observou que nenhum sistema religioso inteiramente racional consegue satisfazer o homem. Não defendeu, nem nós defendemos, a adopção de vias irracionais, como o mostraremos adiante, mas sublinhamos as limitações da simples racionalidade. Uma estudiosa de Jung descreve numa frase o pensamento desse autor sobre esta questão: “Quando uma religião procura evitar o paradoxo está simplesmente a enfraquecer-se” (17). O facto de Jung não ter sido um cristão formal não retira autoridade científica à sua observação que é feita a partir dos factos.

Entretanto, antes de encerrarmos este capítulo, impõe-se uma precisão. O leitor poderá deduzir de várias afirmações que faço nas páginas precedentes, que na minha concepção do Cristianismo não há lugar para as cerimónias, rituais e mesmo doutrinas, e que tudo na Fé Cristã tem de ser interioridade e intimismo. Mas o que pretendi foi apenas realçar a necessidade também da interioridade e intimismo, de uma experiência que passa igualmente pelos sentidos, aspecto que me parece não ser suficientemente tido em conta por muitas correntes cristãs, mas não penso ser possível a exclusividade desses elementos. Tendo desempenhado por muitos anos a função de professor de Teologia Prática, sempre procurei mostrar aos meus estudantes a importância das cerimónias e dos rituais. Até num casal isto é verdade. O casal que simplifica demasiadamente as coisas e no dia marcado para se casarem vai em roupa de passeio a um registo civil assinar um protocolo diante de um funcionário, está, à partida, mais fragilizado na sua união do que o casal que fez desse dia um dia especial, vestiu-se da forma mais pomposa que os seus rendimentos permitiram, juntou os seus amigos e avançou, comovida e solenemente, com o som da marcha nupcial, ao longo de um templo engalanado, para receber com reverência a Bênção de Deus para o seu matrimónio. Mas é fácil de perceber que apenas cerimónias e rituais não alimentam a alma humana. É gastar o nosso dinheiro naquilo que não é pão. O Pão da Vida, que alimenta verdadeiramente, é Jesus Cristo João 6:35. Ele disse que veio para que as suas ovelhas tenham vida e a tenham com abundância João 10:10. Essa Vida Abundante é produzida pela presença de Cristo na vida do discípulo. Façam-se as cerimónias que se acharem mais bonitas e significativas, mas sem negligenciar no mais importante: o Espírito vivificador.

Do que falamos, quando falamos da viver a vida em plenitude? Falamos de viver a vida na comunhão com Deus. Esses momentos caracterizam-se pela maneira intensa como a vida é então sentida. Podem ser momentos que passam rapidamente, deixando, no entanto, uma forte recordação, ou momentos mais demorados, mas neles sentimo-nos inteiramente presentes, concentrados na vida. E podem acontecer estando a pessoa sozinha, numa igreja, em sua casa, numa montanha, à beira-mar, ou a pessoa está rodeada de outras, num grupo pequeno ou numa multidão, a conduzir um carro, no meio de grande tráfego. Pode ser num momento de acção religiosa (cultuando, orando, falando de Deus), mas também pode ser numa situação “secular”, olhando uma criança, falando com uma pessoa amiga, ouvindo música, contemplando uma obra de arte – mas produz sempre um sentimento de alegria, de gosto de viver. De comunhão com a Vida, com Deus.

