Obrigatório orar em nome de Cristo? (CC)
Vi há tempos, a seguinte
afirmação, numa revista de escola dominical, que é traduzida doutra revista
americana:
O Ricardo estava ausente de casa numa viagem de negócios. Com
saudades da família, ele decidiu telefonar-lhes do hotel em que estava
instalado. Mas, sempre que marcava o número aparecia-lhe a mesma voz: “Para
estabelecer a ligação tem de usar um código de acesso”. Farto de ouvir a mesma
mensagem, ligou para a recepção de onde o informaram de que precisava de um
código para completar a ligação, de forma a que as
chamadas telefónicas lhe fossem debitadas na conta. Esclarecida a questão, o
Ricardo lá conseguiu ter uma agradável conversa com a sua esposa e filhos.
Da mesma forma, Jesus é o nosso código de acesso a Deus. Por
causa do Seu nome, o nosso gozo se cumpre quando falamos pessoalmente com Deus.
Assim sendo, temos mais uma forma de compreender o valor de orarmos em nome de
Jesus.
Isto levanta várias
questões, a todos nós, quer os que “aprenderam” deste tenra idade, que devemos
orar sempre em nome de Jesus, quer os que têm recebido esse “ensino” desde a
sua conversão.
Afinal, porque oramos a
Deus o Pai, em nome de Jesus? Se não for assim, Deus não nos pode ouvir? Ou
será que é para "dar mais força" às nossas orações? Ou será para
obrigar, ou de certa maneira pressionar a Deus a atender os nossos pedidos?
Em primeiro lugar, julgo
que ninguém tem dúvidas de que o homem está perdido e só através da morte de
Cristo em seu lugar poderá ter acesso ao Pai. Esta é a mensagem básica dos
evangelhos. É através do sangue de Cristo que temos acesso ao Pai. Isto não
está em dúvida, mas sim a obrigatoriedade de terminar as orações dizendo “... é em nome de Cristo que oramos”, ou outra frase idêntica.
Vejamos as informações
que temos na Bíblia, e em particular o que o próprio Jesus nos ensinou sobre o
assunto.
Encontramos mais de 40
referências à oração e ao verbo orar, no Novo Testamento.
Vejamos o que podemos
concluir destas passagens:
1) Temos alguns exemplos
de oração e a tal frase nunca é utilizada.
2) Há passagens
didácticas sobre a oração em algumas epístolas, e nunca se nota a preocupação
com este pormenor.
3) Na oração padrão que
Jesus ensinou, quer na versão de Mateus
6:9/13 quer em Lucas
11:2/4, a oração termina sem a afirmação de que oramos em nome de Jesus.
A expressão de Jesus “Em
meu nome” aparece várias vezes nos evangelhos, quando se refere a:
1) Receber um menino em
nome de Jesus.
2) Reunirem-se dois ou
três em nome de Jesus.
3) Dar um copo de água
em nome de Jesus.
4) Expulsar demónios em
nome de Jesus.
5) Envio do Espírito
Santo em nome de Jesus.
É neste contexto bíblico
neotestamentário que devem ser lidas as seguintes
passagens, todas elas registadas pelo evangelista João.
João
14:13/14 E, tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei,
para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome,
eu o farei.
João
15:16 Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei,
para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que, tudo
quanto em meu nome pedirdes ao Pai, ele vo-lo conceda.
João
16:23/24 E
naquele dia, nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo
quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há-de dar. Até agora nada
pedistes em meu nome; pedi e recebereis, para que o vosso gozo se cumpra.
João
16:26/27 Naquele dia, pedireis em meu nome, e não
vos digo que eu rogarei por vós ao Pai; pois o mesmo Pai vos ama; visto como
vós me amastes, e crestes que saí de Deus.
Em primeiro lugar, não
vemos aqui uma norma de oração para ser rigorosamente cumprida, mas uma
permissão que Jesus nos dá, de pedirmos em seu nome. Mas o que significa pedir
em nome de Cristo?
No contexto cultural em
que Jesus viveu, a expressão em nome de alguém, significava muito mais do que o
simples mencionar do nome.
