Cura divina (CC)
1.1 - Introdução
Recebi a seguinte mensagem do irmão Júnior
Macedo, Presbítero da Assembleia de Deus de Pirai, no norte da Bahia, pessoa
formada em Sociologia.
«A Paz do Senhor! Ir. Camilo Coelho,
.................
Gostaria se possível o Senhor aprofundasse o tema da “cura
divina” em virtude de ouvirmos muito hoje em dia que o desejo de Deus é que
ninguém fique enfermo, quem está doente é porque tem demónio, é preciso ser
próspero e coisas deste tipo. É como se tais igrejas não lessem alguns textos
da bíblia como o que Paulo recomenda que Timóteo tome um pouco de vinho por
causa de sua dor de estômago e constantes enfermidades e muitos outros.
.......................................
Espero ansioso por tal artigo, com a certeza de que o mesmo vai
contribuir e muito para o crescimento do povo de Deus.
Que Deus o abençoe e o guarde!»
1.2 - Cura divina e exorcismo
Afinal, refere-se a cura de quê?
Geralmente a Bíblia fala em cura duma
doença ou enfermidade e fala também em cura duma possessão demoníaca,
geralmente conhecida por exorcismo,
quando se trata da expulsão dum demónio. Penso que o irmão se refere à cura de
enfermidades, mas como estes dois problemas estão muitas vezes relacionados,
vamos fazer referência aos dois casos, doenças e possessão.
1.3 - O que é a “cura divina”?
Penso que a grande maioria dos leitores
da minha página na internet, quer sejam católicos, ou protestantes, ou
evangélicos, ou islâmicos, ou hindus ou de outras religiões, não coloca em
dúvida o poder de Deus para curar. Até os agnósticos, talvez os mais numerosos
em Portugal dirão que, se Deus existir, certamente que terá poder para curar.
Duma maneira geral, todas as religiões, de
que conheço alguma coisa, apresentam as suas curas. Os islâmicos, têm no Alcorão,
referências a cura de enfermidades, na sura 3 vr. 49, sura 5:110, sura 21:90 e
sura 26:80. Quanto aos hindus, encontrei no Bhagavad-Guitá referência a curas
no canto 2: versículo 8, mas o hinduísmo tem muitos mais livros que não
conheço, embora o Bhagavad-Guitá seja o principal.
No contexto evangélico, geralmente
considera-se “cura divina” a cura instantânea duma doença, efectuada por meios
sobrenaturais no interior duma igreja ou num culto de oração especialmente
dedicado a este tipo de curas.
Esta questão que coloquei, “o que é a
cura divina?” pode suscitar várias outras: Será que só é “cura divina” se
acontecer numa igreja? Se for num hospital, já não será “cura divina”? Será que
consultar o médico é sinal de fraqueza espiritual, como alguns ainda ensinam?
Será a acção divina incompatível com a medicina, a psicologia, a farmacologia?
2.1 - Saúde e religião
Podemos colocar a questão: Por que
grande parte da população procura resolver os seus problemas de saúde através
da religião?
Penso que a tendência em associar a
saúde à religião, é bem antiga e tem fundamento no
Velho Testamento. Muito antes de Cristo, já no tempo de Moisés, cerca do ano
1200 AC, eram os levitas que se preocupavam com a saúde pública. Eram eles que
declaravam quais os doentes e os sãos, assim como os animais comestíveis e os
que deveriam ser rejeitados. Essas funções, em Portugal, nos nossos dias, são
da competência do médico delegado de saúde. (Não sei se noutros países do nosso
mundo lusófono empregam a mesma designação).
Mas, os levitas preocupavam-se mais com
a medicina preventiva do que com o tratamento do doente. Um caso típico é o que
acontecia com o leproso que após diagnosticada a lepra, deveria ser escorraçado
para lugares desérticos. Não havia propriamente a preocupação em tratar o
leproso, mas em evitar a contaminação do resto da população. Se por acaso o
leproso se sentisse curado, ou se possivelmente o diagnóstico não fosse
correcto, era sujeito a novo exame pelos levitas e poderia ser declarado
curado.