Não é originalidade minha usar a imagem do copo de água para falar do problema da exterioridade e da interioridade na relação com Deus, ou, por outras palavras, do problema da religião e da fé. É a fé que é importante para se chegar à plenitude da vida e não a religião, mas ver-se-á que é um tanto artificial separar fé da religião. Diz-se e bem: a fé é que salva e não a religião, mas pensai: considero, olhando um copo de água, que a água é a fé na sua pureza, mas para a bebermos precisamos do copo que a contém. É pelo copo que consumimos a água que nos sacia a sede. Seria loucura destruir o copo com o argumento de que a água é que nos mata a sede, porque destruindo-o perderíamos a água nele contido, assim como seria errado dispensar a água para privilegiar o copo. Admiramos o menos litúrgico e mais interiorizante dos movimentos cristãos que conhecemos – o Quaquerismo – que adora a Deus numa simplicidade total – mas não o apresentaríamos como modelo a seguir por toda a Igreja, pois vemos na secura da sua adoração, quase apenas apropriada a místicos, a explicação do processo da contínua redução numérica em que se encontram os Quakers e que parece encaminhá-lo para o desaparecimento total. Deve, sem dúvida, como Jeremias, alertar-se para a falsa segurança do culto pomposo, onde a preocupação única parece ser agradar aos olhos do homem, e deve acentuar-se a necessidade de o culto ser celebrado “em Espírito e em verdade”, como o Senhor requer João 4:24, mas isso não significa a rejeição de uma liturgia, nem exclui o cuidado pela beleza e mesmo pela arte no culto cristão. Como oficiante, tenho experimentado profundo júbilo na celebração da Ceia do Senhor com liturgias nem sempre muito simples, onde não faltam os elementos tradicionais como o “Sursum Corda”, o Prefácio, o “Sanctus”, a Anamnésis, a Epiclesis, o Pai Nosso e o “Agnus Dei”. Pelo contrário, a Ceia celebrada com demasiada simplicidade, como já vi fazer, por vezes com explicações escusadas, deixam-me espiritualmente frio e vazio. E a experiência tem-me mostrado que quando não há ordem e reverência nos lugares de culto e se desprezam posturas tradicionais de respeito (discrição, levantar-se para orar, escutar de pé a leitura do Evangelho, etc.), a qualidade da fé/testemunho é muito afectada. Mesmo na adoração privada, pode ajudar o uso de elementos exteriores. A questão, então, não está em querer apenas a exterioridade ou apenas a interioridade da fé, mas em haver um relacionamento pessoal profundo com Deus tão real que dê sentido ao que se faz e se diz como cristão. É evidente que o Cristianismo tem também doutrinas, princípios, declarações de fé – e é indispensável conhecê-los e estudá-los, usando a razão consciente, mas sem esquecer que o principal não é isso. O principal é uma Pessoa: Jesus Cristo, que disse: “Não vos deixarei órfãosJoão 14:18

                                            

  Capítulo III RECEBEREIS O PODER

 

Quando lemos o livro dos Actos dos Apóstolos, ficamos forçosamente impressionados com o dinamismo da Igreja nascente. Dinamismo é, aliás, a palavra justa para definir a situação, porque o étimo de dinamismo é o grego dynamis”, que significa “poder” e essa é a palavra que aparece na boca de Jesus quando, depois da Ressurreição, disse aos seus discípulos que iriam receber “o poder (dynamis) do Espírito Santo” que viria sobre eles e os capacitaria a serem testemunhas de Cristo, “tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” Actos 1:8. É da experiência desse poder que estamos a falar quando falamos da “experiência do divino”.

O que se constata em toda a actividade da Igreja nascente é que ela actua, realmente, com poder dynamis, não, obviamente um poder compreendido como capacidade para mandar sobre as pessoas, uma autoridade para forçar alguém a obedecer, mas um poder no sentido de que a sua acção tinha resultados concretos na transformação da realidade. Depois do “acontecimento” prometido em Actos 1:8, a pregação causava conversões, havia uma grande reverência, os crentes viviam em grande comunhão e partilhavam os seus bens, “e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolosActos 2:42/47.  

Esse acontecimento, a “descida do Espírito Santo” que, como já vimos, era esperado desde a pregação de Joel, muitos séculos antes, fez-se no dia de Pentecostes, uma das principais festas do calendário judaico. Nesse dia, estando os cristãos reunidos num mesmo lugar, veio, de repente, sobre eles um ruído semelhante ao soprar de um vento forte. Apareceram, lê-se nesse livro, umas como que línguas de fogo sobre as cabeças dos que estavam reunidos, e todos ficaram cheios do Espírito Santo e “começaram a falar em línguas estranhas, conforme o espírito os impelia a que falassemActos 2:1/14. O narrador diz que esses homens e mulheres que receberam o Espírito começaram a falar com as pessoas que iam aparecendo, pessoas de diversas origens que teriam vindo a Jerusalém em peregrinação e tinham sido atraídas pelo que acontecera ao grupo cristão. E quando falavam da sua fé a esses espectadores espantados, falavam-lhes nas línguas dos próprios ouvintes! Além disso, o comportamento dos cristãos, como resultado do fenómeno que se observara, era tão pouco moderado que alguns dos que os viam disseram: “Estão bêbados!”.

Essa foi a primeira e principal “efusão do Espírito Santo” sobre os cristãos, mas em todo o livro de Actos há muitos outros momentos em que esse fenómeno se produz. De facto, é tal a quantidade de vezes em que o autor de Actos se refere à acção do Espírito Santo através dos apóstolos e de outros discípulos e discípulas que se tem dito que o verdadeiro nome do livro devia ser “Livro dos Actos do Espírito Santo”, título que bem poderia ser dado ainda hoje, visto em nenhum lugar dele se indicar um título.