Não se trata dum simples
ritual ou fórmula litúrgica ou até fórmula mágica. O nome, na cultura hebraica
implica tudo que o nome sugere.
Em nome de Cristo,
significa uma perfeita sintonia com o pensamento de Cristo, sua autoridade e
seus valores. Temos em Actos
4:24/31 um bom exemplo duma oração com a mentalidade de Cristo, embora não
se mencione que oravam em nome de Jesus Cristo.
O importante não é
afirmar que se ora em nome de Cristo, mas sim que essa sintonia com o nome de
Cristo seja uma realidade, pois se essa condição não existir, a simples
afirmação de que se ora em nome de Cristo, não passará de simples ritual
destinado a ser ouvido pelo homem religioso, mas que nada significa para Deus o
Pai.
Para concluir, gostaria
de contar uma velha história que pode bem ilustrar a nossa posição, quando
utilizamos impensadamente a expressão em nome de Cristo, ou pior ainda se a
utilizamos pensando assim pressionar a Deus a ouvir as nossas orações.
Houve dois jovens que
foram mobilizados para a guerra de África. Um era natural do norte de Portugal,
e ou outro era do Algarve, bem a sul de Portugal.
Tornaram-se amigos
inseparáveis, pois sofreram juntos os horrores da guerra, e juntos correram os
mesmos perigos, até que certo dia, o jovem do norte de Portugal é ferido
mortalmente. Os seus últimos pensamentos foram para o seu pai, e diz ao seu
amigo. - Eu vivia sozinho com o meu pai. Sou filho único e o meu pai não tem
mais ninguém. Nem sei o que lhe vai acontecer, quando souber que morri. Mas há
um pedido que te faço, que é a única coisa que o poderá ajudar. Se conseguires
voltar a Portugal, vai falar com ele e diz-lhe que foste meu amigo e estiveste
comigo até ao fim.
A guerra terminou, o
jovem algarvio volta a casa, mas não se esquece da promessa que fizera ao seu
amigo. Na primeira oportunidade, num fim de semana
mais prolongado, faz a viagem ao norte de Portugal para localizar o pai do seu
amigo.
Consegue localizar a
aldeia e pergunta pelo Senhor João, o pai do seu companheiro, mas recebe a
seguinte resposta.
- Ele mora nessa casa
isolada que se vê lá ao longe, mas nem pense que consegue falar com ele. Esse
velho quase que enlouqueceu quando soube que o seu único filho morreu na
guerra. Vive isolado e não quer falar com ninguém.
Mesmo assim o jovem vai
tentar falar com o pai do seu amigo. Depois de trepar pelos caminhos do monte,
chega a uma casa isolada com todas as portas e janelas trancadas.
Bate à porta, mas
ninguém lhe responde. Insiste e chama pelo Senhor João, dizendo: Eu vim do sul de Portugal só para lhe falar.
Eu sei que me está a ouvir. Peço-lhe só um pouco de atenção... Tudo em vão.
Ninguém responde.
Quando já desiludido, o
jovem se prepara para desistir, diz ainda: Tenho
muita pena que não me tenha atendido, pois eu estive com o seu filho....
Parece que foram as
palavras mágicas. Ouve-se imediatamente o abrir das portas e o velho respondeu:
Espere aí... Não se vá embora... Você
esteve com o meu filho?!!! Eu quero falar consigo.... Entre que a casa é sua.
Agora, que pensaríamos
nós desse jovem se ele dissesse: Então é esse o código que tenho de utilizar
sempre que falar com este velho, é essa a frase que tenho de repetir... estive
com o seu filho.... estive com o seu filho..... estive com o seu filho?
O que pensaríamos nós da
sua sensibilidade e do respeito pelo pai do seu companheiro?
Pois foi isso que eu fiz
tantas vezes, ao terminar as minhas orações dizendo impensadamente
....... Desculpem, mas não vou repetir sem necessidade, por respeito ao
nosso Pai.
Procuremos estar em
sintonia com a mensagem de Jesus, e com o seu pensamento.
Procuremos actuar como
Ele nos ensinou, para que através do Espírito Santo, Jesus possa actuar através
dos seus, e então, o Pai nos concederá a bênção de orarmos como Jesus orava.
Camilo - Marinha Grande