Ainda nos nossos dias, muitos recorrem à
religião para resolver os seus problemas de saúde. Refiro-me a todas as
religiões e todas as formas de religiosidade, principalmente nos países e
locais onde a assistência médica é mais deficiente ou a preços não acessíveis a
toda a população. Nota-se nitidamente que onde houver melhor assistência
médica, as populações não recorrem tanto aos meios sobrenaturais para
solucionar os seus problemas de saúde, e nos ambientes com nível de
escolaridade mais elevado, praticamente já não há casos de possessão demoníaca,
como aliás se pode verificar nos vários ambientes do Brasil. Neste ponto,
concordo com os comunistas que afirmam que “Saúde não é negócio, mas é o
direito de todo o ser humano”. Infelizmente há certo tipo de “medicina” e certo
tipo de “religião” que transforma a saúde (ou a falta dela) em próspero
negócio.
Certamente que Deus não quer que o homem
esteja doente, assim como, também não quer que ninguém peque, mas temos de
distinguir entre a vontade activa de Deus e a sua vontade permissiva, quando
Deus permite e não intervém mesmo que tal coisa não lhe agrade.
2.2 - O que nos diz a Bíblia
Em certos ambientes, que o irmão que nos
contactou do Brasil certamente conhece muito melhor do que eu, quando o Pastor
duma igreja afirma que estão perante uma possessão demoníaca, ninguém tem
coragem de discordar ou levantar a mínima dúvida, pois será logo rotulado de
incrédulo, herético, ignorante etc.
Mas, como compete a uma página da
internet dedicada à teologia, iremos abordar o assunto com atenção e calma, sem
as tão conhecidas fronteiras teológicas e pressões psicológicas.
Penso que doença, ou enfermidade, é
tratada de forma diferente da possessão demoníaca, pelo que aqui iremos
examinar em separado estes dois problemas.
3 – Doença ou enfermidade
3.1 -No Velho Testamento
A doença era geralmente encarada como
uma forma de castigo e as duas coisas (pecado e doença) estão intimamente
relacionadas. Assim como a cura está relacionada com a reconciliação com Deus.
Para maior comodidade de leitura, vamos
transcrever as passagens, mas aconselha-se a “clicar” nas referências bíblicas,
para ter acesso ao contexto destas passagens.
Êxodo
15:26 dizendo: Se ouvires atentamente a voz do
Senhor teu Deus, e fizeres o que é recto diante de seus olhos, e inclinares os
ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, sobre ti não
enviarei nenhuma das enfermidades que enviei sobre os egípcios; porque eu sou o
Senhor que te sara.
Êxodo
23:25 Servireis, pois, ao Senhor vosso Deus, e ele
abençoará o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de vós as
enfermidades.
Salmo
38:3 Não há coisa sã na minha carne, por causa da
tua cólera; nem há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado.
Isaías
1:5 Por que seríeis ainda castigados, que
persistis na rebeldia? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco.
Isaías
35:4/6 Dizei aos turbados de coração: Sede fortes, não temais; eis o vosso Deus! Com vingança
virá, sim com a recompensa de Deus; ele virá, e vos salvará.
Então os olhos dos cegos
serão abertos, e os ouvidos dos surdos se desimpedirão.
Então o coxo saltará como o
cervo, e a língua do mudo cantará de alegria; porque águas arrebentarão no
deserto e ribeiros no ermo.
3.2.1 - No Novo Testamento
Não encontrei nenhuma cura efectuada por
João Batista.
Jesus não apoiou a ideia veterotestamentária
que associava sempre a doença ao pecado do próprio os dos seus progenitores, ao
declarar em
João
9:1/3 Caminhando, viu
Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: Mestre, quem
pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?
Jesus respondeu: Nem este
pecou, nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus.
Jesus curou muitas enfermidades e
expulsou muitos demónios. Nota-se que há uma diferença entre enfermidade e
possessão demoníaca, embora essa diferença não seja bem nítida e não temos
passagens didácticas sobre o assunto.
Jesus curou pessoalmente em:
Marcos
1:32/34 Sendo já tarde, tendo-se posto o sol,
traziam-lhe todos os enfermos, e os endemoninhados;
e toda a cidade estava reunida à porta;
e ele curou muitos doentes atacados de
diversas moléstias, e expulsou muitos demónios; mas não permitia que os
demónios falassem, porque o conheciam.
Marcos
3:9/11 Recomendou, pois, a seus discípulos que se
lhe preparasse um barquinho, por causa da multidão, para que não o apertasse;
porque tinha curado a muitos, de modo que todos
quantos tinham algum mal arrojavam-se a ele para lhe tocarem.