De acordo com as palavras introdutórias desse livro, percebe-se que o seu autor é Lucas, companheiro de Paulo, e também autor do Evangelho com esse nome, crendo-se que a sua intenção foi dar com esta obra continuação ao Evangelho. No Evangelho contara o que Jesus «começou» a fazer e a ensinar, e nos Actos como o mesmo Jesus «continuou» a fazer e a ensinar, depois da Ascensão, incarnado na Sua Igreja.

Lucas não era um historiador mas uma testemunha de Jesus Cristo e, por isso, não podemos usar o livro de Actos, ou qualquer outro documento da revelação bíblica, como usamos um trabalho de história, mas os melhores especialistas observam que este livro é de extrema utilidade para conhecermos a vida da Igreja primitiva. Martin Dibelius (1883-1947), notável especialista alemão do Novo Testamento, considerou Lucas, por causa do Evangelho e deste Livro de Actos, o primeiro historiador da Igreja, mas historiador no sentido teológico (18). O que isto quer dizer é que Lucas não se contenta com descrever os acontecimentos, mas interpreta-os também a partir da sua fé. Historiador-teólogo como, por exemplo, parece ter sido a atitude do padre jesuíta Gabriel Malagrida que viveu nos dias do marquês de Pombal e interpretou o terramoto de Lisboa de 1755 como castigo de Deus feito aos portugueses. O todo poderoso primeiro-ministro do rei José I não apreciou essa interpretação e levou a Inquisição a condená-lo e executá-lo como herege. Damos este exemplo apenas para que se perceba que por detrás de uma interpretação há factos reais que não podem ser negados. E os factos reais do Livro de Actos indicam que a Igreja ali descrita é uma Igreja pluralista na organização e nos ministérios e também uma Igreja que está longe do clima legalista, ritualista e formal da maioria das Igrejas dos nossos dias, onde muitas vezes há quem tenha “poder”, mas apenas um poder baseado nos papeis, nos acordos humanos, em habilidades de gabinete, no dinheiro ou até graças a verdadeiros crimes, como aconteceu na Roma papal em tempos  tenebrosos.

O Livro de Actos é, dizem alguns, o retrato idealista da Igreja. Não se trata, argumentam, da Igreja que existiu mas da Igreja que se deseja. É uma opinião, mas dela podemos, pelo menos, aceitar, este aspecto: nas páginas deste Livro encontramos, de facto, o estilo de Igreja que devemos desejar ser.

Quando, por razões históricas compreensíveis, a partir do século IV, a Igreja adoptou estruturas fixas do ministério e começou a formular os seus dogmas, ao mesmo tempo que privilegiava a vertente sacerdotalista da sua missão, em detrimento da função profética, entrou-se no período mais formal do Cristianismo e tornaram-se raras as manifestações de tipo carismático descritas no Livro de Actos e nas epístolas do Novo Testamento. Àqueles que perguntavam a razão desse empobrecimento da vida da Igreja, passou a dar-se esta resposta: Deixou de haver manifestações do Espírito Santo porque esses tempos descritos no Novo Testamento foram tempos especiais, postos no plano de Deus para a introdução da fé no mundo. Quando morreu o último dos apóstolos, acabaram-se esses tempos de prodígios e sinais e a Igreja passou a viver na normalidade. Em certos meios do Protestantismo diz-se que neste período pós-apostólico em que vivemos a missão da Igreja é anunciar a Palavra e ser fiel ao ensino dos mesmos apóstolos. Alguém observou há anos que os grandes movimentos apresentam-se sucessivamente por três estados, como a água: o estado gasoso (nos seus inícios); o estado líquido em seguida, quando começa a estabilizar-se – e finalmente o estado sólido quando a temperatura baixou bastante. Seria essa a situação da Igreja Cristã, que no livro de Actos apresenta um Cristianismo no estado gasoso (Espírito), em seguida, até ao século IV, entra na institucionalidade – e depois solidifica-se (ou petrifica-se!), tornando-se essa religião seca e burocrática das Igrejas. Mas a História mostra-nos que tem havido períodos de grande secura, de doutrinarismo frio e sem paixão, que são, subitamente, abanados por correntes de vivacidade e alegria no Espírito.