E os espíritos imundos,
quando o viam, prostravam-se diante dele e clamavam, dizendo: Tu és o Filho de
Deus.
3.2.2 - Jesus curou através dos Apóstolos a quem deu esse poder e
obrigação
Mateus 10:7/8 e indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos,
expulsai os demónios; de graça recebestes, de graça dai.
Lucas
10:16/17 Quem vos ouve, a mim me ouve; e quem vos
rejeita, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me
enviou.
Voltaram depois os setenta
com alegria, dizendo: Senhor, em teu nome, até os demónios se
nos submetem.
Actos
3:16 E pela fé em seu nome fez o seu nome
fortalecer a este homem que vedes e conheceis; sim, a fé, que vem por ele, deu
a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde.
Actos 9:34 Disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus Cristo te cura; levanta e faz a
tua cama. E logo se levantou.
3.2.3 - Cura por meios naturais
Não encontro no Novo Testamento,
diferença entre meios espirituais ou sobrenaturais e os meios a que hoje
chamamos da medicina.
Mas de acordo com esse critério da nossa
cultura actual, podemos ver em
Lucas
10:34 e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando
nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma
estalagem e cuidou dele.
Nesta parábola, que Jesus contou, o
vinho actuou como medicamento desinfectante e anestésico, assim como o azeite
para amaciar a pele dorida tanto mais importante devido ao clima quente e seco
da Judeia.
I
Timóteo 5:23 Não bebas mais água só, mas usa um
pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades.
Certamente que o vinho era utilizado
como medicamento para auxiliar a digestão.
Aos irmãos do Brasil, que vivem numa
cultura que não tem tradição vinícola e alguns por vezes até confundem vinho com
cachaça, devo dizer que nos textos em grego está a palavra “oinos”, que no
português original de Portugal, corresponde ao “vinho do ano”, o mais barato,
que todos consomem normalmente às refeições. Sobre o assunto, aconselho a ler o
artigo “Vinho – O crente
pode beber? (CC)”
3.2.4 - Os Apóstolos também tinham problemas de saúde
Nos nossos dias, como afirma o irmão
Macedo que me contactou do Brasil, é vulgar as igrejas evangélicas abandonarem os
ensinos de Cristo para voltarem aos ensinos do Velho Testamento apresentando a
doença como castigo e relacionando a saúde com a espiritualidade. Infelizmente
isso não foi novidade para mim. Lembro-me de que já há
muitos anos, na cidade de Beira, em Moçambique o missionário português,
Nascimento Freire, um dos primeiros na evangelização de Moçambique, nessa
altura já velho e cansado, que contraíra a doença da bilharziose no seu
trabalho missionário no interior de África, por beber água contaminada, pois não
havia outra, teve de fazer uma viagem à antiga Rodésia, actual Zimbabué onde
havia especialistas para atenuar uma doença que não tinha cura. Logo apareceu
um Pastor, desses que dizem que têm o dom de curar, que se ofereceu para o
substituir como Pastor. Ainda o velho Missionário Freire estava a caminho do Zimbabué,
quando nessa mesma noite, o Pastor que se ofereceu para o substituir inicia o
culto afirmando: “O nosso amado Pastor Nascimento Freire, foi mais uma vez,
tentar a medicina. Mas Jesus é o médico dos médicos. Quem tem fé, basta orar.... etc etc.” Os leitores da
minha página podem facilmente imaginar o que foi a pregação desse “missionário” que estava em África
como “pastor de cidade” e nada conhecia do interior de África. Lembro-me sempre
deste caso quando ouço a teoria da saúde dos mais espirituais.
Mas até no Novo Testamento temos casos
de grandes homens do Senhor que não gozavam de inteira saúde.
Já citámos o caso de Timóteo que tinha
problemas de estômago. Mas, temos também
II
Coríntios 12:7 E, para que me não exaltasse demais
pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um
mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de que eu não me exalte demais;
Não se sabe ao certo o que fosse esse
“espinho na carne”. Mas Paulo nos diz o mais importante. Era para ele não se
orgulhar, mas manter a sua humildade na sua fraqueza, nas suas necessidades e
provações.
Se ter saúde e prosperidade material é
sintoma de espiritualidade, então o que dizer de Paulo, que muitos consideram o
maior dos missionários?
Vemos também em
Colossenses
1:24 Agora me regozijo no meio dos meus
sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de
Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja;
Qualquer pastor dos nossos dias, na
situação de Paulo, quando esteve preso, doente e abandonado, certamente que se
sentiria desesperado, porque alguma coisa está muito mal no Cristianismo dos
nossos dias em que se nota uma inversão de valores.
Apresenta-se um “deus” ao serviço dos crentes,
um deus em que eu não acredito, pois foi feito pelo homem, pelos “religiosos”
dos nossos dias, para satisfazer as suas vontades. O Deus supremo, já não está
no centro. Procura-se um “deus” que seja servo para todo o serviço e o crente
já não se sente servo, mas cliente desse “deus”, só pelo facto de ser membro
duma igreja.
Prosperidade material e económica,
geralmente não é sinal de espiritualidade. Muitas vezes esses bens foram
adquiridos por meios ilícitos. Pode ser dinheiro extorquido aos crentes mais
humildes e ingénuos através da deturpação do Evangelho, através da pregação das
indulgências ou do dízimo, pode ser dinheiro que os mais ingénuos tiraram à
alimentação dos seus filhos e que as viúvas entregaram julgando que estavam a
servir ao Senhor.
4 - Possessão demoníaca
Haverá diferença entre doença, ou
enfermidade, e possessão demoníaca?
Em certas passagens, como no caso de Lucas
4:33/41, Lucas que era médico, faz distinção entre doença e possessão demoníaca.
No caso da sogra de Pedro, até diz que ela estava com febre, tal como diríamos
nos nossos dias. Portanto, não podemos afirmar que todos os doentes são
possessos.
4.1 - No Velho Testamento
A palavra “demónio”, nos textos
canónicos, só aparece em Salmo
106:37 Nos textos deuterocanónicos, aparece oito vezes em Tobias, uma vez
no livro da Sabedoria e outra vez em Baruc.
São bem poucas as passagens canónicas veterotestamentárias
sobre a possessão demoníaca e estão todas no mesmo livro de I Samuel.
Vejamos as passagens:
I
Samuel 16:14 Ora, o Espírito do Senhor retirou-se
de Saúl, e o atormentava um espírito maligno da parte do Senhor.
I
Samuel 16:23 E quando o espírito maligno da parte
de Deus vinha sobre Saúl, David tomava a harpa, e a tocava com a sua mão; então
Saúl sentia alívio, e se achava melhor, e o espírito maligno se retirava dele.
I
Samuel 18:10 No dia seguinte o espírito maligno da
parte de Deus se apoderou de Saúl, que começou a profetizar no meio da casa; e
David tocava a harpa, como nos outros dias. Saúl tinha na mão uma lança.
I
Samuel 19:9 Então o espírito maligno da parte do
Senhor veio sobre Saúl, estando ele sentado em sua casa, e tendo na mão a sua
lança; e David estava tocando a harpa.
Parece que esta possessão demoníaca
veterotestamentária é uma situação passageira, um caso pontual, pelo que não se
pode falar propriamente em possessão, que implicaria uma acção prolongada no
tempo.
4.2 - No Novo Testamento
São muitas as passagens
neotestamentárias sobre o fenómeno da possessão demoníaca, que podemos
facilmente localizar através da busca informática, pelo que iremos apresentar
as mais significativas.
Localizei três casos que se podem
considerar, não de verdadeira possessão demoníaca duradoura, mas de casos em
que pessoas são momentaneamente ou pontualmente possuídas ou influenciadas por
demónios ou pelo próprio Satanás, para interferir nos seus planos ou acções.
Mateus
16:23 Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para
trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas
coisas que são de Deus, mas sim nas que são dos homens.
Marcos
8:33 Mas ele, virando-se olhando para seus
discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: Para trás de mim, Satanás; porque não
cuidas das coisas que são de Deus, mas sim das que são dos homens.
No contexto destes versículos, que
podemos ler, “clicando” nas referências bíblicas, vemos que Pedro tomou Jesus à parte, expressão que nos leva a
imaginar que se tivesse aproximado de Jesus, para uma conversa a sós, para lhe
dizer alguma coisa bem íntima.