Não há nenhum lugar das Escrituras que justifique a afirmação de que com a morte dos apóstolos terminava o período da direcção do Espírito Santo, chegava ao fim a manifestação de dons, acabavam-se os “prodígios e sinais”. Não há razão para não se poder esperar que o ambiente descrito no Livro de Actos e em algumas cartas paulinas não possa repetir-se em qualquer época, ou não possa justamente ser o ambiente “normal” de qualquer Igreja. A História do Cristianismo mostra que, de facto, sempre houve manifestações que chamamos carismáticas, ou de “experiência do divino”, ao longo dos séculos. Êxtases, glossolália, curas, visões mesmo, têm sido verificados na vida de vários cristãos e cristãs. Houve sempre ao longo dos dois mil anos depois de Cristo um “Cristianismo pneumocêntrico” (19). Creio que foi prejudicial ao Cristianismo tomado globalmente ter-se chegado a identificar essa atitude com o misticismo e o misticismo como uma característica rara e limitada a um escol de predestinados. Na verdade, a “experiência do divino” não tem de ser vista como um privilégio raro, de alguns “santos” (quase sempre clérigos), mas deve ser considerada uma oportunidade para todos os cristãos, sejam eles operários, patrões, donas de casa, lavradores, médicos, pastores ou de qualquer outra actividade. Não é necessário ser uma Teresa de Ávila, um João da Cruz,  um George Fox, ou um Lutero para se ter uma experiência tangível de Deus. Prova disso é o primitivo movimento metodista, o despertamento do País de Gales e o movimento pentecostal do princípio do século XX. O próprio papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II para o “aggiornamiento” da sua Igreja, orou a Deus pedindo que, com esse Concílio, houvesse “um novo Pentecostes”. Não se pode dizer que o papa Roncali pedisse a “pentecostalização” da Igreja romana, mas essa oração mostra a sua convicção de que um verdadeiro renovamento só é possível quando os cristãos se deixam encher pelo Espírito que veio no primeiro Pentecostes.

Há um número enorme de relatos de experiências do divino, escritos pelos seus protagonistas ou por quem os ouviram dos próprios protagonistas, que mostram à saciedade a importância que tais experiências têm na qualidade do testemunho cristão. Um dos relatos mais conhecidos é aquele que teve como protagonista o matemático e filósofo cristão francês Blaise Pascal, um católico oposto à linha oficial da sua Igreja. O texto dessa narrativa só foi encontrado oito anos depois de Pascal ter morrido, quando o homem que fora seu criado, mexendo num gibão que o sábio usara, notou haver dentro do forro algo espesso. Descoseu o forro e foi encontrar lá um pergaminho com um texto na letra do seu falecido amo. Era a descrição em estilo resumido escrita por Pascal na  noite de 23 de Novembro de 1654 e começava assim:

«Ano da graça de 1654. Segunda-Feira 23 de Novembro... Desde aproximadamente as dez horas e meia da noite até perto da meia-noite e meia hora». Referia-se ao tempo que durara a sua experiência do divino. Depois aparece uma palavra misteriosa: «Fogo». É impressionante que use esta palavra, se nos lembrarmos que nos Evangelhos, João Baptista, o Precursor de Cristo, dirigindo-se à multidão, afirma: “Eu baptizo-vos com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar, ele vos baptizará com o Espírito Santo e com fogoMateus 3:11.

Entretanto, o enigmático pergaminho de Pascal continua:

 

«Deus de Abraão, de Isaque e de Jacob, não dos filósofos e dos sábios.

Certeza. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz.

Deus de Jesus Cristo.

... Esquecimento do mundo e de tudo, menos de Deus.

Ele não é encontrado senão pelos caminhos indicados no Evangelho.

Grandeza da alma humana. “Pai Justo, o mundo não Te conheceu, mas eu conheci-Te”.

Alegria, alegria, alegria. Lágrimas de alegria.»

 

Trata-se, sem dúvida, de um texto estranho, onde Pascal quis registar imediatamente os sentimentos que viveu naquela noite memorável, um texto que não tinha certamente por objectivo ser divulgado, pois era a expressão natural, espontânea de uma experiência que marcou profundamente esse homem. Se séculos depois o nosso Fernando Pessoa diz que toda a carta de amor é ridícula, referindo-se ao amor humano, perceber-se-á que um texto íntimo que fala do amor divino não poderia ser uma elaboração artística. Mas o que Blaise Pascal escreveu da sua experiência com Deus serve para nos mostrar a forte impressão que ela teve no sábio.