No entanto, as expressões voltando-se, que encontramos em Mateus e olhando para seus discípulos, como diz Marcos,
leva-nos a imaginar que Jesus se terá afastado de Pedro, recusando essa
intimidade, para falar para todos. Certamente porque já não era Pedro que
falava, mas o próprio Satanás através de Pedro que o tentava afastar dos seus
planos de morrer por todos nós. Nesse momento, Pedro era instrumento de
Satanás, ou podemos mesmo afirmar que estava possuído ou controlado por
Satanás.
Lucas
22:03 Entrou então Satanás em Judas, que tinha por
sobrenome Iscariotes, que era um dos doze;
João
13:27 E, logo após o bocado, entrou nele Satanás.
Disse-lhe, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa.
Contrariando certa tendência de muitos
pregadores, em considerar Judas como uma pessoa mal intencionada desde o
início, que se tornou Apóstolo com a intenção premeditada de trair o Mestre,
não encontramos nada que nos possa dar esta ideia. Em João
12:4/6, temos uma grave acusação contra Judas, mas nada que nos leve a
relacionar com a sua intenção de trair a Jesus. Esta descrição de Lucas e de
João leva-nos a pensar que foi a partir dessa altura que Satanás passou a controlar
de forma definitiva o pensamento e comportamento de Judas.
Estes casos neotestamentários que
mencionamos mostram uma influência de Satanás em casos pontuais, em momentos
decisivos da vida destes homens.
No entanto, a maior parte das
descrições, referem-se a casos de possessão demoníaca permanente ou quase
permanente.
Em Marcos
1:32 - Sendo já tarde, tendo-se posto o sol,
traziam-lhe todos os enfermos, e os endemoninhados; Vemos nitidamente
que um enfermo era diferente dum endemoninhado.
Temos outras descrições em Marcos
1:23/26 ou Marcos
5:2/13 etc.
A possessão demoníaca está quase sempre
relacionada com perturbações psíquicas ou mesmo físicas, como são os casos
seguintes:
Mateus
12:22 - Trouxeram-lhe então um
endemoninhado cego e mudo; e ele o curou, de modo que o mudo falava e via. – Cegueira e mudez.
Mateus
17:15 - Senhor, tem compaixão de meu filho, porque
é epiléptico e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na
água. – Epilepsia?!.
Lucas
11:14 - Estava Jesus
expulsando um demónio, que era mudo; e aconteceu que, saindo o demónio, o mudo
falou; e as multidões se admiraram. – Mudez.
Ainda sobre este assunto convidamos a
ler o artigo Manifestações
demoníacas (CC) desta página da
internet, em que coloco somente uma introdução e convido os visitantes da minha
página a colaborar com as suas opiniões. Publiquei algumas dessas opiniões que
tinham interesse teológico, mas a maior parte eram simplesmente testemunhos do
que lhes tinha acontecido, coisa que não está nos objectivos desta nossa página
que é de reflexão teológica.
5.1 – Cura divina nos nossos dias
Não há dúvida de que Jesus assumiu
perante as doenças, uma atitude bem diferente da que encontramos no Velho Testamento.
Deus certamente que está pronto a
ajudar, mas só fará aquilo que não estiver dentro das nossas possibilidades, e
não podemos ignorar a nossa realidade bem diferente da que se vivia nos tempos bíblicos,
pois temos os grandes avanços da medicina, certamente insuficientes para todas
as nossas doenças, mas muito podemos fazer para ajudar os doentes.
Por outro lado, não podemos ignorar o
pensamento do homem dos nossos dias. Tanto o homem do Velho como do Novo
Testamento, viviam segundo uma cosmovisão teocêntrica, e como tal, Deus era o
mais importante, pois Ele era o centro de todo o Universo.
Nos nossos dias, vivemos segundo uma
cosmovisão antropocêntrica, pois desde que o ser humano descobriu que a terra
não é o centro do universo, não só o nosso planeta, como o próprio Deus, deixaram
de ser o centro de tudo, para serem substituídos pelo próprio ser humano.
Claro que isto teve grandes implicações
no pensamento humano, que deixou de ver em Deus, não a finalidade de tudo, mas
o meio de resolver os seus problemas. Claro que o Deus Pai, revelado por Jesus
Cristo, não muda. Ele continua disponível, mas só fará, se assim o entender, o
que não estiver ao alcance das nossas possibilidades, pois Deus não é nosso
criado para nos substituir, mas é o Supremo o Todo-poderoso.