É importante sublinhar uma das primeiras frases deste testemunho de Pascal: “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacob, não dos filósofos e dos sábios”. A experiência mostrava-lhe que Deus é o Deus próximo, que fala aos homens, que entra na experiência viva de homens, como Abraão, como Isaque, como Jacob. O intelectual desgostado diante de uma vida sem horizontes, que não conseguira da Filosofia e da Razão respostas para a sua sede da Verdade, descobriu nessa noite de 1654 que o Deus Transcendente é também o Deus presente, Aquele que se torna íntimo do homem. É também nos “Pensamentos” deste homem notável que existe o célebre aforismo – O coração tem razões que a razão não conhece – e que devemos ter bem presente enquanto estudamos o tema deste livro.

 

  Capítulo IV – SEM FÉ É IMPOSSÍVEL...

 

A tendência é pensar-se que, se alguém quer fazer a experiência cristã do divino, deve preparar-se, cumprindo certos requisitos prévios. Aponta-se a oração, o jejum, uma maior santificação. Faz-se isso tudo como que num período de espera, pois fica claro que os discípulos e discípulas que receberam a efusão do Espírito Santo no primeiro Pentecostes tiveram de “esperar” e quando o Espírito veio sobre eles encontrou-os reunidos em oração. Mas a verdade é que não há nenhuma passagem das Escrituras que estabeleça quaisquer preparativos para essa experiência, nem mesmo, por mais que isso possa estranhar, a oração. Sabemos que há grupos cristãos que falam da oração como via indispensável para esta experiência que chamam, como o Novo Testamento, de “ser cheio do Espírito Santo”. Entre eles realizam-se reuniões de oração, precedidas de jejuns, que se prolongam às vezes pela noite fora e em que os clamores se resumem no pedido: “Envia, Senhor, o teu Espírito!”. E deve dizer-se que muitas vezes é depois de muitas horas que, efectivamente, há manifestações da acção do Espírito. Pode parecer que, afinal, sempre há uma preparação para se ter a experiência do divino, mas a verdade é que, sem negar a importância da oração e do jejum, o que levou à experiência não foram esses elementos mas a fé daquele ou daquela que queria ser “cheio do Espírito Santo”. A sua igreja ensinou que se impunha muita oração e era necessário o jejum e o crente seguiu essa via. Jejuou, orou, chorou, clamou – e nada acontecia ao fim de muitas horas. Veio então, subitamente, um momento em que duvidou do valor da «sua» oração e do «seu» jejum e percebeu que, afinal, tudo dependia exclusivamente de Deus - e esse foi justamente o momento da fé: porque «ter fé é abandonar-se totalmente em Deus por Jesus Cristo». O fervor da oração não é um «caminho» para a fé: quando é verdadeiro, ele é antes «produto» da fé. O jejum também não é caminho para a fé, mas pode ser a decisão natural da fé. Há quem passe por experiências psicológicas profundas depois de prolongados jejuns voluntários ou não, mas essas experiências não são do divino, e os médicos dão delas fácil explicação.

Mas não teremos que ser dignos de receber a experiência do divino? Não teremos de melhorar a nossa vida (santificação)? É certo que nunca seremos puros para podermos receber a visita do Deus Santo, mas não teremos, pelo menos, de afastar de nós os pecados mais grosseiros, como a idolatria, o adultério, o roubo, o crime? São perguntas pertinentes, mas que se confrontam sempre com a questão essencial, que é esta: se acreditarmos que, por «não» sermos idólatras, «não» sermos adúlteros, «não» sermos ladrões, «não» sermos criminosos, já podemos entrar na área do divino, já Lhe agradamos, estamos a ter uma concepção muito moralista e infantil de Deus. Não estou a subestimar a moral, nem a dizer que é o mesmo ser um cidadão de bom comportamento, com pecados menos chocantes do que os acima referidos, ou ser um celerado. Mas é um facto que se um adúltero, por hipótese, chegasse ao momento da fé estaria nesse momento na condição de pôr fim ao seu pecado: se recebesse o dom do Espírito Santo não era o adúltero que o receberia mas agora já o crente justificado por Cristo. O seu adultério terminaria ali. Se esse homem voltasse ao seu adultério isso significaria que, na verdade, não fora uma experiência do divino a que tivera, mas demoníaca. Pela fé, o homem torna-se “filho de DeusJoão 1:12 e o filho de Deus não vive cometendo pecado I João 3:9. Quer isto dizer que os cristãos são pessoas perfeitas? Não, porque em cada cristão continuará a haver o “velho homem”, que o levará a errar até ao fim da vida. Como disse Martinho Lutero, o cristão é ao mesmo tempo justo e pecador. A diferença que fará do homem que se não converte é que esse peca e ri-se do seu pecado, repetindo-o sempre; e aquele que se converteu a Cristo sente o peso do seu pecado, arrepende-se, e abandona-o. Vai voltar a pecar, não forçosamente fazendo males excessivos, mas voltará a levantar-se e a sua vida irá progressivamente aproximando-se da estatura do homem perfeito, Jesus Cristo. É esse aproximar-se progressivamente do modelo que se chama santificação. Perguntaram a um escultor na televisão portuguesa: “Está satisfeito com a sua obra?” e ele respondeu: “Não: um artista que fique satisfeito com o que faz, perde a capacidade de criar”. O cristão, mesmo cheio do Espírito Santo, nunca ficará satisfeito com a “sua obra”, com o modo como vive, pois o seu alvo é Cristo, mas dirá como Paulo: “Eu não me julgo a mim mesmo. Ainda que eu não me sinta culpado de nada, não é por isso que me considero justificado. Quem me julga é o SenhorI Coríntios 4:3/4.