Há no entanto, duas principais atitudes
que podemos assumir para ajudar os doentes e necessitados: A ajuda através da
medicina, ou a ajuda através da oração, são os dois casos mais extremos.
Claro que, como os antigos diziam, “no
meio está a virtude” e cada uma destas acções, que iremos examinar em separado,
não inviabiliza a outra.
Muitas vezes a doença está relacionada
com as condições de vida e carência alimentar. Este ano, tive o privilégio de
colaborar, na minha qualidade de Engenheiro de Construção Civil, com a Igreja
Baptista de Leiria, que construiu um Centro Social para ajuda aos idosos e
necessitados, em que fornece apoio domiciliário diário, com comida e tratamento
de roupa, e o pagamento é de acordo com as possibilidades de cada um. Não dá
propriamente apoio médico, mas tem uma terapeuta graças à ajuda do Município
dessa cidade.
Isso certamente que não impede que esses
irmãos orem pelos doentes. Pessoalmente, penso que essas orações, depois dos crentes fazerem tudo que está dentro das suas
possibilidades, são as orações que o Senhor quer ouvir.
Será que os resultados
da acção desses irmãos, não será também a “cura divina”? Quando a ajuda
aos doentes e necessitados, vem através da acção desinteressada dos crentes,
não é Deus que actua através dos seus membros?
Quando, foi necessário remodelar e
ampliar as instalações desse Centro Social Baptista de Leiria, para não
interromper a ajuda diária aos doentes e idosos, quem cedeu gratuitamente o
espaço para continuarem a preparar a comida e tratamento de roupa, foi a Igreja
Católica de Cruz da Areia, nos arredores da cidade de Leiria. Só Deus conhece
quais os verdadeiros crentes, que ajudam desinteressadamente. Não será também
isso a actuação divina?
5.2 Cura através da medicina
Sob o aspecto pragmático e utilitarista,
de muitas igrejas “evangélicas”, a cura através da medicina tem um grande
inconveniente, pois não dá lucro (o grande objectivo de muitas igrejas
“evangélicas”) e além disso, é muito dispendiosa, pelo que infelizmente, poucas
igrejas estão sensibilizadas para esse tipo de ajuda.
No século passado, a assistência médica (assim
como a instrução), foi uma das acções que prestigiaram as igrejas, nomeadamente
no campo missionário. Eu próprio, nasci num hospital
da chamada Missão Suiça, pois era trabalho das igrejas presbiterianas da Suiça
em Moçambique. Espero em breve, colocar na minha página, um trabalho de
Mestrado sobre investigação histórica, que irá abordar este assunto.
Quase todas as antigas missões
protestantes em Moçambique, ligadas às igrejas históricas, tinham uma escola
para ensino da língua portuguesa e instalações para apoio médico, desde simples
trabalhos de enfermagem até verdadeiros hospitais com salas de cirurgia. Claro
que tal apoio só era possível com colaboração de várias igrejas protestantes
bem organizadas.
Nos nossos dias, com a desorganização,
superstição e sectarismo, bem como a pouca preparação teológica e cultural da
maioria dos missionários evangélicos, pois muitos tornaram-se missionários como
uma alternativa ao desemprego no Brasil, isso geralmente não é possível.
5.3 Motivos da grande ênfase nas “curas” milagrosas dos nossos dias
Penso que a grande ênfase que certas
igrejas dos nossos dias dão à chamada “Cura divina”, está relacionada com o
“evangelho” que pregam.
Costuma-se condenar a chamada “Teologia
da Prosperidade”. Mas pergunto: Será que essa teologia não entrou já na grande
maioria das igrejas ditas evangélicas?
Grande percentagem dos que procuram as
igrejas tem como finalidade a resolução dos seus problemas pessoais. A maior
parte procura qualquer deus ou deusa que resolva os seus problemas. Se é
verdadeiro ou falso, isso pouco lhes importa. O importante é que funcione, que
resolva os seus problemas.
Então, se uma igreja quiser crescer a todo
o custo, só tem de prometer.... Prometer que Deus vai
abençoar a vida profissional, vai curar todas as doenças, vai resolver os
problemas financeiros e familiares etc.
Assim os cultos dão toda a ênfase à
emoção, com pouca ou nenhuma reflexão. Liberdade de expressão, meditação e
debate teológico?!! A maior parte nem sabe o que isso
significa. Nesse ambiente, podemos compreender que certo tipo de doenças
psíquicas podem ser curadas ou ter uma aparência de cura, enquanto durar a
emoção.
Não estou a dizer que Deus não pode
curar, mas estou a tentar desmascarar os muitos casos de curandeirismo e
charlatanismo das igrejas ditas “evangélicas”.
E quando, após alguns dias o doente vê
que a “cura divina” não funcionou?
Então surge a “teologia”, bem rentável,
da necessidade de manter a cura divina, certamente à custa do dízimo e outras
ofertas, em clara contradição com
Mateus
10:7/8 e indo,
pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, ressuscitai os
mortos, limpai os leprosos, expulsai os demónios; de graça recebestes, de
graça dai.
Ainda sobre o dízimo, convidamos a ler
os artigos que estão na secção “Temas Polémicos”,
desta página da internet.
De maneira alguma
condenamos as orações pedindo ajuda divina em caso de doenças ou outras
dificuldades, pois isso é bíblico neotestamentário. O que condenamos é a forma
fraudulenta como o assunto é apresentado, bem como o negócio ilícito
relacionado com tais “curas”.
Disse-me um dia, um amigo que foi comigo
à igreja: “Com esse ambiente que têm, certamente que acredito nessas curas, que
são consequência da emoção do momento, mas não acredito que lá possa entrar um
coxo só com uma perna e sair a caminhar com as duas pernas”.
Embora certas igrejas (assim como as
outras religiões), afirmem que têm curas comprovadas pela medicina, e não ponho
em dúvida que algumas possam ser verdadeiras, infelizmente a informação que
muitas vezes nos chega dos médicos e psicólogos, é precisamente a contrária,
pois muitas doenças, em especial do foro neurológico e distúrbios mentais, que
a teologia classifica como possessão demoníaca, são consequência do fanatismo
religioso. É precisamente isso que faz crescer certo tipo de igrejas, pois
muitos vão por curiosidade, para ver o espectáculo, numa atitude que faz
lembrar Actos
16:16/20
6. Conclusão
Gostaria, se possível, de terminar esta
reflexão com uma conclusão. Ou se tal não for possível num assunto tão difícil,
em que seria desejável outras opiniões, em especial dos profissionais de saúde,
que convido a escrever, darei pelo menos a minha opinião, tal como me pediu o
irmão que me contactou do Brasil.
Não podemos limitar o poder de Deus, nem
negar ou confirmar a existência de seres demoníacos. Mas como crentes, temos de
tentar separar o que é encenação das igrejas do verdadeiro poder de Deus.
Pessoalmente, penso que o maior
obstáculo para Deus curar, são os próprios crentes. Já no Novo Testamento,
vemos que Jesus não confiava nos que O procuravam só por verem os sinais e para
serem alimentados e curados. João
2:23/25
O que é que as igrejas procuram com
essas “curas”? Não é a exaltação do pregador? Ou a exaltação e crescimento da
igreja em número de crentes? O aumento das contribuições?
Penso que Deus tem motivos para NÃO nos
responder, quando tentamos utilizar o seu poder para benefício próprio. Já
tenho recebido convites para ir ouvir o grande pregador A ou B, no dia tal às
tantas horas, quando o Senhor irá derramar o seu Espírito, e uma vez até
perguntei: “Já avisaram o Espírito do Senhor para estar disponível no dia e
hora que vocês decidiram?
Que fique bem claro que, quando digo que
não acredito na maior parte desses “milagres”, não ponho em dúvida o Poder do
Senhor. Já estou habituado a que me chamem de incrédulo e já nem ligo a isso.
Deus intervém se assim o entender,
quando entender, e como entender. Por vezes utilizando as ocasiões que a
teologia considera inoportunas e empregando métodos que a nossa tradição
considera impróprios, para que fique bem claro que só Ele é soberano.
Esta é a minha posição, prezado irmão
Macedo.
Com um abraço fraternal do seu
companheiro na meditação e investigação do pensamento do nosso Mestre.
Camilo – Marinha Grande,
Portugal
Dezembro de 2006.