Chegados aqui devemos reconhecer que a vida de alguns cristãos pode ser até mais infeliz do que a vida do homem sem Cristo, porque, como acabamos de dizer o homem sem Cristo “peca e ri-se do seu pecado”, não tem, em princípio, problemas de consciência, e segue em frente, alegre e folgazão. Enquanto muitos cristãos, visto que falham aqui e ali, sentem a dor de pecar, lamentam-se, confessam o seu pecado a Deus, batem com a mão no peito: “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa!”. A culpabilidade, temos de reconhecer, torna dura a vida de muitos cristãos...

Mas é justamente a esse tipo de Cristianismo sem alegria, esmagado pelo sentimento de culpa, que é preciso lembrar a necessidade da “experiência do divino”. Porque essa consciência atormentada, e esses fracassos constantes na caminhada da fé são o resultado de o cristão não se “encher do Espírito Santo”, e viver um Cristianismo de palavras, de regras, de rituais, mas sem o “poder” que Jesus prometeu aos seus fiéis. As suas vidas, sendo vidas honestas de pessoas salvas, não são “vidas vitoriosas” e estão sempre cheias de altos e baixos. São vidas a que falta o “fruto do Espírito Santo”, a que se refere Gálatas 5:22. Olhando para a vida dos que são por vezes chamados “gigantes da fé”, o que vemos é tudo menos contínuo desgosto de si, de amargura, de peso do seu pecado. Houve um tempo, no século XIX, em que em certos meios intelectuais esteve na moda comparar o modo de viver dos antigos  pagãos com a vida dos cristãos, para gabar os primeiros, pois viviam as suas grandes bacanais com alegria  e para apontar o estilo doloroso da vida cristã. Esqueciam-se de falar da ausência de piedade entre os pagãos, dos sacrifícios humanos, da prática generalizada do infanticídio, da pedofilia, do desregramento das orgias que acabava muitas vezes em tragédias, do terror dos pagãos diante da morte; mas tinham alguma razão na denúncia que faziam de um certo Cristianismo, mais entre católicos mas também entre protestantes, que vestia de negro,  cultivava a dor (o dolorismo) e considerava pecado tudo o que desse prazer ou tornasse feliz. Mas ao lado desse Cristianismo triste, havia, sempre houve, muitos cristãos que viviam espalhando amor ao próximo, sendo sal da terra e luz do mundo com vidas em que, mesmo com doenças, pobreza ou outros problemas, a nota principal era a da serena alegria. É importante sublinhar que no reduzido texto de Pascal citado no capítulo anterior a palavra “alegria” (joie, em francês) é a que mais se repete.

O ponto a realçar é este: a experiência do divino é possível a todo aquele ou aquela que tenha fé. Jesus não mandou aos seus discípulos, segundo Actos l,8, que se recolhessem em prolongada oração e jejum, nem que se esforçassem para melhorar o seu comportamento, a fim de estarem aptos a receber o poder que viria sobre eles. O Espírito é que veio melhorar muito a vida deles e delas. Se o Espírito veio quando estavam em oração foi apenas, certamente, porque o Senhor quis que o primeiro Pentecostes se desse a todos no mesmo momento – e eles só estariam reunidos todos num mesmo momento para orarem. Depois disso, o dom do Espírito foi dado em reuniões de oração ou não, a grupos mas também a pessoas que estavam isoladas. Dwight Lyman Moody (1837-1899), famoso evangelista americano, contou que, tinha já muitos anos de actividade como pregador com êxito, quando teve a experiência da “plenitude do Espírito Santo” em Nova Iorque, ao meio-dia, «quando caminhava numa rua» – destaco eu, para que o importante pormenor não passe despercebido. Foi um gozo tão grande que gemeu, feliz,  pedindo a Deus que parasse o que estava a acontecer e as suas pernas fracassaram, como um homem embriagado. Lembram-se? Os observadores do comportamento dos cristãos no primeiro Pentecostes disseram: “Estão bêbados!”.

O autor da carta aos Hebreus escreve assim no capítulo 11, versículo 6: “Sem fé é impossível agradar a Deus: porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam”. Hebreus 11:6

Não há aqui uma definição da fé, mas o primeiro versículo desse mesmo capítulo dá uma a que nos referiremos adiante; no entanto, diz-nos algo que é necessário ter em conta na reflexão que vimos fazendo. Aquele que duvida da existência de Deus, em princípio não terá a possibilidade de ter uma experiência de Deus. É claro que, por definição, Deus, sendo o Todo-Poderoso, até a esses pode comunicar-se (longe de nós estabelecer regras para o Altíssimo!), mas a lógica da própria revelação leva a pensar que, por escolha d’Ele, é impossível que isso aconteça. Deus criou o homem livre e quere-o livre. Se, por hipótese, um ateu que fosse a caminhar pela rua como Moody recebesse, de súbito, o dom do Espírito Santo, numa experiência igual à de Moody acima referida, das duas uma: ou o ateu se convertia e isso seria conversão coagida (o que seria contrário à natureza de Deus), ou o ateu achava que tinha enlouquecido – e isso poderia ser-lhe muito prejudicial. Pelo menos, nesta segunda hipótese, teria sido uma experiência em vão. Se um intelectual sem fé tivesse  uma experiência igual à de Pascal, ficaria  por certo tão negativamente perturbado que nada de bom a experiência juntaria à sua vida. Provavelmente, consultaria um psiquiatra e este, se fosse ateu, receitar-lhe-ia drogas que lhe adormeceriam a consciência. Ao fim de alguns anos de “tratamento”, é possível que fosse mesmo um psicopata...

Há um outro aspecto que é preciso ter presente para compreendermos a importância da fé para se passar pela experiência do baptismo do Espírito Santo. Já vimos que uma pessoa pode ser cristã há muitos  anos, isto é, crer em Cristo há muitos anos (tendo fé) e não ter a experiência da plenitude ou baptismo do Espírito. Não é dúvida que está salva, pois a Bíblia diz: “pela graça sois salvos, por meio da féEfésios 2:8. Mas quanto mais feliz seria na terra e quanto mais desejo de servir, se tivesse também as experiências! O obstáculo é o tal outro aspecto da palavra “fé”  a que acabei de aludir: a certeza de que o baptismo e o falar línguas são experiências possíveis também hoje para «todos» os cristãos. Se eu tenho a certeza de que tenho na minha biblioteca o livroJesus”, de Leonardo Coimbra, embora a minha biblioteca esteja muito mal arrumada e o livro seja pouco espesso, terei do o encontrar, mais cedo ou mais tarde. Mas se eu não me lembrar que comprei esse livro, nem de o ter lido, então nem sequer o procurarei. Se eu, lendo noutro livro uma citação daquele ensaio do estudioso português e  pensar que gostaria de ter essa obra, mas que me é inacessível, é evidente que não procurarei o livro na minha biblioteca, nem o lerei. Se o leitor, que conhece bem a Bíblia, se convencer de que as experiências espirituais de que o Novo Testamento fala continuam acessíveis, o leitor está com muitíssimas mais probabilidades de as viver do que se pensar, como tantos cristãos, sinceros e salvos sem dúvida, mas sem fundamento bíblico neste ponto, de que o tempo dessas experiências já passou.  Moody foi cristão e até grande pregador antes de ter a experiência da plenitude do Espírito Santo muito provavelmente porque só tardiamente passou a admitir a possibilidade dessa experiência.

Para falar de algumas experiências espirituais, especialmente de místicos como Teresa de Ávila, fala-se, por vezes, em “casamento místico”: a alma do crente é como a noiva que se une ao seu amado, Deus. Essa metáfora ajuda-nos a compreender melhor a razão por que, no plano de Deus, sem fé é impossível ter uma experiência do divino. Porque a característica da fé é a aceitação, a adesão feliz a Deus. Não é só acreditar que Deus existe: é também acreditar que d’Ele vem todo o bem, que Ele te ama, que Ele é “galardoador”, como diz o versículo em questão na versão tradicional da Bíblia, ou que Ele recompensa. Num verdadeiro casamento humano é indispensável que ambos se aceitem, sem coacção de espécie alguma. Um casamento não “se consumará” se um dos nubentes se recusar à união. Fé é o sim do crente a Deus. Fé e amor são conceitos que devem caminhar juntos na perspectiva bíblica: “A fé opera pelo amor”, escreve São Paulo Gálatas 5:6. É por isso que dizemos que é impossível receber a plenitude do Espírito sem fé, mas podíamos dizer também é impossível receber o Espírito “sem amor”. E isso permite-nos compreender que Jesus tenha dito aos apóstolos: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele moradaJoão 14:23.

A definição que a carta aos Hebreus dá da fé é esclarecedora no contexto do nosso tema: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêemHebreus 11:1. Se um membro da Igreja não espera receber a “experiência do divino”, não a receberá. É como se alguém tiver sede mas se recusar a  beber a água que lhe oferecem. Não é correcto obrigar uma pessoa a beber, se ela tem relutância em fazê-lo.

Para ajudar a compreender o sentido bíblico da fé, gosto de apresentar uma comparação vulgar. Imagine-se um homem, António, que tem de pagar amanhã uma importância que ultrapassa as suas posses. Está inquieto, mas recebe um telefonema do seu amigo José que, sabedor da situação, lhe diz: “Amanhã de manhã estarei aí para te entregar o dinheiro de que precisas”. Pode António agora dormir descansado? Pode: porque ele conhece José, sabe que tem a possibilidade de lhe emprestar aquele dinheiro e sabe que José é um homem sempre cumpridor da sua palavra. Se ele diz que estará lá na manhã  seguinte, estará de certeza.  É claro que estamos a falar em termos simplificados, pois a vida está cheia de imponderáveis e esta noite José pode morrer. A “parábola” serve apenas para mostrar que António, em princípio, pode dormir descansado por ter “fé” na palavra de José. Se prometeu, cumpre. Infelizmente, tratando-se de seres humanos, esta “fé” é fraca.

Na Bíblia, a fé é a tranquila aceitação da Palavra que Deus nos dirige. Se Deus me diz que me perdoa em Jesus Cristo, porquê continuar amargurado com o meu pecado de que estou arrependido e corrigi na medida do possível? Se Deus me diz que sou salvo pela graça, justificado em Jesus Cristo, como duvidar da minha salvação? José, amigo de António, costuma ser fiel à sua palavra, mas é humano e está ainda assim condicionado por muitas dificuldades – mas Deus é o Deus soberano, o Todo-Poderoso, e nada nos deve limitar na aceitação do que Ele promete na Sua Palavra. Ora, a promessa exultante de Jesus Cristo em relação ao tema que estamos a tratar é esta: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e quem bate abrir-se-lhe-á. E qual é o pai de entre vós que, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, sendo maus, sabeis dar  boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” Lucas 11:9/13.

Um pastor aceitou tranquilamente este ensino de Cristo. Foi para a sua congregação e fez um estudo sério do assunto com os seus irmãos. Depois convidou todos a ficarem de pé e a pedirem a Deus o Espírito Santo. Quando o culto terminou era evidente a transformação operada em todos, sentindo uma comunhão com Deus até ali não experimentada. Simples de mais? Lembrem-se do general Naamã...

Quando pedimos perdão a Deus por algo que fizemos errado, em seguida não temos de ficar à espera de ouvir uma voz ecoar nos altos céus a dizer: “Estás perdoado. Vai em paz!”. Simplesmente aceitamos, com fé, o que a Palavra  nos diz: “se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiçaI João 1:9. Do mesmo modo, se pedimos o Espírito Santo, aceitamos simplesmente com fé que Deus cumpre também essa Palavra. E a partir desse dia o crente sente uma comunhão com Deus como nunca sentiu antes. Esse pastor confessou a um íntimo: “Quando ando na rua por vezes tenho de ter cuidado, pois sinto os passos alterados, cambaleantes, como se tivesse bebido bebida alcoólica”.

No capítulo VI falarei do dom das “línguas estranhas”, mas por agora lembrarei que o cristão ou a cristã que faz a experiência do divino, a recepção do Espírito, não se torna melhor nem pior do que era, e pode falar desse assunto com simplicidade porque nem sequer, infelizmente,  fica isento de continuar a falhar. Não lembrei já que o cristão é até à morte “ao mesmo tempo justo e pecador” (Lutero)? Só pela morte alcançaremos a perfeição, na vida vindoura. Na experiência do divino, apenas, e não é nada pouco!,  realizamos melhor a vocação do nosso eu. Por isso é que gosto de associar o dia em que um cristão recebe a plenitude do Espírito Santo a um poema de Sebastião da Gama sobre o dia do seu nascimento natural: